MODA & BELEZA

 
5 de novembro 2016 - às 13:11

CRISA SANTOS DESABAFA: INDÚSTRIA DA MODA CONTINUA NAS BORDAS DO SECTOR

Marcelina Glória ou melhor Crisa Santos é uma apaixonada e profunda conhecedora do mundo da moda internacional. Há mais de quatro anos ela tem a responsabilidade da editoria de moda da revista Figuras&Negócios, assinando os seus trabalhos com o nome de Crisa Santos.

Nesta edição, elegemos Crisa, para debitar a sua opinião sobre o mundo da moda em Angola e das perspectivas que se abrem para um sector que, segundo as suas palavras, tem muitas potencialidades mas ainda continua nas bordas do sector industrial

 

Figuras&Negócios (F&N)-No contexto do desenvolvimento económico do País, que importância atribues à moda? E achas que isso é bem compreendido e entendido na sociedade?

Marcelina Glória (MG)- Em Angola a indústria da moda é relativamente nova, possui características atractivas mas ainda continua nas bordas do sector. A capacidade de produção e as infra-estruturas internas estão a prejudicá-la. Os desafios que enfrenta são vários, não existe uma indústria têxtil, a educação relacionada com a indústria é outro grande desafio à necessidade de uma indústria de moda local bem estruturada, tanto na área de  produção como na de consumo tornando difícil convencer o mercado internacional.

Actualmente, ser autodidata ainda é praticamente a norma entre estilistas angolanos. Há uma carência de entidades reguladoras funcionais que regem a profissão dos designers. É necessário formar entidades reguladoras, cujas responsabilidades incluam o sector primário fornecendo recursos para os membros, realização de políticas públicas e relações governamentais com os legisladores estabelecendo práticas da indústria aceitáveis para permanecer competitiva, tanto localmente como no exterior. Fabricantes de têxteis e produtores agrícolas devem colaborar para defender incentivos de infra-estrutura e governamentais mais fortes que podem ajudar a aumentar a produção de matérias-primas, como o algodão.

F&N- Tens alguma receita para a afirmação da moda de Angola no contexto africano e mundial?

MG - Hoje a indústria da moda não só movimenta uma parte significativa da economia  no mundo industrializado como também determina hábitos e cria novos desejos a cada dia, em todas as camadas sociais. 

Mas para que a moda Made In Angola, os designers angolanos  façam parte permamente do contexto africano e mundial, a ferramenta de desenvolvimento tem de vir de braço dado com a reconstrução de uma indústria moribunda, com a recuperação de um património visual e a  formação. O bom é que tudo isto se constrói e se ensina. O que não se ensina é aquilo que os angolanos parecem ter de forma natural: uma maneira de conjugar cores, tecidos e texturas, uma criatividade natural de gente que não tem escolas de moda nem acesso semanal  às grandes bíblias internacionais, como a “Vogue”, a “Elle”, a “Harper’s Bazaar”., “In Style”, etc mas tem o que não se ensina, o tal dom - chamemos-lhe assim - de simplesmente saber fazer. E querer fazer!                                                                 F&N- Temos talentos, quer na criatividade (estilistas) como nas passarelles(modelos)? As referências que se afirmam no mundo da moda mundial, o que te dizem quando se sabe que existem poucas estruturas no País que trabalham de forma organizada para o engrandecimento da moda?

MG- Quanto às modelos, as   angolanas exprimem a beleza feminina africana com um contrato substancial sem preco .

Essas e outras conquistas da mulher angolana  têm  sido fundamental para a inserção e valorização da mulher negra na indústria da moda, o que tem proporcionado o reflexo da própria mulher, sua personalidade forte, pensamentos e luta pela igualdade. 

F&N- Quais os estilistas angolanos que destacas e quais as modelos que acreditas que possam vir a ter um grande futuro no mundo da moda?

MG - Com um caminhar militarmente assertivo, os charmosos pivós Sharam Diniz, Amilna Estêvão, Maria Borges, Roberta Narciso, Elsa Baldaia, Mauza António, Kalumueziko Pedro e o Glen Abrantes mostram o seu savoir-faire secular como modelos  de alta-costura “Por incrível que pareça, a diversidade ainda é um desafio, um sonho distante”. 

A missão delas é desenvolver roupas e acessórios de qualidade internacional mas especificamente para o mercado angolano. Nas obras da  Fiu_Negru by Mariangela Almeida, Soraya  da Piedade, Rose Palhares oferecem coleções editadas da cabeça aos pés com pontos de vista muito específicos, exalam elegância e sofisticação sem perder o charme.

Já não é só sobre as peças, mas sobre toda a apresentação. Para as consumidoras, é fácil identificar-se e transformar-se naquela “mulher” porque o trabalho já foi feito por elas».

F&N- Por que se diz,e há mesmo algumas estilistas que reafirmam, que na moda em Angola copia-se muito e se atropelam regras de direitos de autor? Isto hoje se justifica quando sabemos que o mundo é global? Há cópias ou inspiração de outras realidades que depois são adaptadas à realidade sócio/cultural de Angola?

MG- De facto, estamos perante o paradoxo da pirataria à propriedade intelectual que ainda constitui um aspecto muito atropelado em Angola, e  o sector da Moda reúne o maior número, especialmente em razão da cópia não autorizada ser prática comum no segmento. 

No mundo da moda, desde o aparecimento do vestuário na história até os casos mais actuais que afectam as marcas os consumidores e principalmente o mercado, se alimenta dos negócios e prestígios a partir desta prática.

A melhor forma preventiva é estabelecer uma estratégia de protecção aplicável ao caso, assessorando os criadores na obtenção dos possíveis registos das  suas criações perante os órgãos competentes, celebrando rígidos contratos, entre outras medidas pertinentes.

A imitação é uma forma de “conforto”, pois “não exige nenhum esforço criativo e pessoal” (SOUZA e OELZE, 1998, p.162).

E no caso da moda, ela satisfaz dois lados: a necessidade da diferenciação individual e a igualdade social, aquelas que todos seguem. As causas da cópia ou imitação na moda são factores  que  estão intrinsecamente ligados ao consumo e ao comportamento do consumidor da época.

F&N- A Indústria têxtil em Angola começa a dar os primeiros passos para o seu ressurgimento. Que repercussões isso terá para a afirmação da moda ?

MG- Penso que irá ampliar a  competitividade, diferenciação, conquista de mercados, acesso ao emprego de profissionais no sector; modernizar a estrutura produtiva e apoiar a consolidação empresarial; desenvolver produtos com maior valor agregado: expandir exportações, combater práticas desleais de comércio e fortalecer a cadeia produtiva.

As tecnologias e inovações aplicadas ao universo da moda tornaram-se indispensáveis e um factor crítico de sucesso pela eficiência que conferem a toda a indústria têxtil e de vestuário.

F&N - No mundo da moda, como a Crisa se define? Acha-se descomplexada ou ainda presa a conceitos limitadíssimos quanto à forma de pensar e estar na moda?

MG - Ahhhh bem, eu sou uma mulher formada a partir de pedacinhos da vida. A mesma essência diferente função  e fashion-forward. Nada de limitações mas sim adaptações   a muitos dos princípios que norteiam a mulher, independente da idade. Destaco a importância de usar a roupa de acordo com o meu  estilo, idade, lugar, momento, etc. Em resumo, o  meu estilo pessoal é uma extensão daquilo que sou como  pessoa, baseia-se  na minha  profissão, no meu biotipo, onde vivo, onde nasci, etc.  

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