SOCIEDADE

 
5 de novembro 2016 - às 12:36

COMUNICAÇÃO SOCIAL E EDUCAÇÃO (FORMAL) –CASAMENTO OU DIVÓRCIO?

A história da Humanidade vive hoje uma aceleração sem precedentes

 

A previsibilidade dos acontecimentos que constituía uma das grandes pesquisas da Ciência Política tornou-se hoje impossível em face da incerteza dominante nos mais diversos sectores da vida organizada, levando ao surgimento de um novo conceito, aliás curioso, de "random walk" ou "caminhada aleatória" na chamada análise sistémica.

As estruturas estáveis do passado, em uníssono, parecem ter entrado em ambiente de crise. O sistema económico é incapaz de gerar emprego, a cooperação internacional não evita o alargamento do fosso entre países ricos e países pobres (“promovendo” movimentos migratórios incontroláveis), as fórmulas tradicionais de representação política não satisfazem, os códigos de conduta em comunidade são pulverizados pelo crescimento tentacular da corrupção e a cidade, a nossa polis - outrora índice de civilização e de progresso - é hoje palco de degenerescências anómicas (ausência de leis ou de organização = ANARQUIA) que atingem os padrões de convivência, e as culturas de tolerância cedem o passo a fanatismos de toda a ordem, à xenofobia e ao racismo.

A "cultura de paz" (muito cara aos angolanos), na curiosa expressão de Federico Mayor, e que agora se instalou, depois de uma cultura de guerra durante séculos, é, paradoxalmente, portadora de devastadores ventos de mudança que estão longe de se poder considerar dominados.

A verdade é que paira um sentimento de perplexidade, quase impotência, perante o vórtice consumidor da marcha dos acontecimentos, o qual vem amplificado no nosso quotidiano pelas tecnologias da informação e da comunicação, que transmitem instantaneamente a notícia feita imagem, som e texto, numa aldeia global cada vez mais interdependente.

Os meios de comunicação social são o novo oráculo portador da verdade universal. Somente o que acontece na comunicação social existe e nada pode ter lugar sem que aquela se encarregue quase de o certificar. O mundo transforma-se então num teatro gigantesco onde se representa o acto maior da existência humana, o qual se faz espectáculo permanente de uma narrativa que é objecto de difusão por toda a família humana.

As histórias veiculadas em suporte material ou hertziano não conhecem fronteiras físicas, nem políticas, nem económicas, nem ideológicas. O quotidiano e os seus dramas deixam de constituir património privativo dos respectivos actores principais para se elevarem à categoria de bem público partilhado pela comunidade inteira dos povos. Numa ordem livre, como se pretende que seja a nossa, a informação multiplica-se indefinidamente e é o valor acrescentado mais precioso da nossa nova ordem económica e cultural. O acesso a volumes crescentes de informação e a sua sábia gestão constituem hoje o motor vital que "empurra" a história dos povos.

Tudo isto tem levado a que alguns pensadores proclamem o "direito à não informação" como direito básico que assiste ao cidadão moderno. Do mesmo passo, alguns países que crescem a elevados ritmos (como a China) proíbem a proliferação no seu território de parabólicas, procurando assim garantir, ainda que ilusóriamente, o controlo da informação que lhe estava a escapar em cada dia.

Mas as novas tecnologias não podem ser contidas. A era da televisão interactiva já é uma realidade, potenciando em escala ainda inimaginável as sinergias entre o audiovisual, a informática e as telecomunicações. As megafusões em curso, um pouco em todo o mundo (ex. na Europa e nos Estados Unidos), entre as maiores empresas de televisão por cabo e os grandes empórios de telecomunicações fazem adivinhar a emergência próxima, e cada vez mais acentuada, a de um "menu" de serviços domésticos "à la carte" que cobrirá todos os domínios de interesse humano. É como se nos entrasse pela casa dentro um enorme supermercado de serviços, acondicionado primorosamente por forma a caber no interior do nosso vulgar aparelho de televisão.

Não é mesmo difícil imaginar o futuro consumidor doméstico munido de um telecomando na mão a seleccionar pacotes de formação ou de reciclagem profissional, após se ter submetido pelo mesmo dispositivo a um teste individual que lhe permitiu aferir as suas principais vulnerabilidades nas mais diversas vertentes de conhecimentos. Não será, neste contexto, por acaso que a UNESCO e a Comissão Internacional para a Educação no Século XXI estejam a ponderar muito seriamente a criação de um satélite educativo completamente devotado a ser um instrumento de formação acessível a todos e capaz de penetrar com a sua oferta educativa até às zonas mais recônditas do planeta.

Na ilustrativa expressão de Alain Mine vivemos a era do Media-Choc, que revoluciona os modos contemporâneos de vida e que deu o título a uma das suas mais conhecidas e recentes obras.

Nestas condições, as questões que se colocam são urgentes, candentes e pertinentes. A comunicação social, que é indiscutivelmente a principal fonte moderna de informação e de entretenimento, poderá também ela desempenhar um papel fundamental como instância privilegiada de educação? Essa é a questão fundamental que se nos coloca a debate. Em caso afirmativo, no caso de se reconhecer que ela deve e pode ser uma instância privilegiada de educação, como deverá ela relacionar-se com os centros tradicionais primários de educação como a família e a escola (educação formal)?

Afigura-se-nos óbvio que os meios de comunicação modernos serão crescentemente solicitados ao desempenho de tarefas educativas no âmbito da conhecida trilogia de funções cometidas à comunicação social: entreter, informar e educar. Se bem que os dois primeiros termos desse triângulo ocupem inegavelmente a primazia nos mass média actuais numa oferta determinada por critérios de natureza comercial, as preocupações educativas têm tendência a aflorar, crescer e impregnar o próprio entretenimento e a informação qualificada.

Numa lógica estrita de mercado - e não podemos ignorar que estamos imersos no mercado de procura e de oferta de comunicação - a principal evolução terá de se verificar ao nível da procura, já que a oferta propenderá sempre a adequar-se aos seus imperativos e à sua lógica implacável, aquilo que eu chamo o meta-efeito da educação. Quanto maiores forem os índices educacionais de uma população, mais adequada será a procura e o exercício da procura para bens educativos nos grandes mecanismos da comunicação social; quanto menos educada - e é manifesto que Angola tem um "handicap" muito grande - for a população em geral, mais difícil será configurar uma procura por parte da população média para uma oferta de lógica educativa.

A excepção a este mercado - a uma lógica ditada pura e simplesmente pela procura - reside, como é evidente, na definição, no financiamento e no funcionamento de um autêntico serviço público, designadamente de televisão, susceptível de gerar uma oferta sistemática de intencionalidade educativa que fuja deliberadamente ao quadro comercial em que se joga necessariamente a sobrevivência económica dos figurinos empresariais privados.

A clarificação desse conceito de serviço público por forma a ultrapassar as ambiguidades vigentes (também no nosso país), que impendem sobre os operadores estatais, nomeadamente o operador estatal de televisão, é a esse título inadiável para a defesa das regras de concorrência leal, assim como para uma maior transparência na utilização dos dinheiros públicos que financiam esse serviço público e que a comunidade gera com sacrifício.

Na verdade, será concebível exigir aos canais privados de televisão que ponham de lado os imperativos comerciais, ou seja, a sua viabilidade económica e financeira, para incorporar uma missão educativa exclusiva ou forte, se o correspondente estatal, que é generosamente subvencionado pelo Governo como contrapartida da prestação, em regime de monopólio, de um serviço público à comunidade, não abdica de um comportamento ferozmente ditado pela lógica do domínio quase monopolista do mercado publicitário?

Um exemplo interessante nesta matéria é o Japão, país que nos dá lições a vários títulos, tendo embora aspectos também reprováveis, onde um dos canais da televisão pública (que são quatro), tem um “perfil” totalmente original no mundo: emite diariamente, desde as seis horas da manhã à meia-noite, programas educativos que são articulados e combinados com as escolas, os quais são correntemente utilizados como instrumento didáctico, como material de ensino-aprendizagem em sala de aula.

Neste caso, verifica-se que a NHK (televisão pública japonesa), nos dá uma justa medida de como uma estação pública de televisão, financiada fora da pura competição publicitária, pode fugir à mera repetição de modelos comerciais e, consequentemente, pode estar apta a incorporar uma componente educativa forte construída de parceria com o próprio sistema educativo. Não é uma escola paralela, não é um segundo sistema educativo que conflitua com o primeiro, é um entrosamento completo entre uma cadeia de televisão e o próprio sistema educativo.

 

Com efeito, a comunicação social pode oferecer ao serviço educativo uma variedade de importantes vantagens comparativas que poderíamos elencar:

a) Penetração - ou seja, a oportunidade de atingir em simultâneo uma vastíssima clientela nacional, e até supranacional, no caso do satélite da UNESCO acima referido.

b) Economias de Escala - traduzidas em baixos custos unitários de investimento, funcionamento e operação, potenciando economias de escala num contexto de recursos escassos em que se torna necessário recorrer a instrumentos que sejam a um tempo eficazes e baratos.

c) Atractividade - através do recurso fantástico e maravilhoso às extraordinárias potencialidades de grafismo, tridimensionalidade, cor, visualização, aquilo que no fundo faz o encantamento das crianças perante a comunicação social, nomeadamente perante a publicidade, um dos aspectos mais decisivos onde se joga a educação ou a deseducação nas nossas sociedades. A atractividade também está presente na capacidade que todos os professores têm de conseguir aguentar a atenção e curiosidade dos educandos, criar centros de interesse durante muito tempo.

d) Individualização- pela proliferação de "software" versátil e pela difusão de meios pessoais de gestão tecnológica (cada vez mais disponíveis e a custos tendencialmente reduzidos). Refiro este aspecto para evitar a ideia de que a comunicação social é apenas massificação. Acesso às fontes de informação - por recurso a bases de dados cada vez mais disponíveis ao cidadão comum e a novos instrumentos pessoais de armazenagem e arquivo de informação. Quem diria, há uns anos atrás, que qualquer de nós pode ter em casa Gigas e Gigas para fazer a sua gestão pessoal de armazenagem de informação, o seu próprio banco de dados? Esta interactividade entre o computador pessoal, o aparelho de televisão, o audiovisual e a rede de telecomunicações permitirá ligar em rede todas as bases de dados individuais e colectivas da humanidade, o que é qualquer coisa de extraordinário, de inimaginável.

e) Contemporaneidade - mediante o olhar penetrante, o bisturi sobre a actualidade e a procura da análise e da melhor síntese interpretativa, que pode ser uma ajuda preciosa ao cidadão comum.

f) Pluralidade - pela abertura singular aos diversos ângulos de análise de cada facto ou fenómeno, em condições que afastam liminarmente o dogmatismo ou a unicidade de pensamento. Nunca o facto, o evento, foi tão plural como é hoje, em virtude desta pluralidade de leituras e da maravilhosa capacidade que a comunicação social tem de as fornecer, respeitando necessariamente o juízo e o critério final de cada pessoa e a sua liberdade individual de emitir opiniões. Acredito que a nossa sociedade caminha para uma maior liberdade, na medida em que cada vez mais ela acarinha e favorece a pluralidade das leituras (neste ponto seria necessário dar uma atenção particular às chamadas “redes sociais”).

A comunicação social é, assim, a principal fonte estruturante da Open Society de K. Popper, podendo igualmente ser intérprete de um poderoso movimento de democratização educativa. Em Jomtien, em 1990, foi lançado o grande movimento de uma Educação para Todos, que ainda hoje paira nas organizações internacionais, nos governos, nas administrações como grande "leit-motiv" da responsabilidade de toda a sociedade civil, governos, administrações, etc. Esse movimento teve o apoio unânime dos governos e das organizações internacionais, mas ficou desde logo evidente que tal desiderato apenas teria viabilidade e poderia ser atingido plenamente através de uma convocação dos principais meios de comunicação social e da sua convergência activa com as instituições educativas tradicionais.

Angola (ainda) não tem sido palco de experiências educativas realizadas através das novas tecnologias. Podemos elencar alguns exemplos, como sejam a Telescola (Portugal, Brasil e outros), que ainda hoje escolariza várias centenas de milhar de crianças que de outra forma ficariam privadas do acesso à educação básica; as “Universidades Abertas” e outros esquemas de ensino à distância para múltiplas clientelas, com relevo para os docentes, e campanhas de educação de adultos com recurso a meios multimédia (exemplo de muitos países da América Latina).

Noutro plano, merecem referência experiências muito importantes de mobilização educativa em tomo de projectos como na área da imprensa (“A Nova Gazeta”), os programas de difusão da língua portuguesa através da rádio (Rádio Nacional de Angola) e o "Fórum Estudante", levados a cabo em televisão.

Entretanto, a implantação dos centros de recursos educativos multimedia com o objectivo de servir núcleos de estabelecimentos de ensino em âmbito descentralizado (as Mediatecas Públicas) não deixará de potenciar a cumplicidade entre os docentes e as novas tecnologias, abrindo assim espaço a um vasto e profícuo campo de colaboração.

Esta rede nodal de centros de recursos, largamente gerida pelos próprios utentes ao nível de escola, deve crescer exponencialmente e será no futuro preciosa para sustentar acções de ensino à distância catapultadas eventualmente de urna unidade coordenadora centralizada mas fortemente dependente de centros de apoio que em cada região ou localidade sejam capazes de gerar complementos de actividades presenciais, sem as quais aquele ensino se toma largamente impessoal e ineficaz.

Neste particular, é preciso ter em conta as potencialidades do ensino à distância, especialmente relevante na promoção da identidade e cultura nacionais. Da mesma forma, a formação contínua através de meios à distância poderá ultrapassar os constrangimentos de espaço e de tempo na implementação de uma estratégia ousada de estruturação de um mercado de emprego balizado pela mobilidade e pela flexibilidade na creditação dos conhecimentos (importante ser associada ao Programa Nacional de Formação de Quadros). A multiplicidade de procuras de formação que um esquema deste tipo iria desencadear, parece evidente que uma mera resposta ao nível do ensino presencial, sem o recurso a meios de ensino à distância e aos potenciais da comunicação social, seria impensável.

De certa forma, com este encurtamento dos tempos de trabalho e da vida profissional em contexto de emprego, é possível retomar os três tempos conjugados da vida humana: tempo de trabalho, tempo de investimento e tempo de lazer. A redução do período de trabalho na vida útil do indivíduo reduz o tempo de produção e vai disponibilizar muito mais tempo de investimento pessoal e tempo de lazer e, consequentemente, a necessidade de estruturar não apenas observatórios de diagnóstico permanente de necessidades, como oportunidades de aquisição de fontes de resposta de oferta de novos conhecimentos.

Repare-se que estamos a entrar numa era completamente diferente; a maioria das pessoas fez a sua educação formal, numa altura em que a sua vida humana seguia tempos sequenciais: o de educação, seguido do de trabalho, (o tempo activo), seguido do de reforma ou de lazer. Cada vez menos isto é verdade, pois o tempo de educação e de formação tem que permear todas e cada uma das etapas da vida humana. Daí a importância crescente da formação contínua num contexto de formação integral.

O ensino à distância com suporte nos meios de comunicação social é, assim, convocado por diversas razões e pelas mais diversas fontes a desempenhar um papel ainda mais decisivo do que aquele que já ocupou nos últimos anos, sendo razoável pensar que ele se transformará, à prazo, no mais vasto instrumento de formação contínua nas nossas sociedades.

Podemos aproximar-nos duma "cultura popular", quase de um "elitismo popular", apoiado nos media e que pudesse tomar corpo gradualmente nas nossas sociedades. Isto será possível se, para além das abordagens tradicionais de educação, se puder realizar a extraordinária potencialidade da comunicação social e utilizar a vastidão dos seus auditórios para iniciativas de difusão da ciência, da disseminação e do debate de ideias, de acções de educação para a saúde, de formação cívica, etc., dentro de um pacote largo e de uma visão descomplexada e de espectro amplo daquilo que uma comunicação social responsável e interveniente pode fazer nessas mais diversas vertentes.

A própria liberdade e a democracia seriam hoje inimagináveis sem o concurso vital da comunicação social, que atinge os limites sensoriais da política espectáculo, do megadebate, do supercomício e do televoto. Hoje seria inimaginável uma campanha eleitoral sem televisão, rádio ou imprensa. A própria liberdade e a democracia estão, hoje, intrinsecamente combinadas e entrosadas com o funcionamento da comunicação social como instrumento de ajuda à escolha livre e de elucidação dos cidadãos.

O aproveitamento de todas estas possibilidades que temos referido e que abrem rasgadas avenidas de inovação educacional, não apenas na substância, como sobretudo na forma e nos métodos, pressupõe uma forte aliança de estratégias entre a família, a escola e a comunicação social. Esta afirmação, porventura já feita muito repetidamente em vários "fori", tem-se revelado, todavia, mais viável no plano teórico do que no terreno da consecução prática.

Com efeito, a comunicação social é muito frequentemente dominada pelo paradigma da agressividade comercial, tudo sacrificando em nome das audiências ou da maximização das vendas. Na informação impera não raramente o sensacionalismo que se sobrepõe à pesquisa serena da verdade; no entretenimento faz-se muitas vezes apelo aos instintos mais negativos, aos sentimentos mais destrutivos da condição humana, procurando chocar para atrair; no debate a forma é quantas vezes mais importante do que a substância da questão (ex. os “Reality Show”).

Não espantará, assim, que por todo o mundo se assista a um recrudescimento da preocupação com os rumos da comunicação, com especial relevo para a televisão. Em especial, o índice de violência no écran vem sendo denunciado como factor de perturbação social, não faltando aqueles que apontam acusadoramente o dedo à televisão quando ocorrem eventos tão chocantes como assassinatos urbanos recentes e guerras, por exemplo.

Torna-se difícil distinguir com exactidão se a televisão é geradora de violência ou se se limita a reflectir a violência que existe na sociedade. Duma forma ou de outra, sendo um espelho ou uma janela da sociedade, os meios de comunicação social podem e devem ser um importante aliado de uma estratégia consequente de contenção do excesso de violência que invadiu o dia-a-dia comum do cidadão.

Se houvesse um processo medidor da quantidade de violência que existe na nossa sociedade, não creio ser verdade que hoje a quantidade de violência é superior àquela que existia na humanidade há cem ou há quinhentos anos atrás. O que julgo, sim, é que em primeiro lugar a violência hoje difunde-se e retrata-se e aparece em casa de cada pessoa através dos meios de comunicação social; por outro lado, e felizmente, houve uma evolução da consciência moral da humanidade que tomou menos toleráveis alguns exercícios de violência que dantes eram mais facilmente tolerados (por ex. a violência doméstica).

Mas, se a comunicação social transporta algumas culpas, as instituições familiar e escolar não deixam igualmente de as ter ao demitirem-se frequentemente da sua verdadeira função orientadora e educativa, designadamente no plano de uma educação para os valores. A educação não se esgota numa mera transmissão de conhecimentos, o que seria algo de monstruoso. Para o ser genuinamente, ela não pode deixar de incidir sobre critérios fundamentais de escolha em tudo o que concerne a esfera dos valores universais ou universalizáveis, como sejam a liberdade, o valor da vida, a justiça, a solidariedade, a tolerância, o respeito pelo outro e pelo ambiente em que vivemos. Pessoalmente, não posso conceber uma educação na família ou na escola que seja rigorosamente indiferente ou neutral perante a liberdade ou a opressão, perante a tolerância ou a violência rácica, perante a justiça ou a injustiça; isso seria tremendamente destruidor do capital acumulado de património ético na humanidade.

Uma educação pseudo-neutral, que não arrisca penetrar no complexo mundo da formação de conceitos morais e das exigências da dimensão relacional, lavando daí as mãos em nome de um pragmatismo relativista, prescinde da vertebração nuclear da função educativa e reduz o acto educativo a uma mera instrução tecnocrática.

Do mesmo modo, de nada serve a litania de acusações que, com frequência, os meios de educação clássicos, como a escola, disparam contra a comunicação social. O confronto é desigual e, a persistir, acabará por se virar contra a própria escola e contra a família.

Num inquérito recente feito num país europeu, alguns jovens alunos entre os onze e os catorze anos de idade foram solicitados a pronunciar-se sobre valores contrastantes da escola e da televisão. Os resultados são bastante elucidativos quanto à caracterização que os alunos fazem dos traços dominantes de uma e de outra em confronto.

Este quadro é muito "branco e negro"; eu próprio não o aceito, mas ele obriga-nos a reflectir. Estou convencido de que se forem inquiridos os mesmos alunos no mesmo escalão etário em Angola (nomeadamente urbanos) não obteremos respostas substancialmente distintas ou diferentes destas. Este quadro é elucidativo quanto às consequências e aos inconvenientes de um conflito cego e persistente entre instituições.

Somente através daquilo que hoje se chama um sólido partenariado é que se poderão retirar as máximas potencialidades educativas da nossa sociedade de informação e abrir novas fronteiras de concertação eficiente de esforços.

 

Essa aliança toma por pressuposto um projecto educativo nacional, em cada centro educativo, em cada escola e na família, que não ignora a emergência da chamada geração da informação, do audiovisual e, por isso, é capaz de incluir uma frente ousada de "educação para os media", a qual deve compreender, entre outras componentes, as seguintes:

a) uma pedagogia apropriada do consumo dos media visando o exercício criterioso da liberdade pessoal perante a oferta torrencial e de diferente qualidade que invade os nossos quotidianos;

b) uma melhor e mais eficaz utilização dos media e das suas portentosas linguagens ao serviço do diálogo e da comunicação global;

c) a humanização do relacionamento pessoal com as novas tecnologias da comunicação e da informação e a densificação do relacionamento interpessoal através do pleno aproveitamento das mesmas, isto é, as pessoas já não têm que estar fisicamente próximas para densificar a sua rede de diálogo;

d) o equilibrado doseamento dos múltiplos media e a compreensão profunda das respectivas relações de complementaridade num mundo que não se pode ver reduzido a uma ditadura monomedia da imagem.

e) o entrosamento harmonioso entre o poder mediático da informação, cada vez mais fulminante e acutilante, a força da imaginação e da fantasia audiovisual, com o poder formativo da função educativa prosseguida em contexto institucional;

f) a implantação de uma utilização assídua da imprensa, da rádio e da televisão e do audiovisual como fontes altamente versáteis de situações estimulantes da aprendizagem escolar;

g) a mobilização da parafernália dos equipamentos multimedia que povoam os universos domésticos (televisão, rádio, discos, vídeos e computadores pessoais…), visando a constituição de redes de educação permanente e  de actualização cultural e profissional interactivas.

Uma educação para os media que vise abarcar todas e cada uma das dimensões deste fenómeno tem ainda de atender a uma vertente que cresceu exponencialmente em todos os diferentes segmentos da comunicação social. Trata-se da publicidade e do seu grande impacto sobre a vida moderna, que é pouco falado em termos educativos. Aceita se, suporta-se, é quase um fatalismo da sociedade moderna, mas pouco se reflecte.

A publicidade brotou como um dos mais importantes mitos e novos paradigmas das sociedades contemporâneas. Ela é a mais portentosa criadora de sugestões e de respostas materiais a uma ilusória procura de bem-estar em contexto consumista. É um vórtice permanente extremamente apelativo. As suas mensagens são concebidas num mercado de oferta superabundante de produtos dirigidos ao condicionamento do consumidor, visto como presa fácil e sugestionável do predador que é o anunciante.

Uma verdadeira educação para a liberdade e um verdadeiro projecto educativo nacional não pode prescindir de uma educação também para viver neste mundo povoado de mensagens publicitárias. Não pode prescindir do desenvolvimento de critérios sólidos de escolha e de autodeterminação num universo cada vez mais sofisticado e susceptível de atrair inapelavelmente sobretudo as nossas crianças, os nossos grupos etários mais vulneráveis. Veja-se o fascínio e a atracção com que uma criança vê publicidade na televisão, como ela fica praticamente rigidificada perante ela.

Somente pela educação é que a exposição continuada à publicidade não redunda em alienação, antes pode ser revertida em importante elemento de informação para fundamentar uma escolha feita em liberdade.

Em suma, o nosso mundo moderno coloca-nos perante um conjunto formidável de desafios inadiáveis.

Os períodos históricos de transição, como o que estamos a viver, são os mais exigentes em matéria de educação. É precisamente pela educação que honramos um legado patrimonial acumulado ao longo da história do nosso povo e que fortalecemos a identidade colectiva em torno de valores referenciais que cimentam a coesão nacional, a solidariedade específica que justifica o conceito de nação. Do mesmo passo, é a educação que permite a decantação de novos conceitos e a abertura de espírito que assegura a inovação social, a criatividade institucional e a evolução dos sistemas sócio-culturais.

Estamos a viver um período que defino como extraordinariamente apaixonante e não estamos adaptados. Sinto que há um profundo divórcio entre a Escola/Educação Formal e a Comunicação Social… a bem dizer o que tarda é um verdadeiro casamento!

Famílias mobilizadas para o desempenho do seu papel primordial na educação das novas gerações, escolas plenamente conscientes da mais-valia educativa dos seus instrumentos de ensino-aprendizagem, meios de comunicação social, designadamente aqueles que por dever e por contrato financeiro configuram um serviço público, que estejam preparados para assumir sem tibieza a quota-parte que lhes compete no projecto educativo da comunidade, bem como na preservação da identidade cultural, podem, em conjunto, constituir a combinação mais extraordinária de potencial educativo da sociedade actual.

Do sucesso desta sinergia vai depender, em larga medida, a possibilidade de provocar o amanhecimento de uma era educativa nova apetrechada para fazer face ao novo milénio.

A sociedade da informação em que estamos já mergulhados deverá ser a antecâmara da sociedade da educação do amanhã – que é já hoje – necessariamente numa sociedade do conhecimento. 

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