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5 de novembro 2016 - às 12:15

CARLINHOS ZASSALA, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE AGOSTINHO NETO "ESTAMOS A BANALIZAR O ENSINO SUPERIOR"

Carlinhos Zassala, Professor Titular da Universidade Agostinho Neto, Bastonário da Ordem dos Psicólogos de Angola, neste momento é o Chefe do Departamento de Psicologia da Universidade Agostinho Neto e Secretário da Primeira Região Académica do Sindicato do Ensino Superior. Numa conversa franca alerta para questões imperiosas como as condições de trabalho dos docentes, a fragilidade na investigação científica, bem como a politização dentro das universidades angolanas como um dos factores que as impede de constarem no ranking das melhores universidades em África 

 

Figuras&Negócios (F&N) - Neste momento como é que avalia o contexto do ensino superior angolano, em relação aos docentes e o próprio ensino superior nacional?

Carlinhos Zassala - A questão foi bem colocada, muitos falam da qualidade do ensino superior mas não conseguem determinar os factores que estão na base do ensino superior de qualidade. O Ministério do Ensino Superior realizou um encontro, no Centro de Talatona, onde apresentou dois projectos de pesquisa para que se saiba neste momento quais são os factores que estão na base do estrangulamento do Ensino Superior em termos de qualidade e em termos de investigação científica, onde foi dito, em 1990, quando tínhamos apenas a Universidade Agostinho Neto, que  a taxa de admissão do ensino superior era de 0,5 mas depois da criação das primeiras instituições do ensino superior ela subiu para um por cento e, neste momento estamos a dez por cento em termos de taxa de ingresso para o ensino superior, em termos quantitativos. Em termos qualitativos estamos ainda distantes. Muitas vezes falamos da qualidade do ensino superior mas ela deve iniciar na base, no ensino primário. Que tipo de educação e ensino temos e que tipo de sistema de educação e ensino devemos ter no país? Começando com o problema do ensino primário, ele é precedido do ensino pré-escolar, que consiste na educação e na capacitação dos sentidos, por isso insisto muito na educação sensorial, porque o ser humano consegue entrar em contacto com o mundo através dos seus sentidos e a psicologia diz que todas as aptidões não exercitadas atrofiam-se. Por isso, como vai, em primeiro lugar o ensino pré-universitário em Angola, esta é a primeira questão, diria até mesmo que, neste momento, não é substancial o ensino pré-escolar, vive-se quase apenas a nível das cidades mas também nem todas as crianças vão para o ensino pré-escolar, quando há falha a nível do ensino primário.  

F&N - Seria também necessário um exame nacional de acesso? 

C.Z. - Já existe um decreto presidencial sobre o exame nacional que regulamenta o exame nacional a nível do ensino secundário, quem termina o ensino secundário; deve submeter-se a esse exame nacional e os diplomas devem ser assinados pelo Ministro da Educação. Essa é uma das formas de nós combatermos certificados falsos. Quanto ao ensino superior, neste momento, quantitativamente, já podemos falar que demos passos importantes mas em termos qualitativos, estamos muito distantes. Aliás, o instrumento que costuma sancionar as nossas universidades angolanas, as publicações periódicas sobre o ranking das 100 melhores universidades de África não aparece nenhuma universidade angolana neste ranking, mas existem pessoas que têm coragem de dizer que temos ensino de qualidade em Angola. Se temos ensino de qualidade porque não aparecemos no ranking das melhores universidades?

F&N - A fraca cultura de investigação científica é uma das causas dessa baixa classificação? 

C.Z. - Justamente, não têm essa cultura. Vamos lá chegar. Primeiramente não há uma política de formação do professor universitário em Angola, hoje em dia estão abertos cursos de Mestrado mas estamos a obedecer àquele problema de estar na moda porque os cursos que neste momento existem são pós-laborais e, também, não são estruturados para poder formar o professor do ensino superior. Hoje em dia todos querem aparecer como docente universitário na imprensa, mas o docente universitário é aquele que tem uma formação cientÍfica, uma formação pedagógica adequada para poder preparar o estudante que está ao nível de graduação. Como disse no dia da universidade Jean Piaget, o nosso Ministro do Ensino Superior “para termos o ensino de qualidade temos de ter pelo menos mais de 60% do corpo docente a tempo integral”, mas hoje em dia dificilmente conseguimos ter corpo docente a tempo integral porque o professor universitário a tempo integral não tem condições socias e económicas adequadas.  Primeiramente, a maioria não tem uma habitação adequada, vive em zonas que durante as chuvas viram um verdadeiro pantanal, onde dificilmente se consegue sair em termos de meio de transporte; o professor universitário nunca foi contemplado neste país, tenho experiência de vários países como Congo, África do Sul, Namíbia, Costa do Marfim, Senegal, Uganda e outros em que o professor universitário é contemplado em termos de transporte. Colocou aqui o problema da investigação científica, a investigação científica exige, em primeiro lugar, tempo, exige também uma equipa de trabalho. Para podermos falar da investigação a nível da Universidade, em primeiro lugar, temos um estatuto da carreira docente que está bem estruturado, define as funções do assistente estagiário, do assistente do professor auxiliar, do professor associado e do professor titular, as funções estão bem definidas, mas lamentavelmente este estatuto de carreira docente não se aplica no nosso país.

F&N - Por falta de inspecção? 

C.Z. - Não só porque não são inspeccionadas, em primeiro lugar, apesar de existir o Decreto 90 que orienta como é que as instituições privadas devem funcionar. Por exemplo, o Presidente do Conselho Administrativo (PCA), que é o promotor da instituição não deve se imiscuir nos problemas académicos ou científicos, mas o que se verifica é que o PCA é que dá ordens numa instituição. Tenho conhecimento que em algumas instituições privadas o PCA orienta para admitir menos doutores e mestres e admitir mais licenciados porque os doutores e mestres custam caro, mas gostaria de dizer aqui que se a educação é cara experimentem, então, a ignorância. Penso que a ignorância é mais cara que a educação. 

F&N - Há ainda muito por fazer? 

C.Z - O grande problema é que na realidade nós não defendemos a academia, não defendemos a ciência, vivemos também o problema da política de exclusão, mesmo a nível do ensino superior. Temos que ter a coragem de separar a ciência da política partidária. Se não fazermos essa divisão entre a ciência e a política partidária nós não vamos nos aproximar na qualidade do ensino superior”.

F&N - Como é que devia ser a gestão das nossas universidades?

C.Z. - Se fossemos a seguir o que está regulamentado, esse problema não iria se verificar, existem critérios que o Ministério do Ensino Superior deve satisfazer para que os cursos sejam creditados, mas hoje em dia há uma promiscuidade entre academia e os presidentes dos Conselhos de Administração, que são os promotores das instituições, e, também, tivemos uma certa falha ao projectarmos muitas instituições do ensino superior mas não preparamos nem o corpo docente nem o corpo de gestores. Por isso o que está a passar na maioria das instituições do ensino superior, principalmente nos institutos politécnicos, é uma desgraça, uma anarquia quase total. Gostaria de lançar um apelo ao nosso Ministério do Ensino Superior para poder acelerar a marcha na moralização das instituições no ensino superior, em geral mas com particular ênfase no ensino privado.

 F&N - É o que deve ser feito aqui é a extinção de algumas universidades?

CZ - Deve ser feito porque, na realidade, nós estamos a banalizar o ensino superior. 

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