REPORTAGEM

 
30 de janeiro 2016 - às 16:42

CAMINHAR, CAMINHANDO GEOGRAFIAS DA DIVERSIDADE...

Somos dos que entendemos que não existe aprendizagem – em qualquer que seja o domínio do conhecimento – sem que essas aprendizagens sejam significativas, que sejam capazes de fornecer aquilo que eu chamo os “genes da mudança”, e sejam portadoras de “ferramentas de construção” que nos obriguem a continuar a aprender

 

Nessa esteira promovemos uma Visita Técnica ao Kuanza Sul, com os estudantes finalistas do Curso de Hotelaria e Turismo do INSUTEC – Instituto Superior Politécnico de Ciências e Tecnologias, com o objectivo de associar os conhecimentos teóricos adquiridos à observação prática/real, agregando aprendizagens, com relevância para “Gastronomia e Cultura”, “Mercados e Produtos Turísticos” e “Enologia”, numa parceria iniciática com as Organizações Ritz – Hotelaria e Turismo, Lda.

Todos sabemos, e reafirmamos amiúdas vezes, quão importante é para o futuro profissional contactar com profissionais no activo nas diferentes áreas e, dessa forma, partilharem a experiência e os conhecimentos sobre o sector, que procuramos, sistematicamente promover visitas técnicas, como a que ocorreu no fim de semana de 5/6 de Dezembro de 2015, ao Calulo - Fazendas Xixila e Cabuta.

Além dessa razão, já por si bastante, também não nos conformamos com a percepção que a “nova geração” mal conhece o país, na sua plenitude e diversidade, pior ainda para todos os que, de uma forma ou outra, têm de participar na promoção de Angola.

Quem não conhece... não ama! Quem não conhece não se identifica com o que somos, com o que já fizemos e com o que ainda e muito, há para fazer. Sem esquecer que a capacidade do país em se alavancar de maneira a ultrapassar as dificuldades com que está confrontado, passa pela diversificação da economia... passa por fazer emergir e por dar sentido e dimensão às suas potencialidades produtivas, nomeadamente de bens essenciais/alimentares. E grande parte dessa riqueza está no interior do país, lá onde os rios correm e a terra é fecunda.

As assimetrias (a começar pelas territoriais), e tanto mais quando são esmagadoras, são sempre sinónimo de não desenvolvimento, de efectiva incapacidade de gerar sociedades mais justas, mais equitativas e igualitárias, como, aliás, consagramos na nossa Constituição.

A “macrocefalia” do país, com o peso/dimensão exagerada da área metropolitana de Luanda é geradora de algumas coisas boas, mas, inevitavelmente, de muitas coisas más e, uma delas, é fazer esquecer que Angola é muito mais do que Luanda e o “país” não é só paisagem... é riqueza, a riqueza que os angolanos almejam e justamente merecem. É fazendo “acordar” o País que seremos verdadeiramente livres e independentes, podendo passar de país importador maciçamente de bens alimentares para país exportador desses mesmos produtos.

A expectativa era elevada, tendo a jornada proporcionado emoções intensas, genuínas, e descobertas que baloiçaram entre o requinte e o único. A entrega de todos, a cada um dos momentos da “visita”, até permitiu transformar em “aventura” alguns contratempos com o autocarro, vítima do grande (e único) senão do evento de fim de semana – as estradas!

Uma nota curiosa mostra bem o quanto ainda é difícil penetrar no país e ir em busca do profundo e do autêntico. Um desabafo/suspiro de uma estudante que, na picada Calulo Rancho de Santa Maria, do fundo do autocarro perguntava “será qua a Xixila existe?” (Xixila é o nome de uma das fazendas a visitar e onde ficaríamos instalados), isto a propósito das já longas horas de viagem, “solavancadas”, desde Luanda até às “Terras do Libolo”.

Se é verdade que o meio de transporte utilizado para a deslocação – o autocarro - não foi o mais adequado à interioridade e natureza do território, também não deixa de ser verdade que o estado de (des)conservação das estradas, da nacional às terciárias, constitui um efectivo adversário ao usufruto pleno e prazeiroso das “ofertas” desta rota.

São múltiplos os planos com que podemos “descascar” o “ser e o estar” nestas terras do Kuanza Sul... da hotelaria, ao turismo, do agroturismo, à agroindústria, da agricultura, à agropecuária, do turismo natureza, ao rural e ao desenvolvimento local, do enoloturismo e do turismo rural, do turismo aventura, ... ou tudo junto, numa lógica de multiplicidade, perfeitamente configurável no conceito de “rota”, a “Rota da Terra”, dos prazeres e dos lazeres! Proposta nossa.

Enfatizando um sentido de continuidade e de complementaridade temos o entrosado da “Xixila-Calulo-Cabuta-Waku-Kungo: a Rota da Terra” que apela a vários “encontros” sendo o de maior significado o que junta num mesmo território o passado, o presente e o futuro, que facilmente se advinha.

O mesmo será dizer um território-uma rota que nos permite viajar, com todos os sentidos (da vista que nos enche a alma aos paladares e aos olfatos que nos inebriam), do passado com o café (Cabuta, colonial/actual) e a pecuária (da carne aos lacticínios, na Cela), ao presente com a vinha, o vinho e os licorosos. E o futuro, o futuro que já se escreve, em tons de verde e de ouro... das oliveiras que tomam corpo, ao azeite que se adivinha.

Se a esta paleta de cheiros e de sabores juntarmos a razão e preocupações de sustentabilidade (económicas e sociais) fica nítida a existência de uma visão integrada, em que a natureza e a maturidade de cada um dos projecto confere amplitude às ideias e propósitos às decisões. 

Percebemos que, agora, o que é preciso é dar tempo ao tempo e valorizar (ainda mais) as pessoas, promovendo dimensões que mobilizem e que façam a diferença. Vimos muita entrega e sentimos “o vestir da camisola” nos colaboradores com quem interagimos, as equipas e os projectos precisam de bons líderes e de partilhas permanentes.

Muito se tem falado, ultimamente (e vai continuar a falar), em Angola, da diversidade da economia. E, falar é fácil. O que importa, o que verdadeiramente o país necessita é de iniciativas que tomem curso, que se efectivem paulatinamente, sem excessos (grandezas ocas), nem picuinhices retrógradas (sempre à espera de um subsídio ou de um corredor de facilidades). Não, não é disso que estamos a falar quando falamos dos empreendimentos que visitamos e que visualizamos na interessante “Rota da Terra”.

Ser assertivamente inovador, procurar os limites e saber quando e como ultrapassá-los, fazer escolhas, rasgando horizontes ao mesmo tempo que se “rasga” a terra com sulcos de fertilidade e de ... afectividade. Como diz o poeta António Gedeão “eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança...” e foi/é isso que está a acontecer para as bandas do Libolo.

Promove-se o desenvolvimento local; cria-se emprego (emprego progressivamente diferenciado – pecuária, agronomia, viticultura, hotelaria, turismo,...; produzem-se bens tangíveis (fundamentalmente alimentares) que permitem ao país subtrair às importações e, assim, reduzir a dependência externa; potenciam-se marginalidades, o interior/rural, o desporto, a cultura, a animação e a festa, ou seja, a essência do desenvolvimento local/rural, de base endógena, esse mesmo desenvolvimento que todos desejamos e que Angola merece.

É fundamental melhorar as acessibilidades (sem esquecer as ligações terciárias), promover a construção (e funcionamento) de entrepostos regionais, efectivar parcerias produção transporte comercialização, promover no urbano o rural que emerge e se afirma e, muito certamente, colheremos os frutos para todos, num país que tem no petróleo o desígnio destemperado dos tempos que se sucedem...

Nem é preciso muita imaginação para interromper o “ciclo vicioso” (não produzimos, logo importamos...), alterando e promovendo um “ciclo virtuoso”, em que a hotelaria e o turismo serão o elo de ligação, serão o antes, o durante e o depois, promovendo simbioses, ligando o urbano ao rural, ganhando sinergias, (re)ganhando o futuro! É disto que o país (urgente e sustentadamente) precisa, que (re)ganhemos o futuro, na diversidade, com as geografias de que somos férteis (em boas condições para “engravidar” de esperança e de riqueza, nos 40 anos da independência nacional).

Ser “o primeiro” entusiasma, poder exibir “feito em Angola” destaca, juntar os dois ... “o primeiro feito em Angola” (é o que já acontece com o vinho “Serras da Xxila”) marca e são “marcas”, boas marcas, que a economia nacional e os angolanos almejam nestes tempos difíceis de contracção e de perda. A terra é generosa, a produtividade está historicamente comprovada e ao homem coube juntar o querer e o saber... a obra aparece!

Estamos conscientes que “uma andorinha não faz a primavera” é o mesmo que dizer uma única iniciativa, por muito inovadora e louvável que seja, não é suficiente inverter a situação de dependência/país importador de bens alimentares, para país auto-suficiente e mesmo país exportador. Temos condições para isso.

Devemos aprender com as boas práticas/boas lições, estudar bem os contextos e garantir os meios e replicar, replicar uma, duas, muitas vezes...

Mas, atenção! Não devemos continuar a olhar para o interior, para as Fazendas, como os refúgios de fins de semanas para algumas elites das cidades... uma espécie de “parques de diversões”, algumas delas com cercados de animais exóticos/selvagens, como muitas das fazendas estão transformadas, sendo mais meros locais de lazer e em nada preocupados com a produção real de bens consumo tangíveis. Sejamos capazes de nos despirmos dessas Misantropia (é a aversão ao ser humano e à natureza humana no geral), apostando nas nossas gentes com o elevado sentido de dever patriótico e nacional, ao contribuir para o desenvolvimento de todos e de cada um e do país de forma sustentada.

Nós, que não somos cépticos nem embarcamos em elogios desmesurados, prometemos voltar e voltar a “sentir o pulso” deste querer... à volta de uma fogueira, sob um céu de um negro estrelado, nesta imensidão africana, sentindo o forte e estimulante cheiro da terra... terra angolana.

A Xixilia - ela própria e também o que ela representa de inovação e de empreendedorismo – existe e... recomenda-se!

Promovam-se iniciativas que permitam partilhar o que de bom e de inovador já estamos a fazer, para que outras situações germinem e frutifiquem, porque mesmo muitas seremos ainda pouco perante a imensidão do que ainda há para CAMINHAR, mas é CAMINHANDO que se faz o caminho! Não nos podemos queixar pois são férteis e diversas as nossas Geografias, tenhamos nós a arte e o engenho para as potenciar. 

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