REPORTAGEM

 
22 de July 2019 - às 07:43

CABRAIS, O ALBERGUE POSSÍVEL PARA AS VÍTIMAS DAS CHEIAS EM BENGUELA

A região que recebeu os cerca de dois mil sinistrados daquela que é tida como a maior enxurrada das últimas décadas ganhou uma unidade sanitária, ainda que por equipar, mas as queixas face aos sinais de penúria suplantaram a festa. Quando várias famílias preferem regressar às antigas zonas, colocando as vidas em risco, parece tudo dito. Organizações internacionais, como a USAID e a ADPP, constataram o drama

 

DRAMA DA POBREZA  VISTO DE UM CENTRO  DE SAÚDE 

Resultado da fusão de terrenos agrícolas, a localidade dos Cabrais, onde se encontram as vítimas das cheias de Março de 2015 em Benguela, voltou a ser vista no mapa de Angola aquando da inauguração, recentemente, de um centro de saúde, num acto que descortinou dramas motivados pela falta de alimentos, electricidade, água e transporte. 

À chegada dos financiadores, a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), Associação das Companhias Exploradoras de Petróleo de Angola (ACEP) e ADPP, ouviu-se um grito de satisfação pelos indicadores de melhorias na saúde, mas cedo se percebeu que este sentimento acabou diluído nas denúncias relativas a condições que forçam a fuga de famílias. 

Quem sobreviveu a enxurradas que provocaram cerca de 70 mortos, principalmente no Lobito, prefere, segundo relatos captados pela nossa reportagem, regressar às chamadas zonas de risco, de onde o Governo Provincial tenciona retirar centenas de famílias, prevendo que venham a ser construídas mil e setecentas casas sociais. 

Fixado em 350 há quatro anos, no calor da agitação própria de um complexo processo de mudança, o número de famílias sinistradas à espera de casas nos Cabrais, entre 50 a 80 quilómetros do Lobito e Catumbela, está, portanto, a baixar. 

‘’Estamos mal, não há casas, muitos já não vivem aqui por causa do sofrimento’’, conta a jovem Silvina Cassinda, na primeira resposta às perguntas sobre o modo de vida numa região que ‘’não consegue esconder’’ o espectro de abandono. 

As mães, prossegue Cassinda, vão às matas cortar pau para fazer carvão, muito por conta da falta de um mercado. 

‘’As tendas estão estragadas, continuamos a pedir que o Governo acabe as nossas casas. Muitos voltaram para as zonas de risco, também porque, às vezes, não há comida’’, lamenta, a escassos metros, outra senhora, Domingas Daniel. 

A estes relatos, junta-se o de Manuel Domingos, um cidadão que alerta para o perigo vigente numa área assolada já pela malária, doenças diarréicas agudas e respiratórias e a sarna. ‘’A minha tenda, por exemplo, está rota, as famílias estão a sofrer. Sem luz, sem mosquiteiros, há muita cobra perigosa. O Governo tem de ver o problema das nossas casas’’, solicita.    

 

Tempo de estratégias para o dia seguinte - Inaugurado o centro de saúde, a USAID, segundo Julie Nenon, olha já para os desafios do amanhã, que passarão pelo apetrechamento, a cargo, como definido, do Governo Provincial de Benguela. 

Daí que a representante da agência americana tivesse falado em fase número três, para a qual as autoridades locais terão de levar as mãos aos bolsos, sem que, no entanto, se exclua a contribuição dos seus parceiros. ‘’Nada impede a participação de organizações não governamentais e do sector privado. Esta infra-estrutura precisa de algo mais’’, vinca Julie. 

Na sua intervenção, o governador provincial, Rui Falcão, destacou a importância do centro de saúde, momentos antes de ter garantido dias melhores para os sinistrados, a começar pela energia, agora que Benguela é abastecida já pelo sistema norte. 

‘’Já posso dizer que conseguimos recursos financeiros para o problema da água’’, anunciou o governante, sem ter feito qualquer referência à problemática das famílias ainda em tendas e obras por concluir, desprovidas de cobertura. 

A unidade sanitária, orçada em 1 milhão de dólares americanos pode internar 25 pacientes, contando com dois blocos, para urgência e saúde reprodutiva.  

 

Do ‘’coração’’ da metrópole ao ponto da tragédia - Falar dos Cabrais, uma localidade administrativamente ligada à Catumbela, mas ‘’presa’’ ao Lobito por força da geografia, é falar, se quisermos, das bases para o projecto metropolitano de Benguela, desenhado pelo anterior governador, Isaac dos Anjos. 

Funcionaria como ponto de partida para uma auto-estrada até à comuna do Dombe Grande (Baía Farta), passando por Benguela, numa extensão superior a 120 quilómetros.  

Os milhares de hectares disponíveis serviriam para unidades de produção industrial e empresas geradoras de postos de trabalho. Tudo, como agora se vê, desenhado em nome de um projecto de referência que, quatro anos depois, acaba longe da agenda do actual governador. Aliás, Rui Falcão chegou mesmo a afirmar, após a cerimónia de troca de pastas, que analisaria a viabilidade da iniciativa antes de qualquer passo rumo à materialização. 

Incógnita à parte, certo é que várias famílias optam por deixar o ‘’paraíso imaginário’’ para o regresso às antigas moradias, nas chamadas zonas de risco, afectadas pelas chuvas do passado mês de Março. 

Basta sublinhar que as mais de doze mortes e o rasto de destruição fizeram soar o alarme, tendo o Governo central, que deverá financiar as casas para os cidadãos que saírem destas zonas, enviado um batalhão de ministros, chefiado pelo vice-presidente da República, Bornito de Sousa. 

 

Texto e Fotos: João Marcos - Em Benguela

 

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