ÁFRICA

 
2 de outubro 2016 - às 05:48

CABO VERDE: "CHOQUE DE GERAÇÕES" CRIA EMBARAÇOS NO PAICV

A perca do poder, pelo PAICV, em Cabo Verde, obrigou a um "lavar de roupa" suja que se acumulou devido ao muito tempo no poder, o que está a obrigar várias sensibilidades do Partido a exigirem uma Conferência Nacional para se definir nova estratégia de actuação de uma força política que se não se organizar rapidamente, pode adormecer durante anos na oposição. Para já, depois da derrota nas eleições autárquicas recentemente realizadas, Janira Hoffer Almada, Presidente do PAICV sentiu-se culpada do desaire e colocou o seu cargo à disposição

 

A perda da quase totalidade do poder local do PAICV nas eleições autárquicas de Setembro, em linha com expetativas anteriores geradas pela insatisfação em relação ao partido, e a previsível derrota nas presidenciais em breve, está a alimentar um clima de contenção dentro do partido, sobretudo opondo, segundo fontes habilitadas da política local, a nova geração do partido à “velha guarda”. O balde de água entornou com o PAICV a ter um resultado desastroso nas autárquicas onde só conquistou duas câmaras, contra 18 do seu principal rival, o MpD, o actual partido no poder.

O ex-Primeiro-Mimistro José Maria Neves, que após as legislativas havia adotado um tom apologético em relação ao impacto da sua governação nos resultados do partido sob liderança de Janira Hopffer Almada, enaltecendo a alternância e o processo democrático, recorreu novamente às redes sociais, após o anúncio dos resultados das eleições autárquicas para uma mensagem entendida como culpabilizante da sua sucessora.

A mensagem de José Maria Neves, já depois de Janira Almada ter colocado o lugar à disposição, teve entre os apoiantes da nova líder o efeito contrário ao esperado, motivando apelos a que se mantenha na liderança, avance para uma recandidatura ou apoie um outro candidato da “nova geração”. Júlio Correia, militante histórico, é identificado como o mais provável concorrente de Janira. Dado o previsível longo afastamento do partido do poder com consequências ao nível da contestação interna, a longevidade da sua liderança é questionada em meios internacionais.

Na resposta a José Maria Neves, também através das redes sociais, Janira Almada usou de um tom desafiador, admitindo um debate interno mas extensivo aos anos de governação do ex-PM, em particular o último mandato, e questionando a ausência de discussão antes da sua eleição para líder do PAICV. A realização, antes das eleições presidenciais, de uma conferência nacional do partido para eleição do líder é agora incerta.

A José Maria Neves cuja preferida na sucessão do PAICV, Cristina Fontes, teve a pior votação nas primárias de Dezembro de 2014, ganhas por Janira Almada e voltou agora a ser derrotada enquanto candidata do partido à câmara da Praia (Santiago), são atribuídas atitudes de desconsideração em relação à sua sucessora, até ao final do mandato no governo, em Abril de 2016.

Contrariando a expetativa geral, baseada em antecedentes da política local, de que José Maria Neves se afastasse no final do mandato e deixasse o cargo a Janira Almada, o antigo antigo PM é acusado de ter tido, pelo contrário, uma conduta tendente a marginalizar a sua sucessora no partido, excluindo-a de inaugurações e eventos oficiais, mesmo quando era acompanhado por vários membros do governo.

O “ano de desgaste” de Janira Almada em que José Maria Neves se terá aplicado de forma sistemática é apontado como um dos principais factores para a derrota do PAICV e maioria absoluta clara do MpD, de Ulisses Correia da Silva. Os episódios deverão ser trazidos a público pela líder do PAICV, durante o debate interno, como asseguram fontes ligadas a ela.

Durante uma anterior transição conduzida pelo MpD antes das legislativas de 2001, depois da substituição de Carlos Veiga por Gualberto do Rosário na liderança do partido, em congresso extraordinário, a chefia do governo no último semestre da legislatura foi deixada ao sucessor, que viria a perder as eleições para José Maria Neves.

Dentro do PAICV é identificada uma clivagem entre os novos militantes e a geração “do partido único”, de que José Maria Neves é visto como representante, tal como o candidato derrotado por Janira Almada nas primárias de Dezembro de 2014, Felisberto Vieira, enquanto escola doutrinária inspirada pelos modelos da antiga URSS.

Entre os militantes mais jovens do PAICV, a disputa da liderança é vista como pela “sobrevivência” do partido, perante uma tendência do seu afundamento sob liderança da “velha guarda” representada por José Maria Neves, resultado da incapacidade perante o agravamento de problemas sociais e económicos (desemprego jovem, endividamento público) e um afastamento em relação à sociedade.

Para militantes de topo do partido, o alcance da liderança é visto igualmente como uma questão de sobrevivência pessoal, num cenário de perda de cargos a nível governativo e autárquico, em que o grupo parlamentar é o único vector de relacionamento com o Estado. As relações internacionais do partido – Internacional Socialista, Partido Socialista, MPLA, Frelimo, entro outros – são também alvo de disputa entre as principais fações do partido.

Dentro do MpD, o reforço da posição como maior força autárquica, depois da maioria absoluta nas últimas legislativas, gerou entre alguns militantes um clima de euforia, que algumas referências do partido, como Gualberto Rosário, vieram tentar aplacar interna e externamente, apontando para a necessidade de não se incorrer nos mesmos erros do PAICV.

Perante um nível de endividamento público elevado, o desbloqueamento do financiamento interno à economia, e em particular a sectores dinámicos como o Turismo ou Transportes marítimos, é apontado como um dos principais desafios do novo governo para assegurar o crescimento económico do país, necessário à criação de emprego.

Entre os empresários locais, aguarda-se com expectativa a concretização da apresentação de medidas concretas de estímulo ao financiamento do sector privado, depois de o Primeiro-Ministro, Ulisses Correia da Silva ter enunciado, de forma geral, o objectivo de melhoria de acesso ao crédito pelas empresas. Também a concretização da reforma fiscal é rodeada de expectativa. 

(Colaboração do AM).  

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