CULTURA

 
2 de setembro 2016 - às 06:55

BONGA KWENDA: "MEREÇO MAIS RECONHECIMENTO NO MEU PRÓPRIO PAÍS"

Dispensando qualquer apresentação a nível pessoal, Ele é Autor e intérprete de música tradicional angolana; começou a trilhar os seus passos pelos musseques de Luanda quando kandengue, ainda antes da independência, e  na década de 1980 Bonga atingiu o topo da carreira internacional. 

Hoje, com 74 anos de idade e mais de metade com uma carreira que passou em grande parte por Portugal, o cantor fala do desconforto que sente por ter menos reconhecimento e espetáculos no país de origem do que por outras paragens pelo mundo, especialmente na Europa.

Com cerca  de 450 músicas em muitos álbuns publicados ao longo dos seus anos de carreira, tornou-se no primeiro artista africano a actuar a solo, e em dois dias consecutivos, no Coliseu dos Recreios.

Bonga não é apenas o Artista dos seus próprios trabalhos. É compositor participativo na carreira artística de muitas outras estrelas da música angolana, e não só. Nomes como Rui Mingas, Yuri da Cunha, Patrícia Faria, Pérola, Welwitchia, Damiã, Yeyé, Lura e outros já tiveram um dedo de Bonga nos seus trabalhos.

Ainda internacionalmente, fez grandes parcerias com cantores como Manu Dibango, Cesária Évora e Bernardo Lavillier.

É ele que uma vez mais quer encantar os amantes da boa música angolana, com o lançamento, em Setembro, do seu novo trabalho discográfico, de que vai nos falar em entrevista;

 

Figuras & Negócios (F&N): Quanto tempo tem de carreira e como foram os seus primeiros passos na música?

Bonga Kwenda (BK): Carreira propriamente dita, tenho quarenta e quatro anos. Comecei a minha carreira em 1972, mas é claro que antes, nos musseques de Angola e em contacto com os grandes repertistas do folclore angolano, que produziam todos os dias, nos bairros típicos da nossa Luanda. E no aperceber, no seguir, no encontrar e no participar dessas turmas dos anos 50, 60 é que me apercebi que tenho um forte folclore, e daí que, mesmo no meu cubico, o kota tocava o acordiom e eu, dos nove irmãos que tenho é que o acompanhava na dikanza que até hoje trago como porta estandarte do semba, é que comecei a tomar os primeiros contactos com a música.

Eu nasci em 42, e nos anos 50, já estava activo como crianças que nascem interessadas por aquilo que nos dizia respeito.

F&N - Para além da música, quais outras paragens o Bonga andou? Que peripécias ainda percorreu até chegar ao estado “Bonga Kwenda hoje”?

BK - Eu faço parte da geração que resistiu uma série de coisas e procurou nesta vivência colonial a tal dignidade para a família e, dignidade, própria e ainda de comparticipação de coisas valiosas para o bairro em que viviamos, nomeadamente o desporto e outras actividades sócio-culturais.

Ora bem, como nós não éramos ricos, eu fui radiologista, cobrador da Anangola, trabalhei na Junta Autónoma de Estradas como funcionário, fui cabo escriturário e nessa altura fui à tropa, e daí comecei a fazer desporto e depois a fazer música. Numa primeira fase não cantava. Organizava grupos folclóricos com outros elementos, nomeadamente o Nelito Soares, muito conhecido da revolução; Carlos Lamartine e Roldão Ferreira, também outros grandes. Íamos formando grupos de folclore.

Retratávamos na música as nossas vivências e reivindicações, isso marcou a nossa meninice e mocidade e foi o pantapé de saída para as grandes obras musicais feitas já no exterior de Angola.

F&N - Quantos discos do Bonga temos até então?

BK - Eu comecei por fazer um disco por ano, e depois de dois em dois anos... Hoje, são quarenta e três ou quarenta e quatro discos.

F&N - Comecemos a nível pessoal. Afinal, ninguém pode falar do artista sem antes da pessoa. Barceló de Carvalho, sente-se realizado?

BK - Não, não, não! Não me sinto realizado coisa nenhuma! Gostaria de me sentir realizado na minha terra de origem, uma espécie de Roberto Carlos no seu país, idolatrado pelo seu povo, com a sua gente e cantar para a sua gente, e ver que isso constitui uma força motriz para que a geração se reencontre nesta música que tem expressão e linguagem próprias, historial, cabimento, condimento e todas as coisas. Aí eu sentir-me-ia realizado.

F&N - Então, se calhar, o Bonga encontra-se fora do país por motivo de força maior...

BK - E olha que há muitos a sair nesse momento. Pessoas que até estão bem situadas no país, e não sentem o conforto necessário para viver bem com as suas famílias e as suas actividades, eu então...

Estou há muito tempo fora de Angola, mais tempo cá fora do que no país de origem, mas nunca tive uma palavra de carinho e amizade dos dirigentes do meu país, embora muitos desses tenham desfrutado do Bonga, com o disco Angola 72, que foi o disco essencialmente político. Por conseguinte, nunca ninguém veio estender a mão e perguntar se “está-se bem”. Esse “está-se bem” que se apregoa mas que nunca se está nada bem, esta-se é “bem male”. Nós angolanos, perdemos o tal consenso de família, da ligação, da entreajuda, da colaboração, ou, por outra, entramos para os patrocínios, mas um patrocínio limitado e condicionado a só fazer isso ou aquilo que o chefe quer.

Entretanto, a minha permanência e vivência no exterior tem a ver com uma vida normal, na minha casa, com o meu carro, com os meus apetrechos, com os meus filhos, que até já nasceram quase todos cá fora, e a minha vivência profissional. E eu que sou verdadeiramente profissional porque só vivo da musica, tenho de salvaguardar as minhas ligações com a imprensa discográfica e com o empresário que me arranja os espectáculos até hoje. 

F&N - E a sua carreira, considera consolidada?!

BK- Ahhhhh... A minha carreira profissional está consolidadíssima. E, sem modéstia, posso me considerar um exemplo, por ser um artista angolano de “long times ago” cuja manutenção da carreira é muito bem assegurada. Com certeza absoluta, e eu tenho consciência.

F&N - Voltar para Angola, é igual a pôr casca de banana no lixo, então...

BK - Não volto a Angola. Nem pouco mais ou menos.

F&N - Mas estamos a saber que o Bonga dá uma grande força nas carreiras de determinados artistas angolanos. Como consegue fazer estando distante?

BK - São muitos os Artistas que me solicitam para parcerias, desde escrever uma letra, até fazer participações nas suas músicas. E isto, claro, faz-me sentir bem, porque eles reconhecem e dão valor através da obra feita para eles também. Portanto, isso tem sido um trabalho bem feito e que a distância não impede coisa alguma. Agora, por exemplo tenho uma música na forja para a Patrícia Faria, cujo título é As seis Marias, que são as Marias do peso. (Risos)

F&N - Depois deste disco, podemos ainda contar com outros?

BK - Enquanto eu for solicitado respeito essa solicitação e entrego-me de corpo e alma. A partir daí, tudo bem... Quando eu sentir que finalmente não estou a ser solicitado, arranjo uma outra forma de estar, e como se amealhou alguma coisa, vamos vivendo. Reformas obrigam, não é? Faz favor....

F&N - Depois de ter feito a Mariquinha há trinta e seis anos atrás, o novo CD traz-nos a Marikota. Quer nos falar da relação entre as duas músicas? E Marikota é feita hoje por alguma razão especial?

BK - A Marikota é feita derivado da situação vigente no país. A Mariquinha que sai daqui mas que não é angolana e vai para Angola ganhar o dinheiro que a Marikota nunca ganhará em Portugal. Portanto, essa Marikota é angolana genuína, obrigada a abandonar a sua terra, a sua casota de abrigo para vir para Portugal, porque os miongos já não a deixam aguentar as inquietudes e incertezas da nossa terra. Essa marikota que já não tem marido, os filhos estão grandes, quem precisa dela é a vizinhança, que está ali ainda a ser acalentada por ela, mas isso para ela própria não basta. Ela ambiciona principalmente a tranquilidade, e é isso, então, que ela vem buscar em Lisboa. Marikota sai de Luanda para Lisboa, daí o título e as pessoas vão depois se apercebendo do por quê. 

Tenho, no entanto a dizer que as emigrações não são boas, e no fim do texto da música, as pessoas vão depois ouvir, ela vai entender que não é saindo que acabam todos os problemas, mas infelizmente o sair é um mal menor. 

F&N - Vídeo clips e participações no novo disco... O que temos?

BK - Muitos video clips, que, embora os meus vídeo clips não sejam conhecidos pelo público angolano, estou quase sempre acompanhado deles! Porque tem a ver com uma faceta do Bonga que é o da independência total e sobretudo emancipado. Como sabemos, as pessoas emancipadas na nossa terra são mal vistas, sobretudo quando têm a ousadia de ver outros elementos da sociedade, como o Savimbi por exemplo, que fui visitar... E que até hoje sofro consequências desta visita.... E fala-se de democracia, fala-se de paz. Gostaria que houvesse de facto a verdadeira paz e concordia entre os angolanos, e ver por exemplo o presidente angolano a jantar com homens da oposição política. Bem, tudo para dizer que gostaria que o meu povo, à semelhança de muitos outros, vissem de perto o trabalho feito pelo Bonga.

No que respeita a participações, vai aqui uma informação em primeiríssima mão: a participação bombástica, é o meu primeiro filho, que cantou uma música sobre Nelson Mandela, uma canção linda, lindaaaaa.. Portanto, tanto eu como ele, consideramos o grande estadista do século XX, XXI, XXII, XXIII, XXIV.... Quem quiser que chegue perto pela atitude, competência e comportamento. Essa é a participação especial, e depois a orquestra maravilhosa que eu tenho e que faz o favor de me acompanhar para tudo que é lugar. 

Temos ainda algumas surpresas. Uma delas é que começo exactamente a tocar no folclore angolano, que muitos miúdos já não sabem o que é.. Alguns até pensam que o Carnaval é aquela coisa turística e tal, mas não sabem que é daí que vem a nossa personalidade sócio-cultural, musical. Começo da música do chão, em Angola, que muitos chamam a música do pé rapado, mas é aí mesmo onde está o valor, e depois vou delineando. Vou até Cabo Verde e depois ao Brasil, cantar uma música maravilhosa dos anos 50.

F&N - A instrumentalização é das grandes marcas da nossa música, é verdade. O que temos de especial nesse trabalho respeitante a essa parte do semba?

BK - A acentuação do semba e os seus instrumentos respectivos, o que é muito importante no semba. A gente pode cantar uma música no sentido exteriorizado, mas quando a gente acentua o que é nosso, aí vamos ver. Este trabalho traz a dikanza, a puita, a ngoma bem acentuadas. E depois, vamos poder ainda ouvir outras coisas... É claro, como nós não estamos fechados num guetto e temos uma cultura muito forte e com grande personalidade, esse disco traz essa força toda.

F&N - Afinal tem um filho a seguir os passos do Pai na música. Quer falar um bocado mais sobre isso?

BK- Ele tem as suas tendências muito próprias. É claro que começou por ir com o pai aos espectáculos e depois mais a participar.. Pronto, mas ele já fez um disco de experiência e tem um grupinho com os colegas. Digo grupinho não no sentido pejorativo, cuidado! Porque ele agora está a descobrir que tem um vozeirão incrível, que eu como pai reconheço. Mas ele tem a sua profissão e vai andando devagar na música.. Vamos ver.

F&N - Todos sabemos que os palcos angolanos não sentem tanto a sua presença. Sente alguma repulsa ou tem algum outro sentimento estranho?

BK - Sinto uma mágoa tremenda, porque nós devíamos desenvolver a nossa música, os nossos palcos e os espectáculos quotidianos, disse “quotidianos”, para crianças, para os kotas, para a rua, música de banda.. Orquestras por aqui e por ali, nos bairros inclusive, que se começa a falar muito mais da insegurança do que propriamente da concordia e da ligação entre irmãos. Então se nos anos coloniais nós conseguiamos ter as bandas dos bairros e pôr o povo a dançar, hoje com a independência, não  temos esta competência? Estamos a brincar, não adianta. E esta é a grande mágoa que trago, de ver que não estamos a dar continuidade às coisas boas que o povo africano de Angola tinha no tempo colonial, e que agora perdemos, e que os caminhos, hoje em dia, até são mais escuros com as violências e os  ataques e outras coisas mais.

Agora, não admira nada que de vez em quando receba aqueles convites de conveniência, só para se dizer “o Bonga também veio”, dentro de um clima de hipocrisia, o que não coaduna muito com a minha personalidade.

F&N - Mas faz ouvir a nossa música por outras partes do mundo. Este facto consegue deixá-lo mais suavizado?

BK- Deixa-me um bocado mais tranquilo e sobretudo participativo. É muito importante eu ser chamado para vários espectáculos e assim como os grandes vedetas da música oriental. Acho que aquela boa Angola regozija-se disso, e já me deram até prémios por isso mesmo. Isso é muito bom, e continuar como sendo um grande divulgador da música angolana, (sob suspiros) ahhhhhhhhh isto suaviza, dá-me alento, afinal não estou velho, mas rejuvenescido derivado do valor e reconhecimento que tenho por aqui, é o melhor que pode acontecer a qualquer profissional.

F&N - Em que pé está o novo CD?

BK - O novo CD, já na forja, porque já foi totalmente gravado, está somente a ser apetrechado para poder sair muito em breve.

F&N - E do lançamento, temos já muitos projectos?

BK - São aqueles projectos normais. Portugal não é prioritário. Prioritário é o país que se tornou importante para os africanos que desfrutaram e continuam a desfrutar da França como país que faz realmente algo por nós. E aí, a agenda que já está cheia de espectáculos, e onde o CD já é esperado, ainda não foi lançado e já está a ser vendido... potanto não estou condicionado a lugar nenhum, a muata nenhum, que estou mesmo a vender.

Em França, a imprensa normalmente se agita quando o disco sai e as rádios e tvs começam a badalar. Contrariamente ao que se passa em Portugal que ficamos confinados a RDP África onde só passa um ou outro disco quando convém, ou Artistas de certos regimes, o que não serve a música.

F&N - Porque acha que só no país de origem não é tão reconhecido e salvaguardado?

BK - É um grande mal pensarem que detêm algo de muito importante e deixarem que quem tenha algo para dizer e que tenha talento, não faça o seu trabalho, e, pior não seja apoiado pelos órgãos que representam a cultura do povo angolano. O Ministério da Cultura não pode ser só uma frase escrita, tem de ser actuante. As coisas devem acontecer com toda a gente, não apenas com determinados privilegiados, patrocinados, ajudados; que enchem o mercado com aquilo que tem de ser escutado, e as outras pessoas que têm capacidade não consigam por falta de apoios.

De facto, já quase foi criado e as tentativas abortadas, de se elaborar algo do ponto de vista do reencontro dessa musicalidade e começarmos principalmente pela base. Porque a base existe, que o diga por exemplo o Kituxi e os seus malaios... Portanto, há muita gente que ainda é conhecedor da grande música de Angola e -não se está a fazer o trabalho que se devia ter feito, o tempo vai passando e muita coisa desaparece, ou mesmo muitas pessoas desmotivadas por variadas razões, e não se faz coisa nenhuma. Enquanto isso, cá fora do país, este estilo vai dando passos largos. Ver até onde será “o nosso” semba. 

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