FIGURAS DO MÊS

 
30 de abril 2014 - às 07:13

BONGA 42 ANOS DE CARREIRA COM ÉXITOS MARCANTES

Sem papas na língua e sem tabús, Bonga faz uma retrospectiva da sua vida artística, dos seus anseios, sonhos e projectos.
Hoje, mais do que nunca, vou sabendo, através dos contactos, que finalmente sou uma referência, de peso em relação ao país de origem. Isto é bom, olhar para trás e ver uma carreira de bastante sucesso".

 

Barceló de Carvalho "Bonga", um nome incontornável da música popular angolana, fala da sua carreira de sucesso, com espectáculos nos maiores palcos do Mundo.
Quarenta e dois anos de carreira artística e 72 anos de vida fazem de Barceló de Carvalho "Bonga" uma referência, na vida artística angolana, servindo de ponto de convergência entre a nova e a velha geração de músicos angolanos.

F&N - Que espectáculo mais o marcou na sua longa carreira artística?
Bonga: Para começar devo salientar que fazer espectáculo para gente que não tem afinidade connosco, que fala outras línguas, tem outras culturas, outra maneira de estar, e por conseguinte ver que estamos a dar a conhecer o nosso país e a nossa forma de estar é marcante e fundamental.
Foram vários espectáculos que aconteceram, mas para falar daqueles que mais marcaram vou eleger o realizado no Olímpia de Paris (França), um realizado em Nova Iorque (EUA) e na Holanda, mas são vários palcos, onde dei a conhecer a minha música e a cultura de Angola.
F&N - Depois da obra “Hora Kota”, quando o próximo disco?
Bonga: O próximo disco vai ser gravado já este ano. Eu não tenho pressa em fazer o meu trabalho. Hoje em dia, quando a gente faz esta música, que é bastante ouvida e aplaudida, conseguimos diminuir o preconceito de outros povos, não é gravar todos os dias, todas as semanas! que se consegue ter sucesso, mas sim gravar quando a inspiração vem.
Estamos a trabalhar para que o disco saia ainda este ano ou no próximo. Estamos já com alguns temas trabalhados.
F&N -  Que avaliação faz da música angolana de hoje e a de ontem?
Bonga: É uma avaliação positiva, tanto a de ontem como a actual. Com uma contrariedade aqui e outra alí, mas estamos sempre no bom caminho. Esta contrariedade é mesmo de quem o faz e não do contexto. Mas como tenho dito, não deve haver precipitação por parte dos jovens, e como “kota” tenho autoridade para dizer isso, não é autoridade militar, mas autoridade técnica, de alguém que vive a música. Posso dar esse conselho, de acordo com a minha vivência e experiência.
Os jovens não devem correr atrás de coisas estrangeiras, porque isso não tem nada a ver com a nossa vivência. Os músicos, no geral, devem lembrar-se que quando se tem talento tudo é fácil, já que o sucesso aparecerá há qualquer momento.
A nova geração de músicos angolanos está  a desenvolver um trabalho positivo a toda linha. Os próprios fazedores devem ter a dignidade de reconhecer que o seu trabalho é positivo, ou que foi um fracasso, devem pedir opiniões. Antigamente dava-se opinião, falávamos com o artista e dizíamos que isto não está bom, deve ser assim, mas agora não. Não é o patrocínio que faz o artista, quando o artista nasceu com talento, com dom, é o povo que vai julgar, que vai avaliar o seu trabalho. Agora quando o povo é induzido em erro, por causa dos patrocínios, aí é complicado.
A música angolana está de excelente saúde e recomenda-se, o que se está a fazer agora já se fez no passado. Este ritmo, esta dança, o frenesim, já foi feito. Em todas as alturas da nossa vida tivemos grupos de jovens que se formavam, que mostravam coisas, inclusive tivemos grupos que cantavam em inglês, como os The Five King, Os Rocks, e outros, mas não fez diminuir o impacto do semba e de outros ritmos tradicionais.
F&N -  O semba de hoje e o de ontem, que diferenças podem ser detectadas?
Bonga: Às vezes peca um pouco pelo estilo que está a ser dado, querem um estilo com uma instrumentação que não tem nada a ver com a instrumentação original. Hoje em dia estão a colocar piano, sopros, querem meter instrumentos europeus, se isso é por se estar a vender o nosso produto aos europeus, não sei, mas não se coaduna com as tradições, com a realidade do semba. Não quero que firam a nossa tradição ao colocarem violinos, entre outros. A nossa música tem a sua característica própria.
F&N - Sente-se um cantor realizado?
Bonga: Não me sinto realizado, nem um pouco mais ou menos. Eu comecei a cantar com música de intervenção, música que tinha a ver com o colono que andava aquí, que andava a explorar, depois continuei a cantar dizendo aos nossos compatriotas que a independência não foi para se guerrearmos entre nós, e depois continuei a cantar contra o preconceito rácico, contra a xenofobia que ainda existe. Há muita coisa que um artista deve abordar nos seus temas, tenho mandado recados para despertar a consciência das pessoas.
Ainda vou continuar a cantar, porque temos visto que as guerras continuam, que aumenta cada vez mais o uso de drogas, a prostituição, as crianças são desprezadas, entre outros assuntos. Não estou a falar do nosso país em particular, mas do Mundo, onde tudo tem acontecido. Nesta ordem, não me sinto realizado, tenho muito ainda que fazer.
F&N - Apesar de ser um artista cuja vida é mais passada na Europa, canta Angola, os seus problemas e as suas gentes. Como consegue esta performance?
Bonga: Isto tem a ver com um voto de confiança, com a maneira de estar e principalmente com a responsabilidade que vai acontecendo. A medida que o tempo passa a responsabilidade é maior. Eu privo-me de muitas coisas para manter essa postura artística, musical, de pessoa, não deixar furos de forma a lembrar-me da minha terra, a terra que me viu nascer, que tem histórias lindas para serem contadas.
F&N - O que significa a música para si?
Bonga: A música para mim é tudo, uma terra sem música não existe. Casei com a música, durmo, acordo com a música, estou sempre a cantarolar. Estou a lavar-me, estou a cantar. Saio de casa, vou ao escritório a correr muitas vezes escrever algo, só para não esquecer e desenvolvo a ideia depois. A música consegue suavizar, relaxa, aconselha, dirige, e graças a Deus tenho ela na minha vida.
F&N - Se tivesse que escolher, começar do zero: Atletismo ou a música, o que optaria?
Bonga: (…)Risos. O atletismo aconteceu e quando a gente faz marcas que ainda continuam a ser comentadas é motivo de orgulho. Mas chega uma altura que não dá mais, as pernas não obedecem. Foi uma fase da minha vida que não volta mais, mas que abriu certas portas, mas a música veio depois, aconteceu, está a decorrer porque sou solicitado e procuro satisfazer os pedidos das pessoas, das organizações, de todos que com muito carinho me solicitam.
F&N - Já alguma vez passou-lhe pela cabeça o que seria a sua vida se continuasse no desporto, como, por exemplo, dirigente?
Bonga: Nunca vi a minha vida passar pela continuidade no desporto, principalmente no dirigismo. Nunca me revi como dirigente desportivo, político, partidário, ou outro. O meu temperamento não tem nada a ver com isso. Mesmo quando tenho que redigir algo e dar ordem para ser executada, tenho já problemas.
F&N - Com uma carreira cheia de êxitos, alguém na família está a seguir os seus passos?
Bonga: Tenho sim, o meu filho mais velho, o Kuenda. Isto é uma notícia em primeira mão, ele nasceu e vive na França. Ele é que se chama Bonga Kuenda, tem uma profissão, mas está a fazer música. Agora fez uma música linda sobre o Nelson Mandela. Ele e mais uns amigos juntaram-se e formaram uma banda. Eu acho que o miúdo tem talento. Cuidado!
F&N - Quem é o Bonga dentro e fora dos palcos?
Bonga: Eu acabo sendo a mesma pessoa, a vida, eu vivo intensamente e sou sempre energético, pronto a dar o meu contributo. Sou companheiro, amigo, procuro sempre ajudar os outros. Eu considero-me um privilegiado por ter absorvido, para além da educação da escola e de casa, a da rua, que naquela altura era muito diferente dos dias actuais.
Nós, os africanos não devemos dar a educação que é dada aos europeus e americanos, onde vimos que as crianças, os pais, cada um tem um computador no quarto e nunca se cruzam em casa. Saber educar, não é bater, mas sim ter autoridade sobre a criança.

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