REPORTAGEM

 
5 de novembro 2016 - às 12:34

BENGUELA PAIXÃO IMOBILIÁRIA TRAÍDA PELA CRISE

Projecto traçado entre 2008 e 2009, com Dumilde Rangel, antigo governador, a funcionar como cérebro, pretende valorizar o potencial paisagístico do mar numa zona que deverá albergar 20 mil habitantes. 

Aberto a investidores estrangeiros, ainda que a legislação seja vista como entrave, encontra na escassez de recursos o inimigo do momento. 

As habitações, incluindo edifícios com até seis andares, a área comercial e os campos de golfe precisam de vias rodoviárias, água, electricidade e redes técnicas 

 

Ao roteiro turístico de Benguela, com referências como praias, vales de rios, águas termais e monumentos históricos, o Governo Provincial pretende juntar o projecto Blue Ocean, delineado para habitações de alto padrão e zonas comerciais para hotéis e restaurantes, tendo no horizonte a atracção de investimentos para a região. 

Dois anos após o início da venda de parcelas de terra, num processo monitorizado pela empresa Horizonte Global (HG), Baía Azul, a localidade eleita, emite sinais de falta de recursos para a infra-estruturação dos 1.360 hectares, já com mil e quinhentos compradores. 

Unânimes, alguns cidadãos, incluindo empresários que investiram na aquisição de lotes, referem que o trabalho de casa, para o qual o Estado é chamado a intervir, surge como ponto de estrangulamento desta paixão pelo imobiliário, capaz de afugentar homens de negócios. 

Com a venda de terrenos entre 85 e 90%, a HG, por intermédio de José Ferraz, sublinha que as dificuldades são mais notórias nos espaços para hotelaria, comércio e serviços. Para estes casos, segundo refere, o processo está ‘’algo adormecido’’, já que são necessários grandes investimentos, contrariamente ao que se verifica na corrida aos dois mil lotes destinados a habitações. ‘’De modo geral, devo dizer que o projecto está na fase de comercialização, com preços entre 1 milhão (para cada mil metros quadrados) e dois milhões de Kwanzas’’, informa o técnico. 

José Ferraz lembra que há um ou outro ‘’atrevido’’ a vedar e a lançar bases para construções, mas sublinha, tal como empresários atentos ao desenrolar dos acontecimentos, que a expectativa reside no início da etapa de infra-estruturação. 

A existência de um posto de transformação (PT) de electricidade e de ramal de água no local prenuncia, conforme idealiza, disponibilidade para dois importantes serviços, prevalecendo a incógnita em relação a outras infra-estruturas. 

Contas feitas, a venda de lotes rendeu, no pior dos cenários, mais de 1 bilião e 500 milhões de Kwanzas, cerca de dez milhões de dólares norte-americanos. 

 

Governo insiste no ‘namoro’ a Luanda -A problemática das acessibilidades, usada como lema para os festejos do último 27 de Setembro, Dia Mundial do Turismo, encaixa-se como uma luva no Blue Ocean, projecto que deverá exigir dez quilómetros de estradas, ficando os custos na ordem de USD 600 mil por cada quilómetro. 

No contacto com a Figuras & Negócios, o vice-governador para o sector Técnico e de Infra-estruturas, Víctor Sardinha Moita, optou por não falar em números, mas salientou que as receitas da comercialização de terrenos não são suficientes para a infra-estruturação. 

O governante informou que os projectos – estradas e drenagem – até foram aprovados, há dois anos, pela Assembleia Nacional. ‘’O problema é que os valores não foram disponibilizados, por isso continuamos a inserir estas necessidades nos programas de investimentos públicos’’, assinala. 

Sardinha Moita reforça que as autoridades tiveram de honrar compromissos financeiros com as empresas que trabalharam em estudos para as redes técnicas, trabalhos topográficos, loteamento e desmatação, numa altura em que a província era confrontada com enxurradas que implicaram ‘’rios de dinheiro’’ para acudir as vítimas. ‘’Acreditamos, sendo certo que iniciativas como estas são executadas a longo prazo, que venhamos a trazer investidores para a província’’, vinca, realçando que a situação financeira do país exige muita ponderação.   

 

Ensino e legislação - Defensor do Blue Ocean, um dos quatro projectos nacionais com as valências já aqui mencionadas, o presidente da Associação dos Industriais de Hotelaria de Benguela, Jorge Gabriel, volta a bater na tecla da formação, lembrando que crescimento não deve ser confundido com desenvolvimento. ‘’É um dos maiores projectos em curso, pelo que a rede hoteleira agradece. Vai proporcionar emprego e receitas para o Estado’’, sublinha. 

Apresentada a sua visão, reafirmou a necessidade de uma escola básica capaz de ministrar o ABC da hotelaria e turismo, com pendor para a vertente restauração. Jorge Gabriel elogia a iniciativa do Fundo Soberano, entidade que financia uma academia em Benguela, mas sustenta que não é sensato começar do nível médio. ‘’O ideal seria da base para o topo, com uma orientação curricular ajustada à cultura angolana’’, justifica o empresário, expectante em relação ao futuro de um imóvel projectado para escola de formação básica, situado entre Benguela e Lobito. 

Se é verdade que o factor formação condiciona altos voos, também é certo que a legislação angolana, diz o economista Carlos Rosado, em nada ajuda, já que chega a afugentar o investimento estrangeiro, sobretudo na hotelaria. 

O académico prefere não acreditar que um estrangeiro tenha de perder para um cidadão nacional 35% do seu capital quando quiser construir uma unidade hoteleira. “Quero saber se o angolano, posteriormente, coloca o seu dinheiro ou espera os rendimentos futuros’’, questiona, para mais adiante inverter os papéis: ‘‘não acredito que nós aceitemos dar esta percentagem a um congolês, se formos fazer isto na RDC’’. 

Por isso, defende o director do jornal Expansão, que falava no 2º Fórum Económico de Benguela, as autoridades devem encontrar soluções que contraponham as barreiras ao investimento estrangeiro directo. 

Angola ocupava, à data da dissertação de Carlos Rosado, em Maio de 2015, a última posição do relatório de competitividade turística elaborado pelo Fórum Económico Mundial, para o desagrado de observadores que criticavam a má gestão estrutural e administrativa e falta de planeamento no sector.   

 

Receitas do turismo em África - Baía Azul, localidade eleita para ‘’acções à dimensão do melhor a nível mundial’’, terá a companhia do ‘Costa Nova’, um projecto que deverá ajudar a província de Benguela a ombrear com os sul-africanos receitas que chegam aos 34 mil milhões de dólares norte-americanos. 

As valências dos vários projectos podem contribuir para um aumento de um para 3% - segundo plano de desenvolvimento 2013/17 – da participação do turismo nacional no Produto Interno Bruto (PIB), acima dos cem mil milhões de dólares. 

Números relativos ao ano de 2013, com os quais o Governo Provincial trabalha, indicam que a África do Sul recebeu a maior parte dos 56 milhões de turistas que visitaram o continente, conseguindo um crescimento de 4%. 

Já se sabe que Benguela quer ser um centro urbano de eleição, com emprego, educação, belezas naturais e um bom padrão de vida, mas a ambição não fica por aqui. O governador da província,  Isaac Maria dos Anjos, tenciona "intrometer-se" na luta pela fortuna que o turismo pode gerar para a economia. Daí o ‘Costa Nova’, também na Baía Farta, um dos quatro municípios que estão a ser preparados para o surgimento de uma região metropolitana, com auto-estrada e grandes núcleos habitacionais. 

O Blue Ocean, o foco desta abordagem, foi projectado para 20 mil habitantes, esperando-se que a zona balnear do centro turístico da Baía Azul, atraía, mercê do potencial paisagístico do mar, delegações oriundas das regiões mineiras de Catanga (RDC) e Copperbelt (Zâmbia).   

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