DOSSIER

 
23 de dezembro 2015 - às 07:40

ATAQUES DA RÚSSIA AO DAESH DÃO NOVO FÔLEGO A ASSAD

Os ataques da Rússia a alvos da oposição ao regime sírio conduziram a um novo fôlego ao debate sobre a situação do país e vontade de o solucionar. Ao mesmo tempo que os ataques terroristas em França deram outro empurrão

 

O caminho está aberto ao diálogo na Síria e poderá iniciar-se a 1 de Janeiro, conforme o acordado na Cimeira de Viena 2, realizada a 14 de Novembro. Opositores ao regime de Bashar al Assad afirmam-se receptivos em debater com o presidente do país. Porém, o chefe do Estado não está disposto a conversar com todos. De fora fica o Estado Islâmico (DAESH – sigla em árabe, Estado Islâmico do Iraque e do Levante).

«Estamos preparados para iniciar as negociações com a oposição, mas depende da definição de oposição. Oposição não significa grupos armados. Há uma grande diferença entre grupos armados e terroristas», disse em entrevista à agência noticiosa espanhola Efe.

A vontade do presidente sírio foi manifestada com críticas à Arábia Saudita e à Turquia, mas igualmente aos Estados Unidos, que acusou de apoiar grupos armados. Entretanto, Hussam al-Awak, do grupo oposicionista Exército Livre da Síria, demarca-se das conversações, devido à alegada presença de terroristas integrados na missão do Estado. Este militar refere-se directamente a membros da Irmandade Muçulmana. O Irão está em sintonia.

A 9 de Dezembro, mais de 100 representantes das forças da oposição ao regime sírio reuniram-se em Riade, na Arábia Saudita, para abordar a questão das negociações de paz. Os opositores ao regime convergiram na necessidade de se formar uma frente negocial, que envolva todas as correntes. O Irão garante que, entre os participantes, se encontravam elementos do DAESH.

Fonte ligada ao Governo de Damasco, citada pela BBC, garantiu que houve uma evolução das posições dos oposicionistas, que já admitem que Bashar al Assad possa continuar no poder. Porém, essa certeza é desmentida por participantes no convénio de Riade.

O Irão não reconhece a legitimidade da cimeira de Riade, considerando-a desalinhada face ao acertado no debate de Viena, em que foram estabelecidas as linhas para negociar a paz. Palavras do vice-ministro dos Negócios Estrangeiros [do Irão] para os Assuntos Árabes e Africanos.

Desde Março de 2011, calcula-se que a guerra civil tenha causado a morte a mais de 250.000 pessoas e deslocado 11 milhões.

 

Regime sírio aumenta controlo territorial - No terreno, localizações controladas pelo DAESH tornaram-se alvo de ataques da força aérea e da marinha da Rússia, mas também do Irão, EUA, França e Reino Unido – além do exército regular sírio; a Alemanha irá juntar-se em 2016. Informações veiculadas por fontes russas indicam que os radicais sofreram pesadas perdas e derrotas, nomeadamente em Alepo, no Norte do país.

Por seu turno, o Irão assegura que o exército sírio avançou para perto da fronteira com a Jordânia, a Sul. A fonte iraquiana indica que quase foi conseguido o controlo de Al-Jamrak, uma passagem estratégica, que deverá cair em pouco tempo. Vitórias também em zonas estratégicas de Damasco e de Homs.

A progressão terrestre tem sido possível devido ao apoio aéreo prestado pela Rússia, garante o Kremlin. A Rússia tem fornecido armas, munições e material de apoio ao exército regular sírio. Embora esteja a apoiar o regime de Bashar al Assad, Vladimir Putin informou que a oposição moderada está também a receber apoio da Rússia, através de apoio aéreo em ataques às forças do DAESH.

 

Esvaziar os cofres - O financiamento do DAESH é uma prioridade para que se possa vencê-lo. A conclusão é simples, mas não tem acontecido. Na imprensa europeia multiplicaram-se as notícias de que os países da União Europeia compram petróleo sem saberem a sua origem.

Informações vindas a público dão conta que o petróleo é produzido em campos situados em territórios controlados pelo DAESH. Daí segue para a Arábia Saudita e para o Qatar, que o «lavam» e introduzem no mercado internacional.

«Na Síria, temos mais de 100 nacionalidades que lutam com os extremistas e terroristas, da Al-Qaeda, da Al-Nusra entre outros. O primeiro passo é para pôr fim [a esta situação] é resolver este problema, travar o fluxo de terroristas, especialmente chegados através da Turquia» – disse Bashar al Assad à Efe.

Para Bashar al Assad é necessário impedir o financiamento das organizações terroristas, que ascende a muitos milhões de dólares (USD), referiu-se directamente ao alegado apoio da Arábia Saudita, Qatar e Turquia. Se a ajuda financeira cessar, o conflito terminará no espaço de um ano, assegurou o estadista.

À hora de fecho desta edição era esperada uma nova tomada de posição por parte dos EUA. A superpotência admite a construção de bases militares no Médio Oriente e em África. Anteriormente, o presidente Barack Obama tinha já excluído uma intervenção terrestre na Síria.

Uma posição mais empenhada dos EUA vem na sequência dos atentados, perpetrados por radicais islâmicos, em Paris e San Bernardino (Califórnia). Washington tem também manifestado o desejo que evolução da posição da Rússia face ao regime de Bashar al Assad. Em resposta, Moscovo garante não sentir grande empenho por parte dos países ocidentais na luta contra os extremistas.

O grupo de piratas informáticos Anonymos também declarou guerra ao DAESH, tendo já atacado sistemas dos radicais islâmicos.

A 24 de Novembro, a Turquia abateu um avião militar russo, que interviera numa acção contra o DAESH, alegando violação do seu espaço aéreo e apesar de dez avisos. A Rússia nega, mas adverte que em situações diferentes, o acto conduziria a guerra.

Vladimir Putin manifestou o desejo que o Reino Unido analise as caixas negras do Sukhoy SU-24, abatido pela Turquia – o que clarificaria quem diz a verdade acerca do incidente.

Depois do primeiro-ministro russo, Dimitri Medvedev, ter sublinhado a possível consequência, caso não se estivesse perante uma situação complexa na Síria, o presidente lançou uma advertência. Vladimir Putin, elogiando os militares do seu país, deu ordem aos generais para serem mais duros, referência velada à Turquia. «Quero avisar aqueles que podem tentar de novo provocar as nossas tropas» que [mandarei] agir de forma extremamente dura. Quaisquer alvos que ameacem grupos de forças russas, ou as nossas infraestruturas terrestres, deverão ser destruídos de imediato».

A Turquia acusa a Rússia de estar a efectuar uma limpeza étnica, no Norte da Síria, expulsando os turcomanos e sunitas, de modo a defender os seus interesses militares. A afirmação do primeiro-ministro turco, Ahmet Davugoglu, surge com maior confiança, após sinais de cedência, em toda a linha, da União Europeia às condições da Turquia, com vista à adesão ao bloco. Nem mesmo a antiga e fundamental exigência, dos países ocidentais, para se reconheça o massacre e limpeza étnica do povo arménio (Genocídio Arménio), de 1915, parece restar na lista.

 

A luta tem de aumentar - A necessidade de aumentar os ataques ao DAESH torna-se mais notória. A resolução da guerra na Síria é uma parte substantiva da equação. Para tal ser possível, deverá ser constituída uma aliança. O perigo de alastramento pressiona mais países.

Bashar al Assad desmentiu as informações que indicam que a Rússia poderia construir bases na Síria. Acrescentou que «não se trata de uma questão de intercâmbio comercial. Em troca, a Rússia quer que haja estabilidade na Síria, no Iraque e em toda a região».

O presidente sírio lembrou a posição geo-estratégica do seu país, que não se situa longe da Rússia nem da Europa. «O que está a acontecer aqui [Síria] vai afectá-los [países ocidentais], positiva e negativamente».

De acordo com o Governo russo, apesar dos esforços empreendidos nos ataques contra o DAESH, os radicais controlam cerca de 70% da Síria, além de vastas áreas no Iraque. A motivação russa assenta no receio que os fundamentalistas alastrem o conflito à Ásia Central e ao Cáucaso.

Descendendo da guerrilha afegã às tropas do Afeganistão e da Al-Qaeda, o que começou como um pequeno grupo armado e com acções no Norte do Iraque e no Curdistão, controla hoje grande parte da Síria, com influência no Líbano, Argélia e África Central. A apetência pela Ásia Central faz com que a China siga com muita atenção o evoluir dos acontecimentos, embora sem intervenção. Pequim tem manifestado apoio aos esforços da Rússia. 

A tolerância religiosa e étnica dos países da União Europeia, alguns deles com importantes comunidades muçulmanas, aliada à fácil circulação dentro do bloco, têm facilitado a vida aos radicais. Chegou a vez da guerra chegar ao coração de França, a 13 de Novembro, com um ataque numa sala de espectáculos. O clima de medo e receio poderá ser respondido com o fortalecimento de forças políticas nacionalistas e xenófobas.

O DAESH está a tentar alargar o seu âmbito operacional. As autoridades marroquinas anunciaram terem detido nove membros deste grupo terrorista.

Por seu turno, o ministro da Defesa de Singapura garante que o DAESH é uma «ameaça clara e actual» no Sueste Asiático. Ng Eng Hen afirma que, em três anos, esta organização conseguiu mais seguidores na Indonésia, Malásia e Singapura do que a al-Qaeda em dez, após o ataque às Torres Gémeas, de 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque e Washington. 

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital