PAÍS

 
24 de janeiro 2015 - às 23:03

AS CASAS VIRARAM PÓ

Há oito anos o grupo Build era criado por empresários com má fama profissional no Brasil com a “intenção” de construir casas para todas as classes de Angola. Foi apenas um sonho que se tornou pesadelo

 

Cinco anos se passaram desde que o sonho de obter a casa própria –ou melhor estruturada- se tornou um verdadeiro inferno na vida de muitos. Explica-se: há cerca de oito anos, quatro empresários brasileiros – António Paulo Sodré, Paulo Marinho, Joca Conra

do e Ricardo Boer- desembarcaram em Angola com a ideia de que tinham ouvido falar que o país irmão era o verdadeiro eldorado para qualquer tipo de negócios. 

Apostaram. Criaram, então, uma pequena empresa construtora que de início tinha um projecto, um plano de negócios e muitas pessoas - leia-se funcionários de boa índole que saíram do Brasil e se juntaram a tantos outros angolanos para “fazer a empresa” crescer.

O líder desse quarteto, António Paulo de Azevedo Sodré partiu em busca de pessoas que o fizesse dar força e conceito a uma ideia que, caso desse certo, seria a sua redenção. Haja vista que o seu histórico policial não é dos mais limpos. Para se ter uma ideia, Sodré ainda é procurado no Brasil pela Polícia Federal, por contrabando e estelionato, além de responder a dezenas de processos na área cível por fraudes relacionadas à importação de avestruzes na Justiça de São Paulo, a maior e mais importante estado do Brasil.

A história não acaba por ai. Aliás, não teve fim. A cada dia a angústia aumenta, pois o sentimento de impunidade, tanto em Angola quanto no Brasil, se faz presente quase cinco anos depois. 

Um comprador, Matias Lukoki, trabalhador da Sonangol há mais de 3 anos, aceitou falar por telefone com a reportagem de Figuras&Negócios sobre o dinheiro investido e, consequentemente, perdido. No ano de 2008, ele aderiu a dois projectos: o THE ONE e o COPACABANA. Perdeu todo o investimento. O primeiro nunca foi terminado, o segundo teve o projecto cancelado. 

O primeiro projecto a ser idealizado pelo grupo foi em 2007 com o lançamento do THE ONE, um conjunto de lofts – que na América é de muito sucesso. Maravilhados com a inovação, muitos compradores fizeram filas para adquirir uma unidade.

Mal  iniciou  as obras do THE ONE - onde a reportagem verificou o início foi lançado o segundo empreendimento e ainda mais pomposo, a QUINTAS DO RIO BENGO no início de 2009. Era um condomínio fechado com localização a 50 minutos da capital, Luanda. Os compradores: empresários, executivos de empresas grande parte do Jetset angolano.  

No mesmo ano mais um empreendimento, o fatídico BEM MORAR. Não há palavras para descrever esse empreendimento, pois contemplava absolutamente tudo que um  angolano classe média gostaria de obter em termos de morada.

Em 2010 mais um empreendimento, o NOSSO LAR que, com preços bem atractivos –de US$ 100 mil a US$ 190 mil- causou ilusões para muitos mais. Outros dois projectos que  não chegaram a sair do papel foram o NOSSA VILA e o BUILD BOULEVARD.

Cada venda concretizada de um imóvel milionário era comemorada pela turma brasileira com regabofes nababescos. Nenhuma casa foi entregue. 

A ARTICULAÇÃO DA MARACUTAIA - O grupo Build começou a ganhar credibilidade junto ao povo de Angola quando nada mais do que Edson Arantes do Nascimento –mais conhecido por Pelé, o rei do futebol- deu a sua cara no ecrã para anunciar os empreendimento

s Build. 

A articulação para a contratação de Pelé como garoto propaganda nascera a partir de uma viagem de Sodré num cruzeiro do rei do futebol, o Pelé’s Cruise. Promovido pelo ex-jogador, entre os dias 28 de Junho e 5 de Julho de 2009, que partiu da cidade de Veneza em direção às Ilhas Gregas e à Croácia. Gatuno, Sodré convenceu Pelé de que Angola era o eldorado e que “iriam garantir-se financeiramente até o fim de suas vidas”. 

Três meses depois, Pelé aportava em Luanda para estrelar comerciais e dar entrevistas dizendo-se sócio da Build Angola, marca pela qual o grupo brasileiro lançou os projectos Bem Morar e Quintas do Rio Bengo, cujos preços das unidades variavam entre US$ 100 mil e US$ 1 milhão.

Quando as obras do Bem Morar e do Quintas do Rio Bengo começaram a sofrer atrasos vieram as reclamações. Muitas, dezenas, centenas, não paravam.

 “Tentei recuperar US$ 300 mil, que havia dado como entrada para o Copacabana, mas não obtive sucesso. Há época só ligava para o escritório da então Build Brasil e nada. Uma maka sem precedente”, explica com a voz embargada um funcionário da petrolífera Sonangol.

É facto  que  alguns poucos  conseguiram  reaver  o dinheiro  investido. Um dos  episódios mais  ilários  foi o  general  que, fardado e  armado, fora  à  sede da  empresa  na época no Nova Vida  reaver  o dinheiro por  meio  da  força. 

 Por causa dessa maka e  tantas  outras, a direcção havia emitido uma carta de esclarecimento afirmando que o “senhor Edson Arantes do Nascimento (o jogador Pelé) continuara sócio do empreendimento e que todos seriam entregues”. Nada acontece e até hoje uma sucessão de desmentidos. Esse facto foi negado pelo staff de Pelé sempre.

A aldrabice e a conversa fiada estavam prontas, mas Sodré e sua turma precisavam de se capitalizar financeiramente e, também nos meandres políticos de Luanda. Como as duas atitudes não funcionam uma sem a outra partiram inicialmente para os meios políticos. Ali conheceram o advogado, jurista e homem com ideias inovadoras para com os empresários do país, Aguinaldo Jaime. 

Presidente da ANIP por alguns anos, Jaime usou da sua influência e da presença de Pelé no país para ratificar junto à cúpula política do país o então sucesso do empreendimento, que só crescia em anúncios, mas nada das obras iniciarem.

A ligação de Aguinaldo Jaime com a “Bem Morar” teria ganho visibilidade quando, em Junho de 2010, convenceu o Presidente José Eduardo dos Santos a receber Pelé, o rosto de marketing da que poderia se chamar de construtora brasileira, a quem informou “detalhadamente” sobre o projecto habitacional para as duas províncias em referência.

Até hoje, quando perguntando pelos seus  pares, Jaime diz que “também fora ludibriado pelos brasileiros” e que não havia muito o que fazer haja vista que só os conhecia  em Angola e não no Brasil.

NO BRASIL - Os  empresários  desapareceram. A reportagem  lutou  com todas as  forças  para encontrar  os supostos  empresários, mas  não  obteve  sucesso. Ninguém  quis falar.

A empresa Build Angola que já alterou o seu nome três vezes (começou com Build Invest, passou para Build Brasil e hoje se auto-proclama Build Angola) na verdade se chama READI ANGOLA. Por que tantas mudanças? 

A “Bem Morar” é uma iniciativa ligada a empresa Build Brasil que opera em Angola a cerca de cinco anos. A imobiliária é tida por sectores em Angola por não ter obedecido a regras de investimento estrangeiro em vigor no país, pelo que as suspeitas, “da falha” viraram-se para a gerência da ANIP. As autoridades angolanas notam, também, que esta imobiliária revela-se com comportamentos que indiciam estar prestes a deixar o país, havendo receio de que desonrem com compromissos de habitação nas províncias de Luanda e do Huambo. (Os interessados terão já adiantado no pagamento de casas que vão dos 180 a 280 mil dólares).

A saída de Aguinaldo Jaime da gestão da ANIP teria sido protelada em função da procura de alguém que emitisse respeitabilidade mas também sem precedentes de desonestidade financeira. Maria Luísa Abrantes, que até pouco tempo representava a ANIP nos Estados Unidos, mostrou-se inicialmente desinteressada/indisponível para aceitar o cargo de PCA mas acabaria por considerar a proposta no seguimento de uma intervenção de Carolina Cerqueira, a então Ministra da Comunicação Social que o convenceu a aceitar.

São desconhecidas as motivações de fundo da inicial recusa da mesma, porém, há correntes que associam-na a reservas por efeito de uma “marginalização” a que foi tendo nos últimos meses. 

Tal como Aguinaldo Jaime, a nova e actual PCA, da ANIP é jurista de formação e detentora de várias pós graduação. Viveu na capital americana por mais de 10 anos como conselheira diplomática da embaixada angolana em acumulação com a chefia da representação da ANIP. É a mentora da imagem das políticas de incentivo ao investimento do Estado angolano em cadeias internacionais, como a CNN. Goza de respeito externo e é das raras personalidades angolanas cujo nome não é associado a casos de corrupção.

THE ONE - Entrega Outubro de 2009. Estágio  actual: Outra  construtora assumiu  as  obras à  mando  dos  proprietários, mas ainda não  as terminou.

COPACABANA-Projecto cancelado. Inúmeros proprietários enganados. Centenas compraram  o projecto e não receberam até hoje as famosas "chaves na mão" ou a compensação financeira.

QUINTAS DO RIO BENGO - As quintas que  tinha  a promessa de  entrega  para o  Natal de 2011 sequer foram  concluídas.  e isto pode ser facilmente visto por quem passa pela estrada da Funda. O  que há  no  local  são  somente casas-modelo que foram construídas para promover o projecto.

BEM MORAR – Mais vistoso  e completo  projecto, tinha a sua  entrega para Abril de 2011 (ou seja, há 5 anos  atrás) não tem sequer a fundação da maioria das casas. Fizeram as ruas e dois prédios (que chamam mais a atenção) e nada mais.

NOSSO LAR - Mais uma vez fizeram um grande Stand de Vendas e duas casas modelos, porém bem longe da real localização do condomínio. A empresa também não apresenta nenhum documento que comprova a titularidade dos terrenos onde está a construir.

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