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28 de fevereiro 2016 - às 13:49

ARMANDO MACHADO: “FAF NÃO PODE MANDAR NOS JOGOS DE CLUBES”

O campeonato nacional de futebol da primeira divisão, vulgo Girabola, já está em curso na sua 37ª edição. Agora, denominado de Girabola ZAP, a prova está a ser disputada com algumas novidades, umas bem aplaudidas, como, finalmente a oportunidade das equipas participantes, ganharem dinheiro; outras,  porém, acesas em polémicas, caso do aumento de três para cinco estrangeiros em cada equipa e, ainda, a condição de um jogador só ser suspenso depois de três cartões amarelos em vez de dois como antes; o pagamento dos árbitros pela federação e não já pelos clubes. 

Armando Machado, figura que já dirigiu a Federação Angolana de Futebol, o Petro do Huambo e Petro de Luanda, concedeu à Figuras & Negócios, a entrevista que se segue, onde falou do campeonato, da sua gestão federativa e de outros assuntos que ora entravam  ora dão alegria ao futebol de clubes e de selecções que Angola tem , no país e no continente.

 

Figuras & Negócios (F&N) - Até que ponto a crise financeira e económica que o país vive poderá ou não afectar o curso do campeonato, agora denominado Girabola Zap?  

Armando Machado (AM).: Na verdade, a nova época futebolística decorre no quadro de uma crise financeira que não é só de Angola, ela é mundial, e a situação é muito grave. Antes dela, o país estava, efectivamente no seu auge, é certo que já havia crise noutros países, mas  o petróleo não tinha atingido os baixos níveis actuais em termos de preço. Angola era um país apetecível, mas quando caiu o preço do petróleo, deixou de haver dólares e estamos como estamos. Os bancos financiavam os empresários que construíram muitos prédios, que eram para vender ou arrendar e, depois, as pessoas interessadas nisso também iam buscar créditos aos bancos. Isto vai mexer com os clubes e as suas equipas de futebol.

F&N - Corre-se o risco de haver equipas a sofrer financeiramente, sem  estofo para terminar o campeonato? 

AM.: Nesta crise o desporto, repito, não foge à regra, os clubes vão sofrer com isso e não apenas eles. Quem poderá sofrer com um eventual fracasso do nível comepetitivo com o desporto de massas que é o futebol, é, até o povo.

F&N - Se a parceria da Zap com a FAF vai dar aos cofres deste órgão reitor da modalidade quatro milhões de dólares para serem distribuídos pelos dezasseis clubes que competem na prova e apenas um milhão para os seu cofres, não evita eventuais fracassos da ou na competição? 

AM.: Embora tenha aparecido essa empresa, a Zap, ela ainda vai ter que se entender com os órgãos de comunicação social, porque a meu ver, vão cobrar sobre os seus trabalhos. Não é só a firma falar com os clubes e daí essa parceria com a federação. A parceria devia ser feita entre a federação, clubes e comunicação social. 

F&N - Acha que os clubes neste primeiro Girabola Zap foram excluídos das negociações directas, embora venham a beneficiar financeiramente?

AM.: Eu não compreendo como foi isso. A FAF não pode mandar nos jogos dos clubes. Só pode ser nos da Selecção Nacional.

F&N - Houve interferência na autonomia dos clubes?

AM.: Se eu fosse presidente de um clube não permitiria isso. Os jogos, repito, são dos clubes.

F&N - A federação agora exige que os clubes exibam contratos dos jogadores. A FAF não devia também impor aos clubes a demonstração dos seus orçamentos para evitar o abandono da prova a meio?

AM.: A FAF sabe que esta crise vai mexer com os clubes porque já foi aprovado o Orçamento Geral do Estado, a Sonangol, com a baixa do petróleo o Petro, vai sentir. Os bancos que patrocinam clubes vão ter que se coser, mas, também, tenho visto tantos bancos, como em Portugal, que hoje estão bem e amanhã não. Mesmo a TAAG pode sentir isto e o ASA por arrasto. O momento é difícil e com esta crise é difícil orçamentar e prever correctamente. Vamos ter que aprender com isto que estamos a enfrentar a já quase há um ano.

F&N - No meio da crise houve clubes que investiram na contratação de treinadores e jogadores e outros que preferiam não apostar muito, fazer estágios no país. Isso vai influenciar a luta pelo título?

AM.: Claro que vai, há equipas fortes, médias e fracas. Acho, não arrisco nomes, que só três ou quatro equipas ligadas a empresas , a partes militares é que darão animação competitiva e que se aguentarão financeiramente. Não estou a ver as outras menos suportadas a igualarem-se àqueles que têm um orçamento que as permite acabar o campeonato a lutar pelo título. Umas lutarão para isso, outras para estar no meio e algumas para não descer. Todos os anos tem sido assim.

F&N - Armando Machado disse publicamente que se tivesse o dinheiro que o futebol movimenta agora poderia cantar como Pavarotti, sinal de que, certamente, pela experiência, em gestão e dirigismo desportivo, faria coisas melhores para o futebol. Como antigo dirigente da federação, não é chamado para a aconselhar?

AM.: Eu não queria entrar por aí, mas, nunca fomos solicitados. Mas, de facto, tive muitos patrocinadores, muita gente que me facilitou. Cheguei a receber  da Sua Excelência, Presidente República, José Eduardo dos Santos, um despacho de autorização de trezentos mil dólares  que solicitei, para servir, patrioticamente a federação e o futebol.

F&N - Apoio do Presidente da República?

AM.: Sim, tive-o para servir a causa do futebol nacional. E tive outros apoios como de dois ministros das finanças, o velho Alcântara Monteiro que já morreu, e o Augusto Tomás que agora está no ministério dos Transportes.

F&N - Que empresas apoiavam a federação no seu consulado?

AM.: O meu grande patrocinador, na altura, era a Sonangol que estava a crescer. Depois tinha a TAP, TAAG, Sagres, Cuca e a Nocal.

F&N - O senhor é presidente honorário no elenco actual da federação. Não ajudar a bater as mesmas portas?

AM.: Não quero dizer se esta direcção também pode ou não fazer o que fiz para ter mais apoio. Eu fui tive-os numa época em que não havia dinheiro, mas, sou um indivíduo conhecido, de várias relações e consegui. 

F&N -Acha que, nesta edição do Giraboloa Zap, quando as 16 equipas jogarem na condição de visitadas vão gastar 11 milhões e 377 mil e 238 kwanzas durante os nove meses para o pagamento das despesas de alojamento, alimentação, transporte e prémios de jogo para os quartetos de arbitragem, acabará com as suspeitas de manipulação e imparcialidade dos homens do apito? 

AM.: De facto foi mais sensato definir que os clubes fizessem chegar dinheiro à federação e esta, sim, ser a responsável para pagar os árbitros. Evita que eles tenham vínculo com os clubes.

F&N - Só isto basta para se acabar com as más arbitragens?

AM.: A federação é que tem de fazer um esforço neste sentido. Mas ela deve ainda fazer que sejam as associações provinciais a receber, acomodar e levar de volta aos aeroportos ou outros locais de regresso os árbitros que se deslocarem fora para apitar jogos.

F&N - O que acha do facto de a federação, em casos de suspeita, apenas suspender ou despromover árbitros em vez de os irradiar ? 

AM.: Penso que isso depende sempre dos casos. As sanções são graduadas em função da irregularidade.

F&N - Não se conheça em que pé está a denuncia feita o ano passado pelo presidente do Recreativo da Caála, Horácio Mosquito. O assunto chegou á Procuradoria Geral da República, mas a FAF até já homologou o campeonato. É bom a culpa morrer solteira?

AM.: Devia haver uma decisão ou explicação de como está o processo, para evitar precedentes. Nós sabemos que os árbitros aqui, como em qualquer parte do mundo, sofrem da aproximação dos dirigentes desportivos. 

F&N - Que impressão tem dos nossos árbitros?

AM.:Temos já referências, porque alguns até chegam a ser convidados para campeonatos africanos e mundiais de vários escalões. Mas, para mim, o bom árbitro é aquele que apita do começo ao fim e sai do campo de cabeça erguida. Hoje, já não vou muito aos campos, devido à idade, os campos, como o 11 de Novembro, estão longe, e assim não posso avaliar com muito rigor.

F&N - A direcção do actual Conselho Central de Árbitros é idónea? 

AM.: Não há neste conselho alguém do meu tempo. Trabalhei, primeiro, com o João Madeira e, depois, com o Délcio Costa. Digo apenas que, normalmente, há  sempre corruptores e corruptos e, por esta razão, defendo que haja formação ética e deontológica, porque as pessoas não são de ferro, são de carne e osso e, às vezes, se deixam embalar por tentações.

F&N - Neste Girabola Zap estão a competir, pelas 16 equipas, um total de cinquenta jogadores estrangeiros. Isto prejudica os jovens nacionais que almejam oportunidades nas nossas equipas? 

AM.: Foram os clubes que, soberanamente, assim decidiram numa reunião ou assembleia com a federação. Pelas contas que se fazem, é claro que ficam muitos jovens sem poder ter espaço em muitas equipas. Além disso, financeiramente, nestes tempos de crise, os clubes que contrataram cinco jogadores estrangeiros vão ter que pagar mais porque têm uma forma física de o fazer.

F&N - Mas, fora a questão das oportunidades aos jovens, o número de estrangeiros não dará outra qualidade competitiva às equipas e ao próprio campeonato?

AM.: Não nos podemos esquecer que hoje há cá clubes angolanos que pagam mais do que os portugueses e, por isso, muitos jogadores daquele país e até treinadores, e ainda muitos africanos estão a vir a Angola, as vezes sem níveis equiparados aos nossos jogadores e treinadores.

F&N - Então, atrás destes investimentos não vem, como se diz, futebol de primeira água?

 AM.:Os clubes que têm posses vão poder continuar a contratar mais e ficarão melhor. Umas, sim aumentarão a competitividade,  mas as outras não. Mas, repito, em termos de contas, pode ser uma quebra para as oportunidades dos jovens. Se todas as grandes equipas tiverem cinco estrangeiros e todos jogarem, teremos cerca de cinquenta estrangeiros em lugares onde podiam estar os nossos rapazes. A juventude deve ter oportunidade de dar o seu contributo.

F&N - Hoje, ainda compara, como já o fez certa vez, o futebol angolano como um prédio de sete andares sem corrimão?

AM.: Lógico. Porque, só para dar um exemplo, eu vivi dez anos de federação, saímos do centésimo e tal e viemos nos quarenta e tal. Hoje o quadro piorou.

F&N - Olhando para a geografia do campeonato, vê-se que não há equilíbrio competitivo porque as equipas de Luanda e excepcionalmente o Libolo do Kwanza Sul, são as mais fortes. Não seria melhor evitar a disputa nacional a duas voltas e apostar em regionais, com uma fase final para se apurar o campeão nacional?

AM.: Tenho conversado e sugerido isso aos mais diversos níveis. Penso que é mais viável fazer campeonatos regionais, depois, fazer os apuramentos e, no fim,  disputar a final. Já vivi esta fase em época e condições diferentes.

F&N - A insistência no modelo antigo que continua actual tem apologia na ideia de unidade nacional e não na de provas regionais, que politicamente, faz pensar em fraccionamentos, regionalismos, etc. ? 

 AM.: O campeonato é disputado desde 1979, começou com catorze equipas e evoluiu para dezasseis. Naqueles tempos havia guerra entre angolanos e, então, uma forma de levar a alegria ao povo nas diferentes províncias era com o futebol. Portanto não eram apenas factores competitivos ou económicos, mas também social e política.

F&N - Deve-se persistir, então, esse modelo, digamos assim, político de fazer disputar o campeonato? 

AM.: Acho que pode-se fazer esta experiência, os clubes ganhariam mais experiência, só a experiencia mostrará o que é bom ou não.

F&N - Vendo-se hoje como está a organização e o desempenho do nosso futebol  a nível interno, africano e mundial, faz sentido, como já se aventou, parar de competir em provas internacional para, depois, regressarmos mais fortes em todos os sentidos?

AM.: Não, não devemos. No meu tempo também se propôs isto, mas não implementamos a ideia. O certo é que tivemos, por exemplo, uma selecção de jovens formada para ganhar, e fomos campeão de Sub-20. Depois, muitos deles, estiveram na equipa que levou o país ao Mundial da Alemanha, em 2006. Por isso, parar não, não faço apologia disso.

F&N - Então o futebol angolano deve continuar a somar fracassos atrás de fracassos?

AM.: O certo, o que deve se exigir é que não se pode fazer crer ao povo amante do futebol acreditar naquilo que não é possível. É falso. Não se pode dizer que vamos isto e aquilo, chegar aqui e ali e depois no fim nada.

F&N - Desde que saiu da FAF, já passou Justino Fernandes e agora está  Pedro Neto. Não há continuidade do seu trabalho? 

AM - Falta muita coisa. Não é só por falta de investimento ou aposta do Estado, sobra alguma coragem e ousadia. Olha que no último CHAN perdemos 4- 2 com a RDC. Os iniciais deviam ir e não serem suspensos. Lá fazia-lhes sentir o patriotismo e, então, depois, um processo disciplinar se fracassassem.

F&N - O que faltou para evitar o fracasso?

AM - Faltou ai serenidade e autoridade de quem ordena.

F&N - Esta falta de autoridade e falha de visão de crescimento não costuma ser dissecada nos congressos ou encontros nacionais de futebol realizados pela federação e pelo Ministério da Juventude e Desportos?

AM - O que se passa é que se fazem esses eventos, aprovam-se documentos,  estratégias, mas depois não há fiscalização, e a prática, a implementação, não se verifica. Tem de se sancionar melhor.

F&N - Na sua qualidade de presidente honorário da Federação Angolana de Futebol apoia a recandidatura do actual presidente de direcção, Pedro Neto?

AM - Eu tenho as melhores impressões do Pedro Neto. Foi jogador no tempo colonial e conheci-o melhor quando foi presidente de direcção do Clube 1º de Agosto.

F&N - São os grandes clubes que influenciam a agenda eleitoral e depois organizativa e competitiva da federação?

AM - Não senhor, é apenas a direcção da federação que comanda o órgão.

F&N-  Então, apoia ou não a reeleição de Pedro Neto?

AM.: Eu não desgosto o Pedro Neto. Acho apenas que se deve rodear de pessoas certas para estar no bom caminho.

F&N - E se, tendo em conta a sua experiência e apoios que já teve, fosse convidado a voltar a concorrer para liderar a federação aceitaria?

AM.:  Eu já não tenho condições para concorrer, mesmo que fosse convidado. Já lá estive,  na federação. Fiz coisas boas com patriotismo, deixei a minha marca. Com 72 anos não arrisco mais.

F&N - A sua corajosa corrida à presidência da Confederação Africana de Futebol até hoje dá que falar, embora tenha perdido para o camaronês Issa Hayatou. Já pode revelar hoje o que faltou para ganhar.

AM.: Quando me candidatei para a Confederação Africana de Futebol, o país não tinha dinheiro, porque, se tivesse seria eleito presidente daquele órgão reitor do futebol continental.

F&N - Não havia dinheiro para o país ou para a campanha?

AM.: As eleições para a CAF é coisa séria, tem de se campanha, há países apoiantes que fazem exigências de contrapartida, por cada voto. Tenho ainda comigo documentos confidentes que provam este jogo de bastidores. Um deles exigiu-me cem mil dólares.

F&N - O país não suportou a sua campanha?

AM.: No meu tempo não havia crise. Mas naquela altura se eu tivesse dinheiro teria ganho folgadamente. Repito, tenho uma lista de países que me apoiaram, como a Argélia, Nigéria, só para falar destes. 

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