SOCIEDADE

 
28 de julho 2016 - às 07:58

A RELIGIOSIDADE DO POVO ANGOLANO IGREJAS PELO INTERESSE OU POR UM NOVO POVO?!

“Somos pela religião contra as religiões” Victor Hugo; In "Os miseráveis"

 

A denominação X e Y erram nisso e naquilo, nós fazemos melhor, venham para aqui, que aqui vocês vão encontrar a salvação.”

“Abandona o mundo e vem para a igreja, pois, tudo o que existe lá fora faz parte do mundo. As pessoas que estão lá fora e não vêm a igreja, não são de DEUS e vão arder no mármore do inferno.”

“O teu tio Fulano e a tua prima Cicrana (ou muitas vezes, os nossos próprios pais ou pessoas que cuidam de nós como se fossem) é que te fazem mal. Abandona tudo, abandona a tua casa e vem para a igreja.”

“Estás doente, mas não precisas de medicamentos para nada, medicamentos são do mundo, criados pelas mãos de Homens iguais a ti, vem para a igreja e só DEUS te curará.”

Essas e muitas outras promessas são feitas por Homens que servem as várias igrejas, espalhadas pelo país aos seus fiéis. Fiéis estes, muitas vezes sem qualquer instrução e desesperados, que por promessas de vida melhor e próspera, felicidade e pleno alcance dos seus objectivos, entregam-se às igrejas, como crianças indefesas.

Em 1490, aquando da entrada dos missionários católicos a Angola, e sucessivos baptismos do Governador do Soyo e do Rei do Congo, em 1491, a Igreja Católica suplantou as “religiões” já existentes e  superou, sendo a mais abraçada pelos fiéis, e até 2002 as coisas iam caminhando para a estabilidade dessa realidade. O alcance da paz também propiciou a vinda de igrejas de outras partes do mundo a Angola e implantação de igrejas também angolanas, que tem sido cada vez mais crescente, fenómeno argumentado pelo Secretário provincial da IECA em Luanda, Américo Cassiquissa Lutero, como sendo resposta à necessidade dos agentes sociais de construírem redes de solidariedade e de se agarrarem a valores novos para enfrentar a desintegração causada pelo grande conflito armado que assolou o país. 

E dessa maneira, com muitas mais opções de escolha, a verdade é que tem se assistido assim a um “total abandono” de fiéis a crença cristã católica, para se refugiarem a muitas outras denominações onde hoje se vêem mais identificados.

O ano passado dados divulgados pelo Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos (INAR), mostraram que apenas cerca de 42% da população crente angolana pertence a religiões africanas, protestantes, igrejas evangélicas de origem brasileira, ao animismo e crenças indígenas, uma pequena comunidade muçulmana que ronda os 900.000 fiéis; apenas 1% é atéia, sendo que todo o resto vive sobre a crença cristã católica.

Isto denota que a Igreja Católica ainda tem o domínio sobre a população cristã angolana, mas, se antigamente ela liderava de longe e os números tendiam a crescer, com o passar dos anos, de 2002 a esta parte, podemos assistir a um abandono dos seus fiéis, mas não para ateus, e sim para outras denominações. O que hoje em dia parece muito curioso, é que os fiéis, até mesmo os que já foram católicos, fogem desta como Diabo da cruz. Apenas uma das dez pessoas entrevistadas para este trabalho, não foi católica antes de abraçar outra religião.

Ustinova Vaz, de 35 anos e católica desde que se conhece como gente, diz ter mudado para a protestante há um ano, porque achou esta mais forte no que respeita a fé, comparada a igreja católica.

Alcino Varela, que já foi um fiel da IECA e também da Universal, é hoje obreiro e pratica o Evangelho na Igreja Mundial do Poder de DEUS. Para ele, as voltas dadas pelas três igrejas por onde passou, serviram para fortalecimento mas a promessa é ficar pela Mundial, onde está desde 2011, tendo sido atraído por  um evangelho muito diferente, identificado por ele como o verdadeiro Evangelho do tempo de Paulo, Pedro e outros. “É um evangelho simples, eficaz e poderoso; que o servo Apóstolo Valdemiro Santiago prega o que vejo na bíblia”, disse.

E como é lógico, os fiéis, impulsionados pela ideologia de que DEUS se materializa de maneira diferente nestas denominações, preferem abraçá-las para as suas vidas. 

Alcino Varela diz que apenas na Mundial encontrou uma religião onde sente que cresce espiritualmente e se prega a palavra do jeito que ela é, simples, eficaz e poderosa, sem resenha de macumbas ou rituais macabros. Como, aliás, os Pastores e homens de DEUS pelas igrejas evangélicas argumentam que “é preciso ser imitador de Cristo, deixar de adorar imagens de escultura e outras coisas mais que não nos fortalecem e nos afastam da verdadeira comunhão.” 

Para o Pastor Felner Batalha, da Igreja Universal do Reino de Deus, a igreja católica é uma igreja bem conceituada, com os seus muito próprios fiéis, e embora não tenha nada a apontar contra ela, argumenta que “todos nós temos defeitos, mas eu pessoalmente digo que a igreja é uma bênção quando obedece às recomendações do Senhor Jesus, porque quando anda nas suas próprias leis e doutrinas, já violam os princípios da bíblia. Logo, já não verá as maravilhas bíblicas acontecerem no meio do seu povo, como nos relata o Evangelho de Marcos 16. 16 e 2Coríntios 12. 12”, sendo que para este a Universal é uma igreja que em tudo tenta andar segundo os preceitos do Senhor.

Dom Afonso Nunes, o líder da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, Tocoísta, diz que o seu apelo a todos os angolanos, crentes ou descrentes, vai no sentido de terem uma atitude positiva perante a crise de valores que abala as famílias, a igreja e a sociedade em geral, pois fá-lo pela união entre irmãos e não escolhas religiosas e outros motivos quaisquer. 

Entretanto, no meio de tudo, há quem diga conhecer a prioridade destas igrejas que vão surgindo. Para Joseana Calunga, atéia, “as igrejas, principalmente as mais recentes são criadas apenas para tirar dinheiro do bolso das pessoas. Eles sabem como entrar para as mentes das pessoas fracas e tirar delas todo o dinheiro que têm”. Dito também por outras palavras pela fiel evangélica Beatriz Venâncio, “as verdadeiras igrejas são os nossos corações. Somos nós que somos e temos o poder de fazer/mudar as igrejas. A mim, fartam-se de pedir dinheiro, mas eu como não sou nenhuma burra e sei que Deus não depende de oferta nenhuma e nem de dízimo para me abençoar, faço apenas aquilo que o meu coração manda. Nunca dou o que não tenho a igreja, aliás nem mesmo o que tenho. São gatunos, vão roubar quem não tem conhecimento”, ressaltou. 

Contraposto pelo Pastor Feliciano Vontade, da Igreja Mundial do Poder de DEUS, que diz que, a semelhança de qualquer Instituição, as Igrejas precisam de patrocinadores, “e os únicos patrocinadores da obra de Deus são os membros ,com os seus dízimos e as ofertas”, declarou.

Beatriz Venâncio diz ainda que vai a igreja porque precisa de ouvir a palavra de Deus e estar em comunhão com outros irmãos na mesma fé, porque aquilo que tenta é “superar-me todos os dias e dar o meu melhor a Deus, porque só ele é digno disso.”

Outra grande controvérsia, apontada principalmente por fiéis que pertenceram a Igreja Católica e já não pertencem, é que aquelas pessoas que vivem a abraçar, também, o feiticismo e tradições africanas inaceitáveis, facto argumentado por fiéis protestantes e evangélicos, como vergonhoso para quem se diz ser de Cristo. 

Ema Massunga, diz ter respeito pelas tradições africanas e angolanas, e noção, também, que muitas destas vão contra os princípios bíblicos, por isso tenta conciliar uma e outra coisa, não abandonando nem tradição nem preceitos bíblicos e leis instituídas pela Igreja Católica.

Para Dom Afonso Nunes, “Angola é um país com muitas culturas, e, neste contexto, os evangelistas e missionários têm de se adaptar à realidade de cada povo a fim de poderem se inserir e transmitir as boas novas a todas as nações”, concluiu.

A verdade é que com a religiosidade mais ou menos apurada, a sociedade continua mutilada pelos vários problemas que viveu e doente pelo que o povo e os vários agentes sociais dão de beber a ela. 

Como já dizia Sigmund Freud, na sua obra "O futuro de uma ilusão", em todos os tempos a imoralidade encontrou na religião tanto apoio quanto a moralidade; se há algum tempo fingíamos que não era esta a realidade, hoje notoriamente podemos confirmar que sim.  

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital