PAÍS

 
23 de maio 2018 - às 08:57

ANGOSAT 1 PASSA À HISTÓRIA; O 2 SAI EM 2020. SEPULTADO NO ESPAÇO E SEM RESIDÊNCIA FIXA

Apenas daqui a dois anos poderemos, de novo, fazer a contagem regressiva do lançamento de mais um satélite com marca registada angolana. Em 2020,os angolanos já estarão praticamente conformados com a perda do Angosat 1; aquele que foi capaz de “torrar”, quer em terra como em órbita, cerca de  trezentos e vinte milhões de dólares em pleno período de crise grave a que o país esteve sujeito. Nesta altura, os angolanos estarão também reconfortados com a demonstração da coragem “revolucionária” de alguns governantes que, apesar de terem  perdido a primeira batalha  neste quesito invulgar que é o domínio da engenharia aeroespacial, tentaram convencer a toda a gente que, sim senhor, valeu a pena arriscar de novo; investir forte no ramo das ciências da engenharia pura e dura destes tempos modernos

 

Daqui a dois anos, haverá certamente mais pessoas na Marginal, na Baía ou noutro sítio qualquer de uma Luanda tecnologicamente mais “chique” para testemunhar o lançamento do Angosat 2. Para trás , ficará a comunicação oficial da morte, que não foi súbita nem imprevista, do Angosat 1, na imensidão do espaço orbital, sem direito a uma derradeira homenagem decente e residência fixa conhecida.

Prevê-se que os principais actores deste evento  ainda estarão a liderar o processo de colocação em órbita o segundo satélite desta Angola capaz de sacrificar outros projectos mais terra-a-terra,  com benefícios mais imediatos para a maioria esmagadora da sua população pobre, miserável, sem escolas e postos de saúde, estradas, luz eléctrica, água potável e um salário digno.

Afinal, foram eles que estiveram desde o inicio do projecto completamente engajados para que o primeiro satélite do país colocado em órbita funcionasse, estivesse operacional e resultasse num investimento apreciado e aplaudido pelos contribuintes.

…Depois do seu lançamento no Cazaquistão, o engenho fabricado por empresas russas entrou em órbita e foram péssimas as notícias que chegavam do exterior do país, exactamente a partir de fontes consideradas geralmente “credíveis”. E, ao contrário do jogo do puxa-e-empurra das fontes geralmente optimistas angolanas quanto ao sucesso total do projecto Angosat 1, as estrangeiras despejavam notícias claramente frustrantes, levando que nas redes sociais  se desatasse milhares de comentários pouco abonatórios ao desempenho das partes envolvidas no processo de acompanhamento da vida em órbita do satélite.

Durante os últimos meses, o país esteve com os olhos virados para o espaço, a maior parte das vezes descrente quanto ao desfecho do Caso “Angosat”; mais um  antecipadamente julgado e sentenciado em hasta pública, sem que se esperasse por comunicações oficiais sobre o estado de saúde real da estrutura altamente sofisticada, caríssima, cuja marca registada de fabrico e manutenção, quer em terra como no espaço, esteve, nada mais nada menos, sob responsabilidade (para muitos) da maior potência mundial dominadora do universo espacial.

“Esqueçam, aquilo é um projecto que não vai dar certo”; “trata-se de mais uma das muitas loucuras que o país fez em termos de investimento…”; “ com o dinheiro  do Angosat 1, poder-se-ia resolver imediatamente vários problemas nos sectores da saúde e educação”; “ isto foi mais uma jogada política para que se obtenha mais votos nas próximas eleições”; “ já deviam dizer a verdade há muito tempo desde que se noticiou o seu desaparecimento”; “ agora vêm com palavras para confortar a malta e esta de que se está a negociar a construção de um novo satélite, só veio confirmar que o Angosat 1 já era…” - foi isto, mais vírgula, menos vírgulas e pontos e vírgulas, o que, em resumo, se leu nas mais diversas plataformas digitais durante  os expectantes meses de vida incomunicável do primeiro satélite em órbita timbrado com as bandeiras das Repúblicas de Angola e da Rússia.

No dia 23 de Abril último  e da voz tranquila do ministro das Telecomunicações e das Tecnologias de Informação de Angola, José Carvalho da Rocha, confirmou-se a notícia da construção, na Rússia, de um novo satélite nacional, o AngoSat-2, para substituir o primeiro; este mesmo que  fora lançado,  a partir do Cazaquistão (um dos países integrantes da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) em dezembro do ano passado. Motivo: o Satélite Um não funcionou como devia; não comunicou, deixou de dar sinais de vida útil; esteve à deriva, por vezes em local incerto, sem paradeiro e residência registada, tal como desde sempre alegaram  centenas de internautas “armados” em peritos  formados em engenharia aero-espacial...Só faltava também entrarem em órbita para constatar os factos, tal era a vontade de desmontar  de uma vez por todas os “esquemas” comunicacionais muito mal geridos arquitetados pelas instituições público-privadas ligadas ao projecto Angosat 1.

José Carvalho da Rocha encarregou-se de, praticamente, colocar o último grão de areia na “sepultura” do engenho: "Da análise que as nossas equipas técnicas têm estado a realizar, com bastante intensidade (…) verificámos que o AngoSat-1, apesar de estar em órbita, não apresenta os parâmetros para os quais foi contratado”, disse, acrescentando que diante desta situação, “as duas partes (Angola e Rússia), cingindo- se ao contrato e o artigo 12.º,  prevêem a construção de  um outro satélite, neste caso o AngoSat-2, “sem custos para a parte angolana". 

Quando prestou estas declarações, o ministro fez questão de estar acompanhado por representantes do governo russo e da Agência espacial do país de Yuri Gagarin e de outros astronautas que fizeram História. José Carvalho da Rocha deu a cara, explicou o que se passava e, na medida do possível, “responsabilizou-se” pelo passado, o presente e o futuro desta empreitada que vai transformar Angola num dos raros estados do mundo com capacidade para gerir um satélite e dele obter o essencial para o seu desenvolvimento tecnológico desejado. 

Ao que tudo indica, tudo já devia estar encarreirado para que o lançamento do Angosat2 seja um facto em 2020, pois já em Luanda, os angolanos e os russos colocaram tudo em pratos limpos, ao assinar uma adenda ao contrato de construção do satélite angolano com o consórcio da Rússia, formado pela S.P. Korolev e SC Energia.

A boa nova neste novo contrato ango-russo dedicado especialmente ao projecto Angosat 2, é que já neste documento rubricado em Luanda, impôs-se certas regras que deverão ser imediatamente cumpridas durante o período de construção do segundo satélite na Rússia. Uma delas, certamente a mais importante, é que  devem ser fornecidos os serviços de comunicações, tal como foram previstos. Uma questão de compensações pela perda do Angosat 1, onde tais serviços estavam previamente assentes.

Na cerimónia, o ministro manifestou o desejo do governo angolano continuar a trabalhar arduamente, para que os interesses  dos angolanos sejam bem defendidos, salientando que, neste contexto, conta-se com o apoio russo, no sentido de se percorrer um caminho que também deverá ser feito por várias gerações. 

 

NÚMEROS & FACTOS

EM ÓRBITA PARA SEMPRE...

O primeiro satélite angolano foi construído na Rússia e lançado em órbita, através do foguetão ucraniano Zenit-3SLB e a partir de Baikonur, no Cazaquistão, numa operação coordenada pela Roscosmos, a agência espacial russa. 

A construção  do Angosat 1 arrancou a 19 de novembro de 2013 e o lançamento registou-se a 26 de dezembro de 2017. A partir daí, foram péssimas as notícias sobre o estado de saúde do satélite em órbita.

Para que serviria o Angosat 1? Traria oportunidades de expansão dos serviços de comunicação via satélite, acesso à Internet, rádio, telefonia e transmissão televisiva.

No dia 27, a Rússia anunciou ter perdido o contacto com o Angosat. A informação foi avançada pela AFP, que divulgou uma interrupção "temporária, com perda de telemetria". 

A construção do AngoSat-1, de acordo com dados do Ministério das Telecomunicações e das Tecnologias de Informação, citados pela Lusa, envolveu três contratos, o primeiro dos quais, no valor de 252 milhões de dólares (205 milhões de euros), para a construção e o lançamento do satélite. 

Só a construção do satélite está avaliada em 120 milhões de dólares (98 milhões de euros) e um outro contrato, no valor de 50 milhões de dólares (40 milhões de euros), envolveu a construção de todo o segmento terrestre e o Centro de Comando de Satélite, localizado na Funda, arredores de Luanda.

O terceiro contrato, de 25 milhões de dólares (20 milhões de euros), serviu para alugar a posição orbital onde o satélite permaneceria durante 18 anos, de acordo com os dados divulgados pela Lusa. 

O governo angolano formou perto de 50 especialistas para garantir a gestão das infraestruturas inerentes, com o objetivo de reforçar os serviços de telecomunicações africanos.

Já estava reservada 40% da capacidade comercial, com participações acordadas de Moçambique, República Democrática do Congo, África do Sul e Namíbia. O que se vai fazer destes contratos, é o que poderemos saber nos próximos tempos. Mas tudo indica que as negociações não serão fáceis… 

Com o lançamento do satélite, caso as coisas corressem bem, Angola poderia tornar-se no sétimo país africano, ao lado da Argélia, África do Sul, Egito, Marrocos, Nigéria e Tunísia, com um satélite de comunicações em pleno funcionamento na órbita.

Dados avançados na altura em que se vivia mais um “momento histórico” para o país, já se anunciava que o Angosat iria cobrir um terço do globo terrestre.

O Angosat 1, ainda em órbita, mas  considerado “inoperante”, tem mil e 55 quilogramas e 262.4 quilogramas de carga útil.

Soube-se que “como satélite geoestacionário artificial, estará (ou esteve) localizado a 36 mil quilómetros acima do nível do mar e a sua velocidade coincidirá (ou coincide…) com o da rotação da terra”. Atenção: considerar esta citação duvidosa…

Quarenta e sete engenheiros espaciais foram formados na Argentina, China, Coreia, Brasil, Japão e Rússia, para garantir o seu funcionamento. A equipa de engenheiros é composta por 13 em canal de serviço, nove em análise de sistema, sete em planeamento, seis em administração de redes, igual número de directores de voo, quatro em balística e dois em gestão de projectos. 

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