PAÍS

 
1 de dezembro 2016 - às 18:58

ANGOLA: CRISE ENSOMBRA FESTEJOS DOS 41 ANOS DE INDEPENDÊNCIA

Quatro décadas ficaram para trás e com elas vive-se ainda um sentimento de nostalgia, muitas incompreensões sobre o passado e, nesta fase difícil da sua vida como país independente e soberano, crescem inúmeras dúvidas  em relação ao futuro dos povos de uma nação que, para todos os efeitos, continua a ser ela mesma; nascida debaixo da violência de uma guerra que dizimou sonhos de milhões, mas que, ao mesmo tempo, produziu uma elite de milhares de milionários pouco interessada em meter as mãos à bolsa para colocar Angola no seu verdadeiro trilho

 

Renova-se, pois, a saudade, a alegria incontida de muitos angolanos que,  no dia 11 de Novembro de 1975, mesmo debaixo de um clima  de medos, receios e incertezas quanto ao  seu futuro, souberam comemorar a data mais importante de um país  na altura completamente esquartejado, dilacerado, destruído.

Todavia, a noite de 11 de Novembro de 1975 terá sido madrugadora demais para que se visse o sol do dia seguinte com maior segurança.O país independente nasceria torto e poucos foram os estados que o reconheceriam como fazendo parte do contexto das nações livres.Por trás das boas intenções de uns e outros, escondia-se uma carga diabólica de gente absurdamente convertida em ideologias que, pouco tempo depois, foram atiradas  para o caixote de lixo da História.

Hoje a República de Angola, que já foi “Popular”, “Democrática” e “nem carne, nem osso” continua numa encruzilhada da sua História de sobrevivência ou de azares atrás de azares fabricados ora por inimigos internos como externos. Dependeu sempre das análises de onde os ventos, marés e luas provinham. Se do Norte, se do Sul, se do Oeste ou do Leste.Mas, na verdade, existiu sempre uma voz que resistiu, e, como disse o poeta: “que se pergunte ao vento que passa as notícias do país”. E os ventos jamais calariam as verdades sobre a sua gestão, a gestão das suas crises porque Angola e o seu povo foram capazes de atenuar parte delas, simplesmente para sobreviver,  e fazer com que o país saísse das cinzas e rumasse para a democracia e a paz. Foi duro!.

As fichas sobre a situação de guerra e paz podre em Angola foram atiradas à mesa como se se tratasse de um jogo  celebrado entre paredes meias pelos integrantes dos movimentos de libertação liderados pelo MPLA, FNLA e a UNITA, e com alguns provavelmente pouco interessados que os angolanos conquistassem o seu próprio rumo, nomeadamente os  representantes dos Estados Unidos da América, da União Soviética e uma “coligação” de países que se escudava no “muro da vergonha ideológica da época”.

Surgiram os Acordos de Alvor. Pela “disposição” dos principais interlocutores (Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi) em assiná-los e cumpri-los, notava-se, já naquela altura, que, mesmo com  alguns sorrisos para as imagens da televisão, os referidos papéis seriam pura e simplesmente rasgados, tal como revelou Almeida Santos, anos depois de Angola ter sido destruída por uma guerra de cerca de vinte e cinco anos( nem sei como é que tanto político nunca teve coragem de o dizer preto no branco, tal como era, em 1975, a incolor  Rádio-Televisão Portuguesa -RTP…).

O mais- velho Almeida Santos, dirigente do Partido Socialista português, que acompanhou todo o processo, diria o seguinte à Agência noticiosa portuguesa Lusa,  sobre o “alvorado” acordo assinado a 15 de Janeiro de 1975: “ Houve muito cinismo,desconfiança e uma enorme vontade de esmagar o “outro” esteve na base do fracasso deste acordo”. 

Na altura ministro da Coordenação Interterritorial, ele integrava a delegação portuguesa que assinou com os líderes dos três movimentos de libertação de Angola o acordo de Alvor, no Algarve: em resumo, mais palavra menos palavra, o “histórico” governante português declarava: foi "um pedaço de papel" que "não valeu nada"; "aquilo não resultaria", pois o  acordo "previa a eleição de uma assembleia política disputada por três partidos, que tinham por detrás três exércitos e três países cheios de ambições económicas e materiais", afirmou, em 2005, Almeida Santos para justificar a sua certeza de que a solução era "inexequível". 

Para Almeida Santos, já falecido além das disputas internas, “estava em causa o apoio aos movimentos de três potências mundiais, em plena guerra-fria - o MPLA era apoiado pela URSS, a UNITA pela África do Sul e, num plano de fundo a própria China, e a FNLA pelos Estados Unidos, "não apenas politicamente, mas com dinheiro, material e formação". 

Pena é que muitos dos angolanos que participaram, na altura, naquele desilustre quadro de negociações se remetam ao silêncio, como se nada tivesse passado desde então.

"Era um tabuleiro em que as grandes potências jogavam o xadrez ligado ao petróleo e aos diamantes", afirmou o político português, acrescentando que  Portugal teve "um atraso mínimo de dez anos e máximo de 20" no processo de descolonização em relação a outros países como a França, a Inglaterra, a Holanda ou a Bélgica e era preciso "encontrar uma solução" urgentemente. 

"As nossas tropas estavam saturadas da guerra, o que, de certo modo, levou à revolução do 25 de Abril" e originou uma "psicose de pressa", referiu, lembrando que, além disso, as tropas portuguesas estavam "à beira de uma derrota na Guiné-Bissau e em Moçambique a situação estava a deteriorar-se cada vez mais". 

Hoje, ainda torna-se necessário recorrer-se à história destes acordos para chegarmos à triste conclusão que todos  cometeram erros cruciais no processo de descolonização de Angola.Mas deve- se recordar também que , no meio de toda esta embrulhada, os nossos “libertadores” igualmente tiveram culpa no cartório. Ora, isto raramente é reconhecido entre portas e, quando convém, toca a “sacudir a água do capote” e culpar o colono e outros “neos” que viriam a dividir o país, produzir uma guerra que provocou centenas de milhares de mortos, órfãos de guerra, deslocados desta mesma guerra e uma vaga de refugiados e emigrantes só comparável ao que se assiste agora na Europa, quarenta e um anos depois. 

Importa recordar, ainda, que para Almeida Santos, “ a descolonização devia ter sido feita progressivamente, porque a própria opinião pública portuguesa "não estava preparada para um salto rápido" que implicava "a perda das colónias", mas isto gerou a desconfiança nos movimentos de libertação, que exigiram a negociação simultânea de um processo de paz”. 

Entretanto, declarou  na mesma entrevista à Lusa, que , à época, “o acordo de Alvor foi o acordo possível, em extremo de causa”. “É preciso ver que é um acordo entre três beligerantes, entre três exércitos em luta uns contra os outros. É mais um armistício do que um acordo de descolonização", disse, acrescentando que “ com este acordo, Portugal ganhou legitimidade para dizer: "isto é um problema deles, fizemos o que tínhamos a fazer, agora entendam-se". E remata Almeida Santos: “cada um defendia os seus interesses, interesses que cheiravam a petróleo e brilhavam como os diamantes, eram interesses muito fortes (…) "Infelizmente, (o Acordo de Alvor) foi apenas um pedaço de papel", disse, 30 anos depois. 

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital