REPORTAGEM

 
3 de abril 2018 - às 07:38

ALIMENTOS MADE IN ANGOLA NO HORIZONTE

Desafio lançado suplanta em mais de quinhentas toneladas de cereais os níveis anteriores, mas fica distante do necessário para o país.  Discussão do próximo OGE, tendo em conta a relevância que se vem conferindo a um sector que até vê baixar o bolo, promete aquecer a Assembleia Nacional após discurso do passado dia 16 de Outubro, mundialmente consagrado à Alimentação

 

P.R. COLOCA  TODAS AS  FICHAS NA  AGRICULTURA 

Surgiu do Huambo, na presença do Presidente da República, João Lourenço, o tiro de largada em direcção a uma Angola dissociada do petróleo, com a palavra de ordem a apontar para a produção de dois milhões de toneladas de cereais, cifra que deverá lançar bases para a redução das importações.  

Defensor de uma estratégia alternativa ao recurso que faz o Produto Interno Bruto (PIB), também assente numa indústria capaz de fornecer meios de trabalho, o Chefe de Estado definiu, diga-se, uma quantidade de cereais muito aquém da ideal para o fim da dependência externa. 

Dois milhões de toneladas, com realce para o milho, a base da alimentação dos angolanos, ficam distantes das doze milhões de toneladas anuais apontadas por especialistas do campo. 

O agricultor e pecuarista Fernando Teles e os seus colaboradores da fazenda Santo António, no Kwanza Sul, dizem que esta cifra exige que trezentas fazendas estejam a remar para o mesmo lado, sendo que cada uma deverá produzir 40 mil toneladas anuais. 

Olhando para a necessidade de espaços para o cultivo, salta à vista o anúncio do afastamento de gente que não produz, com o PR a questionar o que os levou a solicitar parcelas de terra ao Estado. 

João Manuel Gonçalves Lourenço, que um dia considerou ser necessário ‘’esquecer o petróleo’’, acrescentou que o relançamento da agricultura impõe outros desafios, como é o caso do fabrico em Angola dos tractores, das alfaias, de sistemas de rega e de outros factores de produção. 

Lembrou que os cereais são a base da alimentação da população e dos animais, que são a fonte para a extracção da carne. ‘’Os angolanos devem produzir a sua própria comida, ir reduzindo as importações e, mais tarde, pensar na exportação, o que permitiria captar divisas’’, apontou o Presidente.   

Lourenço ‘’corrige’’ Santos com Anjos - Se a deslocação de João Lourenço ao Huambo não tiver sido suficientemente esclarecedora em relação à importância que se confere à agricultura, o que parece pouco provável – a generalidade dos comentários diz tudo -, as coisas ficam arrumadas com a nomeação de um secretário para o Sector Produtivo. 

Membro do Observatório Político e Social de Angola (OPSA), o consultor Fernando Pacheco começa por sublinhar que estas nomeações marcam uma ruptura com o passado, já que são colocadas ‘’pessoas com tarimba’’ ao invés de recém-chegados das universidades, sem experiência em empresas ou na governação. ‘’Tais universitários não eram bons assessores para a Presidência da República. Foi uma das críticas que sempre fiz ao Presidente José Eduardo dos Santos, que nunca teve ao lado, em quase 40 anos, alguém que percebesse de agricultura’’, salienta o agrónomo, que prefere, todavia, esperar para analisar os resultados.  

Sem pretender, por uma questão de ‘’princípios’’, comentar nomes, Fernando Pacheco ressalta que, ao falar em conhecimento da agricultura, está a olhar para quem teve no campo a sua actividade profissional. 

Colocados os dados nesses termos, salienta que, goste-se ou não dele, o secretário, Isaac dos Anjos, tem uma experiência superior a trinta anos, capaz de proporcionar valor acrescentado a questões inerentes à produção. ‘’Se sempre se deu, pelo menos no plano teórico, muita importância ao sector, é natural que o PR tenha este assessor’’, realça o especialista, convicto de que outros colaboradores de João Lourenço deverão tratar da macroeconomia. 

Dos Anjos, que foi ministro da Agricultura antes de ter passado por um importante vale agrícola, o Cavaco, é um crítico em relação à importação de ‘’tudo’’ em Angola, inclusive palitos de dentes e picles.  

Pior do que os gastos que só movimentam outras economias, conforme deixou claro quando ainda governador provincial de Benguela, é que o país não muda de mercados de importação. ‘’Devemos parar e reflectir sobre esta vergonha. Nós somos uma vergonha porque importamos tudo’’, considera. 

 

UM OGE CURTO PARA ALTOS VOOS  

Logo após a abertura da época agrícola 2017/18, o Presidente da República tratou de reafirmar, no discurso sobre o ‘’Estado da Nação’’, a importância de investimentos na agricultura e industria transformadora como base para uma retoma do crescimento económico longe das amarras do petróleo. 

São sectores que podem alterar a estrutura do PIB, sustentou João Lourenço, também optimista em relação à criação de empregos e ao regresso às exportações. 

As palavras do líder do Executivo angolano foram ouvidas na abertura da primeira sessão legislativa da IV legislatura, na Assembleia Nacional, a casa que se prepara para acolher discussões em torno do Orçamento Geral de Estado (OGE) para 2018. 

A expectativa é, pois, bem mais acentuada quando se sabe que vários são os sectores da oposição críticos quanto ao bolo que o principal instrumento de governação coloca à disposição da agricultura.  

Os valores conheceram reduções nos últimos anos, chegando a menos de 1% do OGE, cifra abaixo da estabelecida na SADC, Comunidade de Desenvolvimento da África Austral. 

As observações críticas convergem em comparações com o ‘’muito’’ que se dá à defesa e segurança, uma área que o PR colocou na órbita da requalificação e modernização, sem nunca ter perdido o foco na agro-indústria como garante de empregos e exportação de produtos do ramo. 

 

NA PRESIDÊNCIA COM A CARTILHA DA CANATA

Canata (Lobito, província de Benguela), de onde saiu o terceiro Presidente da República de Angola, é, ainda, um bairro expectante

A eleição de João Manuel Gonçalves Lourenço, 63 anos, parece apagar as mágoas de um povo que sente na pele as dificuldades de A a Z. São, na verdade, dificuldades próprias da Angola real, afloradas na comunicação social talvez de forma superficial face à verdadeira dimensão do grito de socorro 

O dado a reter é que os munícipes, angolanos como os milhares de cidadãos espalhados pelo país à espera de prosperidade, acham que têm reforçada a legitimidade para exigir mais em prol do bairro que viu nascer o ‘’camarada chefe’’. 

Captados pela nossa reportagem junto de populares que conhecem a história da Canata, os pedidos incluem reparação de vias, mercados, valas de drenagem, escolas, centros de saúde e mais água e energia. ‘’Como é daqui, o senhor Presidente vai resolver tudo’’, acreditam. 

Num bairro a conviver com o espectro da criminalidade, houve quem pedisse oportunidade de emprego para jovens sem ocupação, como que conformados com a escuridão que teima em ofuscar a luz ao fundo do túnel. 

Quem conhece João Lourenço dos tempos em que era tratado de ‘mimoso’, como é o caso do regedor comunal da Canata, Joaquim Júnior, acredita numa Angola diferente.  ‘’Era chamado de ‘mimoso’ porque obedecia aos pais e fazia o bem’’, recorda a autoridade tradicional, que puxa dos galões o ‘’excelente trabalho’’ enquanto comissário (governador) de Benguela para justificar a tese acima defendida.  ‘’Estou certo de que, com a ajuda dos angolanos, fará um bom trabalho, é a minha fé num homem sensível aos problemas dos outros’’, reforça António Júnior. 

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