PONTO DE ORDEM

 
23 de dezembro 2015 - às 07:18

A INTENÇÃO E A COERÊNCIA

É verdade que não se consegue esconder a manifestação de descontentamento que a situação acarreta pelo que é mais fácil acreditar que, em função dessa situação, o MPLA decidiu abordar publicamente o problema mas escapa a ideia de que ele, enquanto Partido que governa Angola há quatro décadas

 

Não sei o que os dirigentes do MPLA, o partido político que há quatro décadas governa o País, pretenderam com o pronunciamento feito na recente reunião de quadros realizada em Luanda de que era chegado o momento de se acabar com a discriminação de quadros no País quanto a remuneração que geralmente redunda em pagar-se salários chorudos a estrangeiros e valores minguados a nacionais mesmo que a decalage em termos de saber seja grande à favor dos segundos. O que sei é que a sociedade, de forma geral, agastada com a situação que se arrasta desde há muito, aplaudiu mas demonstrou vontade de acompanhar os próximos capitulos na mira de mudanças radicais que possam atenuar um certo descontentamento que, em muitos casos, já não se pode esconder.

Pessoalmente não acredito em mudanças imediatas nesse comportamento infelizmente apadrinhado, em grande parte, por instituições e pessoas do cimo da pirâmide da governação, porque ao longo de todo esse percurso desde que Angola é País fomos assistindo a esse endeusamento do quadro estrangeiro em detrimento do nacional, um comportamento que deixa a nu um complexo de pensamento neo-colonialista daqueles que, chamados a desempenhar cargos de responsabilidade no governo, deveriam vestir a roupa patriótica e saber que na construção de uma nação é importante, senão mesmo primordial, que os principais actos sejam feitos primeiro na defesa dos interesses nacionais.

Não sendo assim, de forma geral, o que assistimos é a criação de uma sociedade de comportamento mercantilista onde, também nesses casos os angolanos que decidem, mesmo respeitando as excepções, encontram no gesto, de se beneficiar o estrangeiro mesmo sem se aquilatar da utilidade  das suas capacidades técnicas, uma forma de se ganhar dinheiro. Já não dá para acreditar que uma série de casos nesse sentido, que conformam manifestação de rombo descarado ao erário público sem contrapartidas absolutamente nenhumas para o desenvolvimento do País, se realize apenas por certa ingenuidade de quem a pratica.

É verdade que não se consegue esconder a manifestação de descontentamento que a situação acarreta pelo que é mais fácil acreditar que, em função dessa situação, o MPLA decidiu abordar publicamente o problema mas escapa a ideia de que ele, enquanto Partido que governa Angola há quatro décadas, e quer continuar, parece não ter soluções eficazes para liderar a mudança que se impõe precisamente por estar em evidência uma falta de coesão no seu seio. Não se sente, e é preciso dizê-lo com frontalidade, uma firmeza e coerência de pensamento e principios no seio de um Partido com larga presença na governação capaz de alimentar a esperança séria de mudança desse estado de coisas. Fica-se com a ideia que se está mais diante de uma posição de bancada, ou seja, com laivos populistas para porque não se vislumbra alguma estratégia de como o MPLA, com responsabilidades directas no rumo da governação, quer gisar mudanças. Na verdade, o que mais facilmente se evidência é o apadrinhamento de uma política do militantismo de cartão, por isso uma aposta na quantidade dos membros que possam ingressar no partido dirigente sem se cuidar com a qualidade dos quadros para melhor se motivarem e, em consequência, o seu engajamento nas tarefas que se prendem com o desenvolvimento do país se realizar de forma mais entusiasta e benéfica. No momento em que o país reclama por um aperto generalizado dos cintos para melhor se enfrentar os problemas decorrentes da crise económica e financeira  que se vive, este poderia ser um bom cenário para a mudança de mentalidades e de acção com o exemplo à partir daqueles que nos governam.  

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