DOSSIER

 
26 de novembro 2015 - às 19:11

A HISTÓRIA DA FAMÍLIA CAVACO: MINHA QUERIDA ANGOLA, EM TI EU FUI FELIZ

 

Vamos para Luanda, meu amor. A profissão de estivador tem destas coisas. Hoje aqui, amanhã ali e, Luanda é uma cidade bonita, quente e cheia de coisas boas que podem mudar a nossa vida. Vem comigo, Celeste. Vamos atravessar o Atlântico e viver juntos e felizes para sempre.

Foi assim que cresci. Sempre a ouvir falar de Angola e dos tempos maravilhosos que a família Cavaco viveu em Luanda. Domingos Cavaco foi o primeiro a ir. Decorria o ano de 1950, com apenas 25 anos partiu para a terra prometida. A pérola do Atlântico que florescia do tempo colonial português. 

Poucos meses depois seguiu Celeste Cavaco, sua esposa. Dois jovens apaixonados, com 25 e 23 anos partiram sem olhar para trás. Foi em Luanda, na Rua Manuel de Almeida Vasconcelos, nº 110, Samba pequena, Bairro Azul que se instalaram e viveram durante 26 anos. 

Foram pais de cinco filhos, quatro dos quais nascidos em Portugal. Era sempre assim. Andavam de porto em porto, sempre juntos e nove meses depois nasceu o Alfredo. Que faleceu prematuramente aos 7 anos de idade. Ficou no Cemitério do Alto das Cruzes e, uma mãe nunca se sente mãe quando deixa um filho para trás. Ano após ano, precisamente no dia 10 de Junho, de Portugal e das Comunidades, a vida decidiu pregar-lhes uma partida e levar o seu primogénito. E o facto de nunca conseguir trazer os seus restos mortais para Portugal, amarguraram para sempre a vida de Celeste. 

Além do Alfredo, existia, com três anos a Filomena, nasceu depois a Eulália, o António e, muitos anos mais tarde, fruto de um errado diagnóstico médico que previa um mioma, nasceu Mário. O filho mais novo, o único que nasceu em Luanda e que mais sofreu com os vários motins que se foram seguindo ao processo de descolonização portuguesa, à Independência de Angola e à instabilidade política em Portugal.

Muitas vezes, o mais novo ainda teve que se esconder debaixo da cama com a irmã mais velha, para fugir aos saques e pilhagens que começaram a acontecer após o 25 de Abril, em Portugal.

Domingos chegou a ter uma arma apontada à cabeça dentro de casa para abandonar tudo mas conseguiu resistir e proteger a sua família, cujo parte dela já estava em Lisboa. 

António chegou a Portugal com 11 anos. Reprovou o ano e o pai mandou-o para a metrópole como castigo. Nunca mais regressou. Do que se lembra, as brincadeiras no jardim da Samba, foram sem dúvida os momentos mais felizes da sua vivência em África e Eulália regressou com 17, a caminho de 18. Não assistiu a nada e lembra-se de uma infância e adolescência muito bonitas. 

“Atravessava o Prenda sozinha para ir para a escola. Nunca tive medo de o fazer. Sempre quis regressar e, fi-lo em 2013 para acompanhar a minha filha e o meu neto”, conta Eulália Cavaco.  

 

Era preciso pôr a família a salvo

De uma casa grande, com quartos para todos, um corredor com 30 metros quadrados, quintal, anexos e uma vida folgada, Domingos viu-se a braços com uma descolonização que empurrava de volta para Portugal a sua família. 

Aos poucos, Domingos foi conseguindo levar de volta alguns pertences mas, a maior parte das coisas seguiram quando já estava em Luanda sozinho, num contentor que fez questão de preparar e acompanhar até sair do cais, no navio, em direção a Lisboa. 

Algumas mobílias, roupas e o carro da família chegaram intactos a Portugal. O mesmo não se pode dizer do frasco da Nescafé que guardava religiosamente todas as pequenas preciosidades que ia conquistando. Tanto guardou que foi obrigado a perder o seu tesouro que poderia ter dado à sua família a independência que tanto desejou. 

Com uma arma apontada à cabeça, decidiu jogar ao fundo do mar aquele frasco de vidro cheio de pedras. Como disse ao agressor: “não são para mim, não serão para ninguém”. E assim perdeu o seu pequeno tesouro que conquistou durante mais de duas décadas. 

Os filhos, os únicos sobreviventes desta família acreditam que, se o frasco do café tivesse chegado a Portugal as suas vidas teriam sido muito diferentes. Assim, apenas conseguiram comprar um pequeno apartamento, no valor de 450 contos (2250€), com um quarto para quatro filhos onde passaram por muitos apertos. 

Já em Portugal, aos domingos, havia sempre sessões de música na casa de Domingos. Os discos e o gira-discos que também vieram de Luanda ecoavam nas paredes da sala e faziam-se rodas de merengue e semba para espantar as tristezas e lembrar o que Angola lhes deu de melhor. Ali foram felizes e por lá ficavam, não fosse a guerra que os trouxe de volta ao país de origem.

  

De colonos a retornados - O final da década de 30 tornou-se o motor de arranque para o desenvolvimento económico de Angola. Café (18 mil toneladas, em 1943), Sisal (12 mil toneladas, em 1941), cana-de-açúcar (4 milhões de toneladas, em 1940) e milho, entre outros começam a ganhar destaque como produtos de exportação, principalmente provenientes de Luena e Benguela.

Com o novo ciclo económico em Angola (até meados de 1972), altura em que a exploração petrolífera em Cabinda começa a surtir os primeiros efeitos, dá-se também uma das maiores vagas de imigrantes incentivados pelo próprio Estado português para ocupação das colónias africanas e exploração dos recursos ali disponíveis.

Julga-se que, entre 1941 e 1950, saíram de Portugal mais de 110 mil imigrantes com destino a África. A maioria fixou-se em Angola, também na década de 60. 

Em 1956 é publicado o primeiro manifesto do MPLA sobre a questão da descolonização. E, em 1960, os três movimentos de libertação FNLA,MPLA e UNITA desencadeiam a luta armada pela libertação do país que agora comemora 40 anos de Independência.

Para África, mais propriamente para combater e defender o até então território português, também seguiram vários elementos da mesma família. Felizmente, todos regressaram sãos e salvos muito embora, alguns nunca tenham recuperado traumas e atitudes que foram obrigados a tomar, muitos deles com apenas 18 e 20 anos, que nunca sequer tinham pegado numa arma.

Entre 1974 e 1976, cerca de 800 mil portugueses abandonaram Angola, e regressaram a Portugal apenas com a roupa do corpo e algumas notas no bolso. Passaram a ser rotulados de “retornados” e não eram vistos com bons olhos por quem tinha resistido aos apelos de Oliveira Salazar. Eram agora traidores e devolvidos pelo país onde optaram viver durante décadas.

Enxovalhados, discriminados e constantemente alvo de ofensas graves, os portugueses que regressaram das colónias nunca mais esqueceram a terra onde foram felizes, livres e bem-aventurados.

Desta família, apenas um elemento dos que viveram em Angola, antes do 25 de Abril de 1974, regressou em 2013, para acompanhar a segunda e a terceira geração de imigrantes que partiram para África em busca de uma vida melhor, noutras condições, é certo, mas melhor do que aquela que têm tido em Portugal. 

Curiosamente, o ano de 2015 também está a marcar o regresso de milhares de portugueses que não estão a resistir ao actual momento de crise, em Angola.  

De colonos a retornados, os portugueses que viveram em África continuam a guardar recordações da terra ocre e do cheiro do ar. Muitos não regressaram mas gostavam de o fazer. Só para sentir o calor humano como nunca sentiram em Portugal. 

 

Regressar, 38 anos depois - Foi em Maio de 2013 que regressei a Angola. Nunca nenhum de nós teve antes essa coragem, desde que desembarcamos em Portugal, em 1975. Mas eu fui. Fui porque a minha filha decidiu seguir as pegadas da família e partir rumo a Angola, em 2009, para provar do sabor com que cresceu a ouvir falar. Do cheiro, da terra, do calor, das pessoas. Partiu ao desafio de um novo emprego, e lá criou, durante algum tempo o seu filho, meu neto. Amou aquela terra. Regressou cedo demais porque as condições mudaram. Foi respeitada por todos e conheceu um modo de vida sem igual, desafiante, profundo e real, que muitos desconhecem, apesar das críticas que fazem, por estas bandas. Regressei. E tudo o que vi foram mudanças. Muitas. Mas muita coisa estava no mesmo sítio. Mais velha, mais degradada mas a Luanda onde eu vivi estava igual. Reconheci cada caminho, cada praia. Passei pelo Baleizão e senti a nostalgia dos dias em que o meu pai dizia, em casa: “hoje o pai tem dinheiro, podemos todos comer gelados e cada um escolhe o que quiser”. Em 2013, apenas existia uma velha carcaça no lugar do Baleizão. Isso sim me deu saudades. Passei pela Samba, Bairro Azul, onde vivi, visitei a escola onde estudei e o jardim onde brinquei. Confesso que o choque foi imenso, por todas as diferenças, pela falta de condições que não existiam no meu tempo mas, esta continua a ser uma grande terra, onde fui, durante 17 anos, muito feliz. 

Eulália Cavaco 

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