DOSSIER

 
23 de dezembro 2015 - às 07:35

ÁFRICA: QUE OPÇÕES PARA “LIQUIDAR” JIHADISTAS?

Ensaios de estratégias para combater Boko Haram e outros grupos terroristas em África parecem ineficazes. Para Idris Déby, presidente do Chade, Boko Haram tinha de desaparecer antes do fim do ano 2015. A Nigéria, por sua vez, deu seis meses ao exército para liquidar o grupo jihadista. Mas a legião extremista multiplicou as acções de violência. A perspectiva de uma negociação proposta por Boko Haram aos estados do Sahel está posta de parte. Que opções adoptar? Estudos avançam algumas hipóteses de soluções: conhecer as fontes de aprovisionamento dos jihadistas, detectar as vias de recrutamento, construir uma aliança militar coesa, mobilizar meios técnicos, instruir homens e aperfeiçoar os serviços de inteligência Outros especialistas consideram inútil a opção militar, propondo acções preventivas e conversão dos extremistas.

 

Idris Déby, presidente do Tchad, aconselhou os pares a afastar a perspectiva de negociação com Boko Haram. “Nada de dialogar com terroristas”, afirmou ao prometer liquidá-los antes do natal, segundo a France Presse. 

Após meses de operações de perseguição aos jihadistas, iniciadas em Fevereiro, a coligação militar ganhou algumas batalhas. Contudo, as actividades de Boko Haram parecem estar em ascensão. O assalto ao Hotel Radison, em Bamako (Mali), simbolizou a resistência dos extremistas, evidenciando a ligação destes à rede do chamado Estado Islâmico (EI ou Daesh) pelo facto de o sucedido se ter dado a seguir aos atentados de Paris, a 13 de Novembro.   

O problema que se coloca é o de saber por que caminho andar para “evitar acções terroristas”, como o prevê Déby, uma vez rejeitada a oferta formulada por Mahamat Daoud, sucessor de Abubakar Shekau (líder jihadista) ao governo da Nigéria. 

Caso haja uma saída susceptível de vergar Boko Haram, a outra questão a colocar será a de como encontrar também antídoto para erradicar outras organizações extremistas, entre as quais Okba Ibn Naffa (na Tunísia), Soldados do Califado (na Argélia), Ansar Beit al-Maqdis (Egipto), o braço do Estado Islâmico na Líbia e os Shebab, no corno de África. 

O curso dos acontecimentos dirá a que tendência se irá assistir no ano 2016, já que o Estado Islâmico lançou um apelo geral aos seus combatentes a fim de se instalarem na Líbia, vista como terreno fértil. A exortação pode ser encarada como princípio de transferência das bases e tem a ver com os golpes sofridos pela organização na Síria, nos últimos meses, com a entrada em cena do exército russo. O Estado Islâmico instalou uma base em Syrte, cidade simbólica por ser área natal de Mouammar Khadafi. Novos recrutas do EI recebem instruções e preparação ideológica em Syrte, no dizer dum responsável militar líbio à France Presse. 

O ministro líbio dos negócios estrangeiros, Mohamed Dayri, solicitou apoio da comunidade internacional. Enquanto predomina a confusão entre milícias rivais e dois governos antagónicos, o país oferece condições para a instalação de grupos extremistas. 

 

Estratégias contra Jihadistas - Os países da região do Sahel (Nigéria, Níger, Tchad, Camarões, Benin) anunciaram a instalação de uma Força de Intervenção Conjunta Multinacional (MNJTF –sigla inglesa), quando da cimeira militar regional em Junho. Sediada em Djamena (Tchad), MNJTF integrará 8.700 efectivos (militares e polícias).

A experiência recente demonstrou que a aliança entre os países do Sahel vem sendo prejudicada pelas divergências em vários domínios, marcadas por um discurso de culpabilização. A título de exemplo, em pleno curso das operações, a Nigéria acusou Camarões de criar obstáculos ao livre movimento das suas tropas no território do vizinho, no âmbito do exercício do direito de perseguição aos extremistas do Boko Haram.

O lugar cimeiro que o Tchad dá mostras de ocupar no plano militar no Sahel tem a ver com o facto de as respectivas forças armadas serem referência quanto à formação académica do oficialato, treino e preparação técnica dos soldados, disciplina no comando e capacidade de reacção em condições adversas.  

A desarticulação interna das forças armadas de alguns países da região justifica os insucessos dos planos conjuntos de combate ao terrorismo. Apontam-se, por exemplo, factores como a corrupção no seio do oficialato e de outras categorias de efectivos dos ramos das forças nigerianas. Durante o reinado de Goodluck Jonathan, o exército nigeriano somou cinco anos de actividades contra os jihadistas, sem ter alcançado resultados visíveis. O próprio presidente cessante passou a ser alvo de críticas públicas que qualificavam de inactivo o seu executivo, indo mesmo a acusá-lo de negligência. Ainda em relação a este país, conhecedores dizem haver, inclusive, falta de preparação física, táctica e de perícia no manejo do equipamento militar. Vincent Duhem, numa análise para a Jeune Afrique, relata o episódio em que um tiro de tanque matou um militar sul-africano, a 9 de Março 2015, resultado da inaptidão dos militares nigerianos numa sessão de manutenção do equipamento. O sul-africano pertencia a uma empresa privada de prestação de serviço às forças armadas. 

Outro ponto fraco na busca de estratégias contra o terrorismo está ligado à pretensa escassez de meios financeiros. Embora a União Africana tenha caucionado a iniciativa, na cimeira de Addis-Abeba (em Janeiro), receia-se que faltem recursos para concretizá-la na dimensão desejável. “A guerra será, sem dúvida, longa”, estima François Soudan, numa reflexão a propósito da cruzada contra jihadistas no Sahel. 

O compromisso das potências ocidentais seria o de apoiar os africanos em informações de inteligência, concepção de esquemas de operações militares e, no mínimo, numa presença de aviões não pilotados (“drones”). Porém, a nosso ver, a evolução dos acontecimentos e o contexto em que se ampliam as redes terroristas conectadas ao EI tenderão a aconselhar um envolvimento engajado do ocidente. Até aqui, as grandes potências tomam com cautela a possibilidade de colocar homens em campos de batalha devido às repercussões que as baixas possam causar no plano político interno. E isto sobretudo depois de críticas ainda presentes dos sectores políticos e da academia que reputam de inúteis as mortes de soldados no Iraque.  O recente anúncio de Barak Obama quanto ao envio de 300 militares aos Camarões diz respeito a operações bastante limitadas. Os efectivos da operação francesa Barkhane, por exemplo, têm por missão a recolha, tratamento e envio da informação de inteligência a Djamena, capital do Tchad, onde se situa o comando da coligação regional africano. 

Contrapondo a visão dos líderes políticos africanos e ocidentais, Pierre Conesa, estudioso de referência em questões de segurança, acha que o terrorismo não será vencido com meios militares. Exemplifica a sua perspectiva apontando as consequências do uso das armas no Iraque, no Afeganistão e na Líbia. Para ele, a explosão de uma bomba produz vítimas e gera, em represália, novos candidatos a terroristas. Como soluções possíveis, propõe “políticas de prevenção” junto de jovens muçulmanos, acções contra a radicalização (visando converter os radicais a mudar o seu ponto de vista), desmobilização que consiste em convencer indivíduos a abandonarem as actividades terroristas e a sua visão do mundo.

O investigador togolês Rodrigue Ngassam encontra outros factores de profusão do terrorismo em África na “incapacidade dos estados africanos em controlar os respectivos territórios de maneira eficaz”. “Há uma ausência dos estados” em vastas zonas do Sahel, o que explica, segundo ele, a passagem pela África de 40 por cento da cocaína vinda da América latina. O continente tornou-se ainda “espaço de negócio de drogas tais como a heroína vinda do Irão e Afeganistão. Numerosos grupos extremistas “confiscaram Sahel e os efeitos da guerra na Líbia acentuaram tão-somente a aparição de outros grupos”, escreve num estudo intitulado “Desafios do Terrorismo no Sahel”. O investigador inclui igualmente a pobreza das populações e a corrupção nas instituições estatais no conjunto de factores influentes do fenómeno.

Resultados positivos de uma guerra contra os jihadistas dependerão ainda do corte aos canais de aprovisionamento.

 

Fontes de provisão para jihadistas - O Centro de Análise do Terrorismo (CAT) identificou o tráfico de armas, estupefacientes, viaturas e cigarros como fontes de financiamento. Os grupos islamistas procuram diversificar a proveniência dos recursos a fim de alcançarem a autonomia. O CAT avalia em 20 por cento a contribuição de cigarros aos rendimentos, sendo tal produto o mais fácil de transportar e sensível à contrafacção. Cita-se o exemplo do líder do grupo extremista al-Morabitoune, Khaled Abou al-Abbass, que chegou a adoptar a alcunha de “Mister Marlboro” em face da sua dedicação ao contrabando de cigarros. Al-Abbass construiu uma rede de tráfico ligando Algéria a Mali.

A tomada de reféns também produz rendimentos a favor de acções terroristas. Segundo CAT, o grupo de A-Abbass adquiriu, a partir do ano 2008, material bélico, explosivos sobretudo, meios de transporte e de comunicação militar na sequência de negociações que se soldaram na libertação de reféns.

O estudo do CAT enumera alguns factores que favorecem o contrabando aos terroristas: a porosidade das fronteiras, a inexistência de sistemas de controlo, a corrupção e a fraqueza dos estados.  

Alguns estados africanos têm também apontado algumas fontes de aprovisionamento.  Numa acusação pública, em Março último, o então presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, apontou o Estado Islâmico como sendo patrocinador do Boko Haram. Combatentes deste instruíam-se em campos de treino do EI. “Sabemos que há laços”, disse confessando, entretanto, haver insuficiências nos serviços de inteligência dos países do Sahel que, no dizer dele, desconheciam como e quanto recebia em relação aos meios financeiros e “a quantidade de armas fornecidas” (pelo EI ao Boko Haram). Várias fontes disponíveis fornecendo estudos de peritos coincidem em indicar que boa parte das armas em posse dos jihadistas provem do exército nigeriano cujos efectivos as abandonam no campo da batalha. Algumas fontes responsabilizam redes de tráfico ilegal de armas na região. O dilema da proveniência das armas e equipamentos militares do Boko Haram e outros grupos islamistas provocou uma troca de explicações entre Paris e o Tchad, na sequência de uma afirmação segundo a qual cerca de 40 % de armas capturadas pelas tropas tchadianas ao Boko Haram eram de fabrico francês. No início do ano, o teor dos dizeres de Hassan Sylla Bem Bakari, ministro da Comunicação, deixavam entender que França estava posta em causa e poderia estar ligada ao fornecimento de armas aos jihadistas. A nosso ver, qualquer estado do Sahel teria alguns motivos para ponderação para tal tipo de pronunciamentos, dadas as evidências do investimento francês com vista à estabilização da região. Por contraditório que pareça, o Tchad é um dos principais parceiros da operação Barkhane, lançada pela frança. A citada campanha militar gaulesa teve como principal foco o eixo Sahel-Sahara, tendo como uma das finalidades o corte das vias de circulação da rede de tráfico ilegal de armas. Também efectivos da Nigéria, Mauritânia, do Mali e Burkina-Fasso intervieram.

Estabelecido um itinerário provisório de provisões para os jihadistas em África, resta completar a avaliação do panorama com hipóteses em relação às fontes de recrutamento de combatentes para Boko Haram e grupos similares. Estudos do problema apontam Nigéria e Camarões como principais praças de selecção de candidatos. A organização pro-EI dispõe de uma malha de informadores nas localidades e nas cidades, segundo anotações do estudioso Rémi Carayol. “Há mesmo cumplicidades ao alto nível”, afirma fazendo referência às instâncias das autoridades locais.

Outro elemento a ter em conta na planificação da guerra contra os jihadistas seria o de saber que programa político (ideológico ou confessional) pretendem realizar. Segundo fontes coincidentes, restaurar o chamado “Califado de Sokoto” seria, por exemplo, a prioridade do Boko Haram.

Sokoto diz respeito a um “estado” confessional estabelecido no século 19, no Norte da Nigéria. Estendia-se em nesgas de terra dos actuais Tchad, Níger, Burkina-Fasso e Camarões. Talvez seja esta a explicação para a expansão das acções de violência por esses países. Sokoto terá sido extinto com a colonização britânica. A lei fundamental do Sokoto designava-se “Charia”, isto é, “lei islâmica”. As aspirações em relação a Sokoto podem ser facilmente vistas na internet, já que a organização islâmica utiliza regularmente este meio de comunicação para expandir a sua mensagem.

Actualmente, só o Boko Haram controla mais de 7.000 jihadistas em toda a região. Trata-se apenas de uma estimativa, longe, portanto, da realidade, já que se calcula em mais de 5.000 homens o número de combatentes do EI apenas na Líbia. 

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