EDITORIAL

 
24 de abril 2015 - às 12:44

AFRICANOFOBIA

Com a permissão de entrada no seu País de milhares de cidadãos vizinhos que se ocuparam dos empregos mais baixos na África do Sul, o governo deveria se precaver em termos de legislação que proteja os imigrantes,

 

Na África do Sul, uma das grandes potências políticas  e económicas do continente africano regista-se novamente casos de Africanofobia (expulsão de africanos) que atinge fundamentalmente cidadãos de países vizinhos que, num passado recente, se constituíram em baluartes na luta contra o apartheid sofrendo por isso rudes golpes do então exercito racista.
A onda de africanofobia começou na cidade portuária de Durban e rapidamente se alastrou a outras cidades com especial incidência para Joanesburgo colocando-se em pânico milhares de imigrantes africanos que desde há muito alí constroem as suas vidas.Mas o mais grave, e que não deixa nada bem na fotografia as autoridades governamentais sul-africanas é que esta acção xenófoba não é nova e não abafa os problemas sociais que o País atravessa, cujas causas só podem ser imputadas a más políticas que vão sendo implementadas pelo executivo de Jacob Zuma, o actual Presidente.
Na verdade, em 2008, numa outra onda de ataques contra os emigrantes africanos, o País registou 62 mortes e 50 mil deslocados na seqüência de uma semana de sangrentas manifestações feitas por sul-africanos incapazes de conviver com os problemas sociais que enfrentam devido a essas mas políticas governamentais e descarregam a sua bílis contra os indefesos irmãos africanos, mormente de Mocambique, Zimbabwe e Malawi, vizinhos com maior número de cidadãos a trabalharem em território sul-africano e que ocupam, na generalidade, os trabalhos de rendimento mais baixo, desde a dureza nas  minas à limpeza doméstica. O saldo agora dessa atitude de baixo coturno também foi dramático com mortes selváticas, o que obrigou a tomada de medidas imediatas por parte dos países com os cidadãos mais atingidos. Instalou-se, assim, um clima pouco propício para uma solidariedade que deve ser fraternal na região e que vai trazer marcas na cooperação futura. Se é verdade que os actos de vandalismo praticados por cidadãos sul-africanos contra os seus irmãos africanos não pode ser entendido como uma decisão governamental, não se ignora que ele afecta sempre as relações e, no caso presente, tendo em conta a forma tardia e lenta como o executivo de Jacob Zuma reagiu, mais de uma semana depois do inicio dos ataques africanofóbicos.
Por outro lado, a cimeira extraordinária de Chefes de Estado e de Governo da SADC que terá lugar em Harare, capital do Zimbabwe (já depois do fecho da nossa edição), não é o melhor momento para Jacob Zuma fazer valer a supremacia de potência que o seu País é na região porquanto ver-se-á confrontado com duras criticas dos seus homólogos que o relembrarão a necessidade de um exame de consciência para ter presente os enormes sacrifícios que a África, em geral, e particularmente os países vizinhos consentiram para que os sul-africanos se vissem livres do apartheid. Os angolanos, por exemplo, não podem esquecer que fizeram da libertação da Namibia e da África do Sul a continuação da sua luta.
Com a permissão de entrada no seu País de milhares de cidadãos vizinhos que se ocuparam dos empregos mais baixos na África do Sul, o governo deveria se precaver em termos de legislação que proteja os imigrantes, sobretudo depois da experiência negra de 2008, evitando-se confrontos afroxenófobos e criando um ambiente cívico que não propague a ideia de que os estrangeiros que trabalham no País são os grandes culpados pelas enormes dificuldades sociais que o País hoje enfrenta onde se ressalta uma taxa de desemprego na ordem de 25%. Mas foi precisamente nessa direcção que se seguiu, abrindo espaço para que o Rei Zulu viesse a público acender o rastilho da violência ao dizer aos imigrantes que se não fossem embora a bem, iriam a mal. Com o fogo em brasa, o que se pretende e apela é a prudência de outros países para se evitar a resposta de olho por olho dente por dente mas, principalmente das autoridades sul-africanas, medidas enérgicas traduzidas em muita acção e pouco jogo de palavras com vista a se salvaguardar a solidariedade africana tão importante e indispensável para se fazer face aos enormes problemas que a região e, de uma forma geral, o continente enfrenta.  

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital