ÁFRICA

 
26 de dezembro 2016 - às 07:54

ÁFRICA KAGAME ENSAIA RECEITAS PARA O DESENVOLVIMENTO

Paul Kagame, Presidente do Rwanda, pretende guiar reformas para fazer da África um continente similar aos outros tidos como desenvolvidos. Além de unir povos, situa a economia no centro das prioridades. A África deverá ser capaz de dar e receber. O empreendimento tem o próprio país de Kagame como exemplo, hoje reconhecidos os avanços do Rwanda nos domínios da saúde, saneamento do meio, educação e ensino

 

Taxa Kaberuka para animar a União Africana - Kagame deu o primeiro passo logo depois de ser indicado para encabeçar as reformas. Introduziu a taxa de 0,2 por cento sobre as importações a fim de financiar a União Africana. Como se sabe, a organização sofria, até então, com a falta de recursos para funcionamento pleno. A iniciativa deve-se ao economista Donald Kaberuka, também rwandês, chamado por Kagame para integrar a equipa de conselheiros inteiramente consagrados a construir estratégias para o desenvolvimento. Conhecida agora como “taxa Kaberuka”, a fórmula foi adoptada por unanimidade na 27ª cimeira (Julho de 2016). Por ano, a UA disporá de 1,2 mil milhões de dólares. 

O facto de Kagame decidir rodear-se de cerca de uma dezena de especialistas africanos de referência não é o elemento mais importante para justificar o peso das reformas pretendidas. O procedimento tem a ver com a necessidade de evitar interferências e bloqueios vindos de chefes de estados. 

No dizer do comentarista Rodrigues Fénelon Massala, em Rwanda News, uma vez constituído exclusivamente por cérebros comprometidos com o desenvolvimento, com provas dadas em instituições de crédito mundial, o gabinete de Kagame estaria imune às intromissões políticas, 

A probabilidade do sucesso do empreendimento projectado para África inspira-se no próprio país de Kagame, o Rwanda, hoje reconhecido como exemplo de mudanças económicas e sociais pelos avanços nos domínios do saneamento do meio, da saúde, educação e ensino. 

Em relação aos progressos em vários sectores, Paul Kagame tentou associá-los à educação das mentes dos cidadãos. Segundo ele, as transformações económicas têm uma relação directa com o estado do espírito das pessoas. Apontou a valorização dos recursos locais (humanos e materiais) entre os factores para os avanços registados. “Só dispomos de dois instrumentos estratégicos: o modo de pensar das pessoas e a forma como exploramos e utilizamos os recursos”, argumentou em declarações publicadas por Financial Afrik. 

Como transformar com pouco - A mudança de atitudes, na visão de Paul Kagame, não se resume à capacidade técnica. Inclui, também, a esfera política e social porque diz respeito às pessoas. Para exemplificar, Kagame referiu-se à responsabilização na prestação do serviço público e na facilitação dos cidadãos. Estes devem investir, produzir riquezas e ganhar dividendos. “Os cidadãos devem participar na tomada das decisões mas devem também beneficiar”, insinua e acredita ser necessário valorizar capacidades existentes e a qualidade de bens produzidos no continente.

Kagame usa o conceito de “transformação” quando procura explicar o seu projecto de desenvolvimento do continente: “Tudo começa por uma visão clara e simples do futuro”. Exemplificando: “A experiência do Rwanda deu-nos algumas lições importantes: não temos necessidade de grandes fundos para começar. Basta avaliar e corrigir constantemente a via a seguir, sem presunção de atingir a perfeição nem procurar ajuda”.

Na visão de Paul Kagame, o estado deve encabeçar, catalisar, sustentar e investir, envolvendo parceiros com a intenção de debelar fraquezas do mercado e reduzir custos. 

A perspectiva de transformação proposta por Kagame exige dos países africanos uma “adaptação” às novas dinâmicas. “Temos de descobrir, o mais rapidamente possível, as melhores soluções e unir as pessoas para objectivos comuns”.

Para ele, o concurso de várias camadas da população para a realização da economia deve assumir marcas de um “movimento”. De tal modo, a África e os seus povos deverão organizar-se como um conjunto. “Cada país pode avançar ao seu ritmo, mas devemos instaurar uma dinâmica colectiva”. O caminho consiste, segundo ele, em “partilhar as melhores práticas e aprender uns com os outros”. 

Razão para as reformas em África - O Rwanda News fundamenta as razões das reformas propostas por Kagame invocando a “letargia” da União Africana em mais uma década. “África precisa de ajustar-se aos desafios do momento e responder às aspirações dos povos”, comenta.    

Dado o desejo de ver realizada a possibilidade de garantir o bem-estar das pessoas, Kagame votou para segundo plano os aspectos políticos, privilegiando a economia. Mas, como os avanços económicos almejados obrigam a unir todos os países, Kigali tenta resolver um dos problemas políticos: a reintegração de Marrocos na UA. 

Em Setembro último, o rei Mohamed VI visitou o Rwanda e ambas as partes abordaram a questão. A ministra rwandesa dos negócios estrangeiros, Louise Mushikizwabo, chegou mesmo a falar publicamente sobre este assunto, dirigindo-se à imprensa: “Está na hora de Marrocos juntar-se aos seus irmãos e suas irmãs”. 

Afastado da ex-OUA, em 1984, Marrocos disputa o território reivindicado por Sahara Ocidental. Marrocos controla-o, desde 1975. O conflito continuará a dividir as lideranças africanas, pois Marrocos recusa-se a conceder a autodeterminação à Frente Polisário. 

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