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2 de abril 2016 - às 16:52

Manuela Sande: A EDUCAÇÃO SOBRE A SAÚDE DEVE SER MACIÇA E CONSEQUENTE

Para falar de assuntos relacionados à Endocrinologia, especialmente o impacto da diabetes na população, obesidade e medicina preventiva, conversamos com a experiente médica da especialidade, Manuela Sande que chamou a atenção para a necessidade de um tratamento adequado aos pacientes bem como da pesquisa científica para dar outro impulso ao trabalho feito por especialistas angolanos. Para dar resposta aos desafios actuais, Manuela Sande falou-nos da criação em Angola das sociedades médicas de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo bem como a de Diabetes e Nutrição

 

Figuras&Negócios (F&N) - Tendo em conta a sua vasta experiência, quais são os desafios profissionais neste momento? 

Manuela Sande (M.S.) - Temos o grande desafio de tentar, junto com os colegas, formar aquilo que são as sociedades profissionais, sociedades médicas, para trabalhar em conjunto com os ministérios, principalmente o Ministério da Saúde e, mesmo, o Ministério do Ensino Superior, queremos dar as nossas sugestões para a melhoria da qualidade, penso que neste momento temos médicos em quantidade, o que deveria ser suficiente para uma atenção de nível médio, mas precisamos de melhorar a qualidade e isso só se faz com o trabalho de toda a gente. E o grande desafio é mesmo esse, criar associações para pressionar e trabalhar, no sentido de haver uma melhoria na qualidade dos serviços prestados. 

F&N - Na sua especialidade o que a preocupa no dia-a-dia, tendo em conta os pacientes que recebe?

M.S. - Enquanto Endocrinologista a maior preocupação é o desconhecimento por parte do cidadão sobre para que é que esta especialidade serve (risos). Ainda não se sabe muito bem qual é o objecto dessa especialidade.   

F&N: Já agora, esclareça um pouco mais sobre o trabalho dessa especialidade?  

M.S. - A endocrinologia trata das doenças que são provocadas por desequilíbrios hormonais, é uma ciência que trata das hormonas e nós temos vários órgãos no nosso corpo que fabricam essas hormonas e podemos fazer um breve resumo de quais são esses órgãos. No cérebro temos uma pequena glândula que se chama hipófise, esta glândula recebe as ordens do cérebro e depois sintetiza produtos que vão controlar as outras glândulas, localizadas mais abaixo. Assim, um pouco mais abaixo encontramos a tiróide (no pescoço), atrás da qual se encontram as quatro glândulas paratiroides. Um pouco mais abaixo encontramos o pâncreas que tal como as paratireoies não é directamente comandado pela hipófise. Depois temos duas glândulas chamadas supra-renais, que se chamam assim exactamente porque estão encima dos rins. Há ainda as gónadas, que nas mulheres são os ovários e no sexo masculino são os testículos e depois temos a maior de todas as glândulas, elas que todos nós (risos) nos queremos esquecer, que é o tecido adiposo, isto é, a gordura. A gordura neste momento está classificada como uma glândula endócrina e é efectivamente a maior glândula endócrina do nosso organismo porque está em todo o corpo. Assim, qualquer distúrbio que afecte qualquer uma dessas glândulas ou que esteja relacionado com essas glândulas causa doenças que a endocrinologia trata.

 F&N - Quais são as doenças que mais preocupam?

 M.S. - No trabalho diário em relação a hipófise, são as deficiências de crescimento. No caso de crianças que crescem pouco, há várias causas mas, depois de excluídas todas as outras, pode haver deficiência de uma hormona chamada GH, que é a hormona de crescimento. Também pode acontecer o contrário, o aumento da produção da GH e neste caso as crianças serão gigantes, são aqueles casos conhecidos como “o homem mais alto do mundo”, “a mulher mais alta do mundo”, na verdade são pessoas que têm desde tenra idade aumento da produção desta hormona GH. Quando o distúrbio aparece na idade adulta, as pessoas não se tornam gigantes, mas aparecem algumas deformações por exemplo, as mãos ficam muito grandes, os pés ficam muito grandes, o queixo fica comprido e outras anomalias. O problema é que temos alguns pais que se preocupam porque os filhos não crescem o suficiente mas, são muito poucos os que vêm ao endocrinologista, na maior parte das vezes são enviados por um pediatra um pouco mais atento mas ainda são poucos, queremos chamar a atenção aos pais, se já foram aos pediatras e já excluíram todas outras causas de pouco crescimento nas crianças, que consultem então um endocrinologista. Em relação a tiróide, temos muitos problemas, principalmente no interior da Angola, no Huambo, Bié, Cuanza-Sul e também mais para o interior, onde verificamos aquilo que se chama bócio endémico, que aparece com frequência em determinadas regiões, um bocado por falta de iodo e às vezes mesmo sem causa aparente, e muita gente já sabe que o endocrinologista é o primeiro médico que deve ser consultado.  

F&N - Tocou também na questão do excesso de peso. O que podemos fazer para combater esse problema?  

M.S. - Já é uma grande preocupação e mesmo eu, às vezes me pergunto o porquê que acontece, mas já percebi que há também razões culturais por trás desse excesso de peso. É claro que há o grande factor que é a urbanização das nossas sociedades e a nossa genética. Estamos a transformar, num espaço de tempo muito curto, sociedades rurais em sociedades urbanizadas, o estilo de vida está a mudar completamente de uma forma muito rápida, e quando digo estilo de vida, refiro-me à má alimentação, falta de actividade física, tudo isso concorre para o aumento de peso muito acentuado, mas também há questões culturais. Se reparar bem, a obesidade cá em Angola, nos últimos anos, é mais acentuada nas mulheres que nos homens, nos homens começa a partir de uma determinada idade mas, nas mulheres começa um bocado mais cedo, e eu já reparei que é porque o nosso ideal de beleza passa muito pela mulher “cheinha”, não tenho nada contra, mas o que digo é que é preciso que as pessoas saibam que podemos não ser magras mas é preciso manter um peso que seja bom, para que haja uma boa relação entre peso e altura, isso passa por hábitos saudáveis, as pessoas devem fazer exercício e devem se alimentar como deve ser.

F&N - Como é que avalia a prática da medicina preventiva e a própria aceitação dos pacientes em relação a isso?   

M.S. - Fez uma pergunta muito interessante. É preciso que haja prevenção massiva, uma prevenção maciça. É preciso um engajamento muito grande de todas as pessoas responsáveis pela prevenção das doenças, refiro-me aos meios de comunicação, ao Ministério da Saúde, até mesmo o Ministério da Educação, todos esses ministérios, todos esses actores devem efectivamente sentar-se e tentar fazer programas de prevenção da obesidade, e, através da prevenção da obesidade, prevenir outras doenças, como a hipertensão e a diabetes que é outra calamidade que nós temos. E como é que isso se faz? 

Como em todo o mundo, se você hoje em dia for a Europa, irá reparar que aquela população não é tão obesa quanto as pessoas dos países mais ao sul, e isso porquê? Porque nos países mais a norte, há campanhas muito bem estruturadas de educação da população de como é que se deve comer e repare que comem saladas, frutas, verduras diversas de forma bastante equilibrada, isso é fruto de uma educação ao longo dos anos, que começa logo na escola primária, onde recebem informação de como é que se deve comer, começam com os exercícios físicos logo na escola primária. É preciso que a educação sobre a saúde seja maciça, consequente e permanente.          

F&N - Mas no que toca a saúde pública, a melhoria da qualidade de vida e da saúde das populações, melhorar o saneamento básico também seria importante.  

M.S. - Seria importante e tem que ser feito, já sabemos que intervenções a nível daquilo que são infra-estruturas básicas são muito mais demoradas, exigem mais estruturação das cidades, mais dinheiro, exigem maior investimento. Contudo, há coisas que nós temos que fazer e ao mesmo tempo temos de aprender a exigir que os outros façam porque se nós não fizermos também não vamos exigir, se eu quero andar de bicicleta na Ilha então vou pressionar a nível do meu município para que haja uma pista para eu andar, correr, que haja um campo onde as crianças possam jogar a bola, enfim, tudo isso tem que ser feito mas é preciso que haja consciência da parte das pessoas.

F&N - Sei que está envolvida num programa de controlo da diabetes. Qual é o nível de alarme que podemos ter em relação a esta doença? 

M.S. - Vou começar por responder a última parte da sua pergunta, o nível de alarme deve ser alto. Neste momento a diabetes foi declarada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), porquê? Porque é uma doença que já afecta cerca de dez por cento de toda humanidade e dez por cento de 7 bilhões é muito! Oficialmente estão reportadas 415 milhões de pessoas com diabetes em todo o mundo mas sabe-se que cerca de 50 por cento das pessoas afectadas, não estão diagnosticadas, principalmente em países como o nosso portanto, o nível de alarme é, mesmo muito, alto.       

F&N - Não estão diagnosticadas porque não procuram os serviços? 

M.S. - Para Diagnosticar diabetes e, sobretudo, para que isso chegue a toda gente é preciso uma estrutura a nível dos serviços básicos de saúde que nós ainda não temos; nós vamos lutar para ter mas ainda não temos. O que nós podemos fazer é tratar adequadamente os que estão diagnosticados e isso é uma obrigação. É uma obrigação nossa como médicos, é uma obrigação do Ministério da Saúde. Quem está diagnosticado tem que ser tratado e depois é preciso trabalhar para detectar cada vez mais as pessoas de risco, aquelas que podem se tornar diabéticas num curto espaço de tempo e actuar junto a essas pessoas a nível preventivo. 

F&N - As consequências da doença são graves? 

M.S. - Exacto, é uma doença grave que mata uma pessoa a cada seis segundos, a nível mundial. Para além disso, é uma doença que se não tratada leva a grandes complicações a nível de órgãos diversos como por exemplo dos olhos, pode levar à cegueira, a nível do cérebro e do coração pode causar as tromboses e infartos, é uma das grandes causas de falência do rins, que leva as pessoas a hemodialises, a nível dos membros é uma das principais causas da sua amputação. Além disso, pensarmos que em países como os nossos, a diferença do que acontece nos países europeus a diabetes incide em idades entre os 29 e 60 anos, portanto, naquelas economicamente mais activas, então os custos económicos também são muito altos. 

F&N - E no âmbito do trabalho que tem feito nota que o número de pacientes vai crescendo? 

M.S. - Noto e todos os colegas notam, todos os dias há novos pacientes. Contudo, e esta é outra luta que teremos de empreender, temos saber ou pelo menos ter uma ideia, de quantos diabéticos temos aqui em Angola para podermos planificar melhor o combate a esta epidemia.  

F&N - Não têm esses dados?

M.S. - Não, não temos esses dados! A OMS calcula, com base em dados dos países periféricos e da zona em que estamos inseridos, que temos cerca de 185 mil diabéticos em Angola, mas note: a prevalência real em África anda a volta de 7 ou 8 por cento, se você pensar que nós somos cerca de 24 milhões é claro que não temos só este número, eu apontaria se calhar com algum risco, para o mínimo de um milhão. 

F&N - …E médicos com um atendimento humano porque, de um modo geral, são constantes as reclamações dos utentes sobre o atendimento do pessoal médico. 

M.S. - Este é um velho problema, em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão, nós somos cerca de 2 mil médicos para 24 milhões de pessoas, é evidente que este número é insuficiente, na minha óptica há uma sobrecarga muito grande sobre o técnico de saúde, sobre o médico, sobre o enfermeiro, sobre todas as pessoas que têm que levar os cuidados médicos à população. Nessas condições é natural que a relação não seja boa, é natural que enfermeiros sobrecarregados e mal pagos não reajam bem, é natural que se houver uma sobrecarga sobre o médico, a uma dada altura as reacções não sejam boas, agora isso não justifica tudo e é evidente que tem de se fazer um trabalho muito grande para humanizar o atendimento médico. É preciso que nós como médicos que lidamos com as doenças como diabetes, o que precisamos de fazer é dentro das sociedades médicas, fazer com que todos os médicos que cuidam desses pacientes tenham uma formação básica eficaz, que permite tratar bem essa doença a nível primário, e quando se registar alguma alteração no quadro clínico, este médico deve saber que essas complicações ultrapassam o seu âmbito e deve encaminhar o paciente ao especialista.         

 F&N - Como é que lida quando chegam crianças com diabetes?

M.S. - Faz-me uma pergunta muito interessante e digo porquê: a impressão que temos como profissionais da saúde é que a maior parte das crianças, infelizmente não nos chegam às mãos, deviam chegar mas não chegam, penso que grande parte dessas crianças perdem-se, provavelmente a nível da atenção primária e nem sequer chegam ao especialista e quando nos chegam notamos que é fácil lidar com elas mas o que é difícil é lidar com os progenitores, principalmente com as mães. O grande obstáculo que nós temos enfrentado para o tratamento eficaz dessas crianças são os pais das crianças que têm dificuldade em aceitar essa doença, aceitar que é uma doença que se pode tratar e se o tratamento for bem feito, a qualidade de vida será aceitável e sobretudo, isso evita as temíveis complicações na vida adulta. Temos nos outros países com um nível de desenvolvimento um pouco mais elevado pessoas que começam na infância com diabetes, aos cinco, seis e sete anos e que vivem até aos 70, 80  anos porque fizeram sempre bem o tratamento, porque a família ajudou, porque a família aceitou. O primeiro paciente a quem foi usada a insulina no mundo, em 1920, era uma criança quando foi diagnosticada, e a insulina não era o que é hoje, não era a insulina pura, não era uma insulina tão eficaz como é hoje e, no entanto, o paciente viveu até aos 70 anos. 

F&N - Falou no início que um dos grandes desafios é formar as sociedades médicas ligadas ao vosso trabalho. Fale-nos mais desta iniciativa. 

M.S. - Nós médicos endocrinologistas neste momento, formamos duas sociedades que do meu ponto de vista são extremamente importantes se soubermos fazer com que sejam os parceiros do Governo e essas sociedades são a Sociedade Angolana de Endocrinologia Diabetes e Metabolismo (SAEDM) e depois temos uma outra sociedade que é irmã desta, que é a Sociedade Angolana de Diabetes e Nutrição (SADN). Agora, pode-se perguntar se a de endocrinologia é já para diabetes e metabolismo porque que é preciso uma outra sociedade só de diabetes e nutrição? É que a diabetes dentro da endocrinologia tem um peso muito grande, a endocrinologia tem que cuidar da diabetes mas também tem que cuidar de outras doenças de que nós já falamos e que afectam outras glândulas. Então, tendo em conta o impacto da doença, normalmente os países têm essas duas sociedades. Os nossos projectos são dentro dessas sociedades, passar a informação aos outros colegas de como sensibilizar a sociedade e tratar do problema. Também temos de sensibilizar as estruturais governamentais sobre aquilo que é preciso ser feito neste momento para controlar e tratar a doença.         

F&N - Voltando para o seu trabalho, pelo curriculum que tem como é que vê a questão da pesquisa no campo da medicina em Angola, estamos a fazer pesquisas e os seus resultados estão a ser publicados?   

M.S. - Acho que alguma coisa tem sido feita mas a minha opinião pessoal, nesta altura é que já há mais coisas que deveriam ser feitas. Não tenho informação fidedigna a esse respeito mas por aquilo que tenho ouvido, o Ministério da Ciência e Tecnologia tem incentivado a pesquisa, agora o problema é que hoje em dia a investigação obedece a critérios bem definidos. Então, muitas vezes não chega só a boa vontade, é preciso que os nossos pesquisadores sigam esses critérios, é preciso que as estruturas financiadoras das investigações façam cumprir esses critérios porque se assim não for nós vamos continuar a assistir a falta de publicação dos nossos trabalhos. Temos muito poucas revistas científicas e as que saem, saem com muitas dificuldades e sem impacto no estrangeiro e para nós publicarmos os nossos trabalhos lá fora é preciso que os critérios tenham sido cumpridos e a maior parte das vezes não o são. então, quando o nome de Angola sai lá fora é porque está associado a outros grupos de investigação estrangeiros, temos que cortar este ciclo, temos que começar a incentivar a pesquisa científica angolana com critério para ser publicada fora do nosso país. Claro que tem de haver sempre parceria porque a ciência, hoje em dia, não se faz se não for em parceria com outros grupos que trabalham no mesmo campo, mas temos que ser um bocado mais rigorosos naquilo que são os critérios de investigação no nosso país. 

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