MUNDO

 
1 de dezembro 2016 - às 19:30

À BEIRA DA SEGUNDA GUERRA FRIA

A Rússia continua a mostrar o músculo militar, através de acções no Báltico, Mediterrâneo oriental e Ucrânia. Esta actuação é alimentada pelo aumento da tensão com os Estados Unidos e com a União Europeia

 

Agências noticiosas ocidentais informaram que a Rússia realizou um simulacro de ataque nuclear, envolvendo 4.000.000 de pessoas, em todo o país. Em paralelo, decorreram manobras com vasos de guerra, equipados com mísseis de cruzeiro de longo-alcance, no Báltico. Foi ainda reforçada a armada que intervém na Síria.

Um dos vasos colocados no Mediterrânio oriental é o único porta-aviões russo, para participar em ataques na Síria. Alguns analistas consideram que o «Almirante Kuznetsov» é um acto de demonstração de força. Porém, outros especialistas referem que se trata dum navio com deficiências no lançamento de aeronaves e de aterragem, devido ao pouco comprimento. Nota ainda que, num conflito de maior dimensão, seria um alvo fácil, pois é lento e emite um considerável fumo negro.

Possivelmente para consumo interno, o principal canal noticioso russo, Rússia 24, noticiou que batarias antiaéreas russas, na Síria, vão abater aviões norte-americanos e que a terceira guerra mundial já começou.

Por seu turno, os países da NATO vão dar seguimento às decisões da Cimeira de Varsóvia, de Julho passado, que prevêem o envio de quatro batalhões, envolvendo 4.000 militares, para a Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia – de acordo com as declarações após a reunião, de 25 de Outubro, dos ministros da Defesa da Aliança Atlântica. «Não é para provocar o conflito, mas para o evitar», disse o secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg – ou seja, a génese duma segunda Guerra Fria.

De acordo com o Governo da Alemanha, a Rússia realizou vários ataques informáticos contra o país e pretende influenciar as eleições legislativas de 2017. Nos Estados Unidos, responsáveis da candidatura de Hillary Clinton reportaram alegados ciberataques russos. Verdade ou não, o presidente russo, Vladimir Putin, manifestou simpatia política com Donald Trump.

Já na cimeira de chefes de Estado e de Governo da União Europeia, de 21 de Outubro, o presidente do Conselho Europeu referiu que a Rússia está a desencadear várias actividades, com vista ao enfraquecimento do bloco. De acordo com Donald Tusk, as acções passam por desinformação, ciberataques, violações de espaço aéreo e tentativas de interferências nos processos políticos.

Em meados de Novembro, representantes do Pentágono e do Departamento de Defesa dos EUA referiram, em off, a possibilidade de reactivação dos acordos para ataques aéreos conjuntos na Síria.

As fontes, citadas pelo The Washington Times, salientam que Donald Trump manteve uma conversa telefónica com Vladimir Putin, onde foi abordado o tema da necessidade de unir esforços no combate ao terrorismo.

Recorde-se que a 9 de Setembro, os EUA e a Rússia chegaram a um acordo para um plano para a coordenação de operações militares, dos dois países, na Síria. Porém, a 3 de Outubro, o Departamento de Estado norte-americano informou o final da cooperação, mas mantendo a comunicação para prevenir possíveis situações que possam afectar forças de ambas as partes. Moscovo classificou esta decisão como decepcionante.

Em meados de Novembro, a Rússia admitiu a possibilidade de reabrir negociações com o Irão para utilização da base de Hamadã, no âmbito dos ataques na Síria. Aí poderão ser colocadas aeronaves, como bombardeiros estratégicos (TU-22M3) e tácticos (SU-34), e sistemas de defesa antiaérea (S-300).

A Rússia ganhou aliados nas eleições presidenciais na Bulgária e na Moldávia – Rumen Radev e Igor Dondon, respectivamente. O primeiro afirma-se disposto a funcionar como ponte entre o bloco e o maior país do mundo. O segundo irá pôr fim à aproximação que se vinha a realizar.

 

NA ENCRUZILHADA - Um outro sintoma do sentimento de nova guerra fria é a vontade da Ucrânia em voltar a possuir arsenal nuclear.

Em 1994, em Budapeste, foi assinado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, entre os EUA, Grã-Bretanha, Rússia e Ucrânia. Ficou expressa a decisão de Kiev abdicar do importante legado da antiga URSS, obtendo como garantia da integridade do seu território.

A eleição de Donald Trump parece estar a deixar nervoso o poder político da Ucrânia, nomeadamente devido às palavras de alguma simpatia entre o presidente eleito dos EUA e Vladimir Putin.

O presidente ucraniano pediu apoio, ao futuro chefe de Estado norte-americano, contra a ingerência russa. Petro Poroshenko afirma não acreditar que Donald Trump pretenda alterar as relações com o seu país ou o reconhecimento da anexação da Crimeia.

Moscovo e Kiev continuam a denunciar alegados ataques nas regiões de Donetsk e Lubansk. A Rússia afirma ter apanhado mais um espião na Crimeia e a Ucrânia reporta o abate dum drone. 

 

RÚSSIA  ABANDONA TPI 

A Rússia abandonou o Tribunal Penal Internacional (TPI) na sequência da divulgação dum relatório preliminar sobre a anexação da Crimeia, classificando-a como ocupação. Moscovo alega que a organização não é verdadeiramente independente.

O tribunal, com sede em Haia, considerou a anexação da Crimeia, em Março de 2014, como um «conflito internacional armado entre a Ucrânia e a Federação Russa». A instituição salienta que a Rússia está a «empregar membros das suas forças armadas para exercer controlo sobre partes do território da Ucrânia», sem o avale do Governo ucraniano.

A Rússia assinou, em 2000, o Tratado do Estatuto de Roma, mas não o ractificou. Refira-se que nem os Estados Unidos nem a China o fizeram. Deste modo, estão excluídos da jurisdição do TPI. Esta instituição centra-se no julgamento de crimes de guerra, contra a humanidade e genocídio.

Dmitri Peskov afirmou que o relatório contraria a realidade. O porta-voz do Governo russo salientou a vontade dos habitantes da Crimeia, de adesão à Rússia, expressa em referendo.

A desistência russa acontece após a África do Sul, o Burundi e a Gâmbia terem saído do TPI, considerando que a instituição se está a concentrar quase exclusivamente nos países africanos. Desde o início da sua actividade, em 2002, o Tribunal de Haia» investigou dez casos, dos quais nove referentes a África: Costa do Marfim, Líbia, Mali, Quénia, República Centro Africana (dois processos), República Democrática do Congo e Sudão. Na Europa investigou apenas a Geórgia.

O TPI encerrou as investigações preliminares respeitantes à Coreia do Sul, Honduras, Palestina (1) e Venezuela. Neste momento, estão em investigação preliminar processos referentes ao Afeganistão, Burundi, Colômbia, Cômoros, Gabão, Guiné-Conacri, Nigéria, Palestina (2), Reino Unido (no Iraque) e Ucrânia.

A decisão do Kremlin não terá quaisquer efeitos práticos, de acordo com a organização não-governamental Human Rights Watch. Tanya Lokshina afirma que apenas demonstra que a Rússia não tem intenção de, no futuro, o ratificar e que não pretende cooperar com o TPI.

Crítica face às decisões relativas à actuação da Rússia na Geórgia, a Rússia acusa o TPI de nada fazer face aos ataques das forças georgianas a civis da Ossétia do Sul, região cessacionistas e que pretende juntar-se à Ossétia do Norte, território da Federação Russa. 

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