MUNDO

 
1 de dezembro 2016 - às 19:29

A AMÉRICA DE TRUMP

O que parecia um devaneio tornou-se realidade em 9 de Setembro de 2016: Donald Trump foi legitimado pelas urnas e será o 45º Presidente Americano

 

Trump, o candidato polêmico, agressivo, intolerante, caricato e sem filtros nos seus discursos, foi eleito, para perplexidade de bilhões de pessoas, para o cargo mais importante do mundo.

Até mesmo os seus eleitores, apoiadores e entusiastas, pareciam cépticos da sua vitória. Afinal, ao longo de sua campanha- desde o embate nas primárias do Partido Republicano, quando demoliu como um trator nomes de peso e, depois, com a sua nomeação oficial como candidato para concorrer contra Hillary Clinton- Trump não poupou quase ninguém e desafiou não só inimigos políticos, como também insultou minorias da sociedade civil, a imprensa, e antigos colegas, que retiraram os seus apoios a cada disparo raivoso do bilionário. Trump seguiu quase abandonado, como um cavaleiro solitário que se auto-financiou e sobreviveu a ataques midiáticos, ao fogo amigo de correligionários e, até, a acusações tardias de supostos assédios sexuais.

Parecia fadado a uma derrota arrebatadora nas urnas. Mas ele só não fora abandonado pelo mais importante aliado: o seu capital eleitoral, com quase 50 milhões de votos, em um país onde ir às urnas não é obrigatório. 

O candidato Trump mostrou-se como um nacionalista, xenófobo, homofóbico, sexista, protecionista, racista, e defendeu uma América para os americanos, com ameaças à política de imigração, cuja proposta mais infame é a da construção do muro na fronteira com o México. Por mais tresloucadas que soem suas bandeiras, é fato que, até hoje, estas encontram eco nos lares americanos de maioria protestante cujos pilares estão erguidos sobre a defesa da vida (anti-aborto), da família (leia-se apenas a união entre um homem e uma mulher), das guerras que ameacem a soberania e a segurança nacional, do direito de todos os cidadãos ao porte de armas, contra os imigrantes ilegais, a globalização, a liberalização das drogas e outras medidas liberais. 

Mas como será o Presidente Trump? Ele enfrentará o desafio de conciliar o cumprimento das suas promessas a fim de não desapontar os seus eleitores e, também  o de entrar no jogo de Washington. Tornar-se- á mais moderado? Esta é a grande especulação sobre a sua futura administração. Caso opte por uma via conciliadora de diálogos, poderá governar com relativa tranquilidade, pois tanto a House of Representatives quanto o Senado também serão compostos por maioria republicana. E Trump ainda terá o poder de indicar nomes para a Suprema Corte.

Então, afinal a que se deve a sua vitória, que foi recebida com choque e desapontamento por muitos? Os quase 50 milhões de americanos que deram voto a ele realmente ouviram suas propostas inflamadas e concordaram com elas ou foi Trump que percebeu a “voz silenciosa” e aos anseios da população americana?

Os institutos de pesquisa e a imprensa erraram feio nas suas projeções e davam como certa a vitória da democrata Hillary Clinton. A revista Newsweek já estava com sua edição pronta para circular com a Hillary e a manchete “Madam President”. 

A força eleitoral de Trump foi subestimada? Talvez. Mas o bilionário, que fez fortuna no ramo de casinos, empreendimentos imobiliários e em carreira televisiva, é a imagem projetada do que o americano médio admira: um self-made man que alcançou o American Dream, em termos e fortunas exponenciais. Teve as suas ascensões e quedas financeiras, e se reergueu diversas vezes. Histórias de superação fascinam os americanos. Isto talvez explique o facto de que, apesar de suas propostas ultraconservadoras, muitos tenham votado nele por motivacões pessoais e admiração por sua trajetória de vida, personalidade excêntrica e autêntica de dizer (e, às vezes desdizer) o que pensa. Trump é também um apolítico, que nunca exerceu cargos no Congresso e sem experiência no Executivo.

De outro ângulo, a tendência de guinada à direita é hoje uma realidade mundial. E não somente para uma centro-direita, mas o eleitor, tanto europeu quanto americano, tem se voltado para o espectro mais conservador.

Não é novidade que os Estados Unidos têm longa tradição de, após anos de democratas no poder, reconduzir republicanos menos liberais ou radicais e belicistas ao posto de seu líder supremo, como o predecessor de Obama, George W. Bush. Ocorre uma alternância recorrente das duas principais correntes no poder. 

Mas, após a onda de esperança que a eleição de Barack Obama suscitou, os seus dois governos deixaram a desejar tanto nos campos econômico, social, diplomático e das realizações. O legado de Obama não será superlativo. Ainda assim, ele estava certo que faria a sua sucessora, Hillary Clinton. 

Mas Hillary foi, mesmo tendo um adversário com tendências auto-destrutivas, a maior inimiga de si mesma. Muito se questiona sobre os Clinton, e Hillary, que chegou até a ter investigação aberta pelo FBI contra ela na reta-final da campanha, não convenceu os eleitores que possuía as credenciais necessárias para ser a primeira mulher a ocupar o posto politico mais almejado do mundo.

Estados de tradição histórica democrata não deixaram de votar nela, mas muitos declararam que o fizeram mais por falta de outra alternativa e mais um voto de rejeição a Trump do que um voto para ela.

Nos EUA, a votação é indireta, e embora Hillary tenha vencido em quantidade numérica no voto popular, perdeu no colégio eleitoral, onde Trump conquistou mais delegados (290 a 232). Trump não só ganhou nos estados inclinados ao conservadorismo, como também venceu em importantes swing states, onde os eleitores em geral são mais indefinidos, como na Flórida, Arizona, Carolina do Norte, Iowa e Ohio. 

 

DONALD TRUMP ELEITO PRESIDENTE DOS EUA

UM "APRENDIZ" NA CASA BRANCA

Donald Trump é o novo Presidente dos EUA, o 45º e iniciará funções na segunda semana de Janeiro de 2017. Bilionário, famoso e polêmico eram  ainda adjetivos insuficientes para o empresário Donald Trump, 70 anos, que agora também tem no currículo o título de presidente dos Estados Unidos. Dono de um império imobiliário, casinos e campos de golfe, o magnata vai se apoderar, em 20 de janeiro de 2017, da cadeira mais importante do seu país

Embora as pesquisas de intenção de voto indicassem o contrário, Trump venceu a candidata democrata, a ex-secretária de Estado e ex-primeira-dama Hillary Clinton, conquistando ao menos 276 dos 538 votos do Colégio Eleitoral em contagem parcial dos votos no dia 9 de Novembro.

Hillary obteve 218 votos nessa contagem e, apesar de aparecer com pequena vantagem nas pesquisas de intenção de voto, perdeu Estados importantes, como a Flórida, Ohio e a Carolina do Norte.

Trump assumirá o cargo até então ocupado por Barack Obama ao lado do seu vice, o governador do Estado de Indiana, Mike Pence. No seu discurso de vitória, Trump comprometeu-se a "renovar o sonho americano" e fez um apelo para a união do país. "Serei o presidente de todos os americanos, e isso é muito importante para mim".

"Para aqueles que optaram por não me apoiar, estou estendendo a mão para a sua orientação e ajuda para que possamos trabalhar juntos para unificar o nosso grande país", disse Trump, num apelo também pela união dos seus críticos, principalmente dentro do Partido Republicano.

O mercado financeiro reagiu negativamente ainda durante a apuração. Na Ásia, as bolsas registraram forte queda. O peso mexicano alcançou o nível mais baixo dos últimos 20 anos.

 

MELANIA, PRIMEIRA DAMA - Com Trump presidente, chega à Casa Branca a primeira estrangeira a ser primeira-dama desde o século 19.

Nascida na antiga Jugoslávia, a ex-modelo Melania Trump, 46 anos, manteve uma presença discreta durante a campanha do marido. O tropeço na convenção republicana de julho, quando se descobriu que havia plagiado parte de um discurso de Michelle Obama, a fez retrair-se ainda mais.

Apenas na última semana ressurgiu para um novo discurso, desta vez para apelar ao entendimento, no meio de uma das campanhas mais agressivas da história americana: "Temos de encontrar uma forma melhor de conversar, de discordar, de nos respeitarmos", disse, falando inglês com sotaque.

Melania também apareceu em programas de TV para defender o marido de uma das principais polêmicas dessas eleições -- o vídeo em que Trump se gabava de apalpar as mulheres sem o seu consentimento. "O homem que conheço não é assim", afirmou Melania. 

Quarto dos cinco filhos de Fred Trump, um construtor de origem alemã, e Mary MacLeod, uma dona de casa de origem escocesa, Donald John Trump nasceu no bairro do Queens, em Nova York, no dia 14 de junho de 1946.

Já na adolescência, Trump começou a causar polêmica. Aos 13 anos, agrediu um professor na escola e foi levado pelo pai à Academia Militar, na esperança de que a disciplina pudesse mudá-lo. Saiu de lá em 1964, formado e com a patente de capitão. Quatro anos depois, formou-se em economia pela Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, com o objetivo de tomar conta da empresa da família, a Elizabeth Trump & Son, dedicada ao aluguer de apartamentos de classe média em Nova York.

De facto, em 1971, tomou as rédeas da empresa e a rebatizou de "Organizações Trump". Mudou a sede para Manhattan e começou a sua saga de empresário megalomaníaco. Do alto da Trump Tower, um arranha-céu de 58 andares construído na Quinta Avenida, montou um império de hotéis, campos de golfe e casinos, amealhando uma fortuna hoje calculada pela revista "Forbes" em US$ 3,7 bilhões - o empresário diz ter um patrimônio superior a US$ 10 bilhões. 

Diferentemente do que gosta de propagar, nem tudo foi sucesso na carreira empresarial de Trump. Os seus negócios faliram quatro vezes e, na década de 1990, ele se viu com sérios problemas financeiros. Para se reinventar, foi parar na TV, apresentando o reality show "O Aprendiz" e lucrando com o showbiz, apostando em concursos de miss e outros projetos de entretenimento. Na sua vida pessoal, o presbiteriano Trump casou-se três vezes. A primeira em 1991, com a modelo tcheca Ivana Zelnickova, com quem teve três filhos: Donald Jr., Eric e Ivanka. Depois, em 1999, com a atriz Marla Maples, com quem teve uma filha, Tiffany Trump. E desde 2005 está com a ex-modelo eslovena Melania Knauss, com quem teve um filho, Barron William.

Por ter perdido o irmão mais velho, Fred, para o alcoolismo, Trump não bebe álcool e não fuma. Um traço curioso da sua personalidade é a obsessão por limpeza. Por ter medo de micróbios, ele evita apertar as mãos das pessoas, algo que se tornou um tormento a partir do momento em que virou candidato presidencial, a sua primeira experiência na política.

Em 2000, lançou-se candidato a presidente pelo pequeno Partido Reformista dos EUA, mas, antes mesmo da eleição, desistiu do pleito. Uma pesquisa mostrou que o empresário tinha 7% das intenções de voto em uma disputa contra o republicano George W. Bush - que venceria a eleição - e o democrata Al Gore.

Por nunca ter ocupado um cargo político nem participado de facto de uma eleição, a falta de experiência de Trump é uma das principais críticas feitas pelos seus oponentes. Para ele, no entanto, isso é algo positivo, já que não se vê como político. "Os políticos falam e não agem. Eu sou o contrário", afirmou em junho de 2015, quando se lançou pré-candidato à Presidência dos EUA pelo Partido Republicano.

A campanha eleitoral de Trump à Presidência foi marcada por gafes e constantes ataques à Hillary Clinton. Aos poucos, o discurso principal de Trump de "fazer a América grande novamente", que funcionou tão bem durante as primárias, deu espaço às polêmicas. Pela primeira vez, nenhum grande órgão de imprensa americano endossou a candidatura republicana. Parte da mídia, inclusive, foi acusada por Trump de fazer campanha pró-Hillary.

A rejeição de parte da opinião pública fez com que vários nomes históricos e relevantes do Partido Republicano abandonassem o apoio ao bilionário para concentrarem as forças nas eleições legislativas. O ex-presidente George W. Bush admitiu, por exemplo, que ele e a mulher, Laura, votaram branco na eleição recente. 

Durante a campanha, Trump ainda ofenderia refugiados sírios e seria acusado de não ter pago impostos federais por 18 anos. No entanto, o grande golpe sofrido pela campanha foi a divulgação de um vídeo no qual o empresário se referia a mulheres usando termos obscenos e degradantes. A declaração foi feita em 2005, quando Trump ia de autocarro a um estúdio de televisão.

O candidato foi acusado de machismo e chegou a pedir desculpas a quem se sentiu ofendido. No entanto, ele se defendeu dizendo que as suas palavras não passavam de "papo de vestuário" e disse que Bill Clinton, ex-presidente e marido de Hillary, tinha feito coisas muito piores. O episódio foi amplamente divulgado na imprensa e usado em dois dos três debates presidenciais por Hillary. A democrata, por sinal, foi considerada pela maior parte da imprensa local vencedora dos três encontros.

Após o vazamento das declarações de Trump e o surgimento de várias mulheres que se disseram vítimas de assédio por parte do bilionário, a debandada de republicanos da sua campanha foi ainda maior. O candidato, inclusive, criticou publicamente colegas de partido como o deputado Paul Ryan, líder na Câmara.

 

Dezassete Pré-candidatos - Donald Trump não era o candidato favorito do establishment do Partido Republicano. Quando anunciou ser pré-candidato à presidência dos EUA, poucos acreditavam que o bilionário seria o escolhido no fim das contas. Em 23 de março de 2015, um total de 17 políticos lançaram a sua pré-candidatura, entre eles o senador Ted Cruz, o ex-governador da Flórida Jeb Bush, o neurocirurgião aposentado, Ben Carson, o governador de New Jersey Chris Christie, o governador de Ohio, John Kasich, entre outros. Foi o maior número de candidatos numa eleição primária presidencial em toda a história.

Aos poucos, a maioria foi desistindo por conta do fraco desempenho nas primárias. Um ano depois, apenas três candidatos continuavam na disputa: Trump, Kasich e Cruz. No total, o empresário ganhou 41 primárias e conquistou 1.725 delegados para referendar o seu nome como o candidato do Partido Republicano.

No dia 19 de julho de 2016, Trump foi oficializado como candidato à presidência dos Estados Unidos, apesar do protesto de alguns opositores internos do partido. O bilionário enfrentou a resistência de importantes líderes e doadores republicanos, como a família Bush, o ex-candidato presidencial e senador John McCain, o ex-candidato presidencial Mitt Romney, o senador Marco Rubio e o governador de Ohio, John Kasich.

Durante a convenção republicana, surgiu a primeira polêmica da campanha. A mulher de Trump, Melania, copiou no seu discurso trechos de uma intervenção feita por Michelle Obama em 2008, na convenção que designou Barack Obama para concorrer à Presidência pelo Partido Democrata.

Como vice na chapa, Trump escolheu o governador de Indiana, Mike Pence, um cristão evangélico conservador que, ao menos, tem muita experiência como político, já que foi deputado durante 12 anos. Durante a campanha, precisou ser um ardoroso apoiador de Trump quando parte do partido debandou da candidatura devido às inúmeras polêmicas protagonizadas pelo candidato.

Quanto às propostas para os EUA, Trump chocou parte da opinião pública ao defender medidas enérgicas em relação à imigração. Ele afirmou que vai construir um muro para separar os EUA do México, com dinheiro bancado pelo país vizinho. Além disso, também disse que vai expulsar os 11 milhões de imigrantes ilegais do país e proibir a entrada de muçulmanos. Aos poucos, acabou suavizando o tom, chegando a dizer que o tema da imigração merece "uma resposta justa, mas firme".

Na economia, Trump prometeu aumentar os empregos e penalizar as empresas que querem deixar os EUA. Em relação aos impostos, o candidato sempre foi dúbio. Por vezes, defendeu a taxação dos ricos e, em outras, a redução total dos impostos para todos os americanos.

Trump também disse que revogaria o Obamacare, a lei que determina que todo americano deve ter plano de saúde, e que reanalisaria algumas alianças dos EUA. Para o bilionário, o compromisso com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) custa muito caro para o governo do país. 

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital