MUNDO REAL

 
6 de October 2020 - às 06:37

As “lives” e a valorização dos artistas que preservam a nossa cultura

No que toca a música, uma das formas que se encontrou para contornar esta situação é emissão de espetáculos ao vivo em que os artistas se apresentam e o público pode assistir via televisão, a partir de casa, preenchendo assim dias que nos parecem cada vez mais longos especialmente quando estamos confinados.

 

Os dias que vivemos não são fáceis, o mundo enfrenta a pandemia do Coronavírus que nos impôs uma série de limitações a população na luta contra um vírus altamente contagioso e letal. Estamos numa verdadeira luta pela sobrevivência.

Em meio a pandemia vários sectores da vida do nosso país ficaram afectados sendo que um dos que mais sofre é o sector cultural, os nossos músicos, que não podem realizar espetáculos, os actores que estão impedidos de se apresentar em palco, todo o pessoal qualificado que apoia os espetáculos como técnicos de som, iluminação e bandas, está tudo parado. As consequências são desastrosas.

No que toca a música, uma das formas que se encontrou para contornar esta situação é emissão de espetáculos ao vivo em que os artistas se apresentam e o público pode assistir via televisão, a partir de casa, preenchendo assim dias que nos parecem cada vez mais longos especialmente quando estamos confinados.

Para além de entreter as pessoas em época de confinamento as “lives” estão a ter um papel importante na promoção de grupos e cantores que preservam a nossa cultura, que cantam a realidade das nossas terras e há décadas promovem a nossa cultura, são grupos muito conhecidos e aclamados nas suas províncias, a nível do país e em alguns casos até internacionalmente mas que nunca tiveram o verdadeiro espaço no negócio dos espetáculos e muito menos o reconhecimento do Governo. 

Estes agentes culturais sempre ficaram a margem.

O negócio dos espetáculos é imediatista, normalmente dá primazia aos “artistas comerciais”, cujas músicas tocam nas rádios e que garantem lucro, mesmo nos órgãos de comunicação social nunca houve uma divulgação permanente dos artistas que preservam a nossa cultura, que representam a nossa vivência, a nossa forma de ser.

Nos espetáculos transmitidos ao vivo destaco o show com o grupo Sassa Tchokwe Internacional, que cantou as músicas emblemáticas do grupo e se apresentou com os seus bailarinos, incluindo os mascarados, trajados a rigor, conforme manda a tradição Tchokwe.

Destaque para o mais velho IlungaMabanza da Costa amplamente conhecido como “Rei da Costa”, que, vestido como um verdadeiro líder tradicional Tchokwe brilhou como vocalista principal da banda, com a sua voz com timbre perfeito. É bom ver que os cantores conceituados e experientes continuam em palco, a cantar e a passar o testemunho e o Rei da Costa, apesar das suas limitações físicas, fez questão de abrilhantar o espetáculo não decepcionando os fãs do Sassa Tchokwe Internacional.

O grupo Sassa Tchokwe merece uma atenção especial uma vez que é um verdadeiro embaixador de uma cultura que atravessa vários países, portanto, em palco representa não só Angola mas o continente africano, e a banda tem actuado em vários palcos africanos como a Zâmbia e o Congo Democrático. 

Estes shows ao vivo, transmitidos pela televisão, tiveram também a brilhante actuação dos Ndengues do Kota Duro, TunjilaTuajokota, os Jovens do Nambua (que surpreenderam aqueles que não conheciam o trabalho do grupo) e ainda Tata Ngana, só para citar alguns no leque de artistas brilhantes que têm passado pelas “lives”.

Outro dado importante a reter é que a actuação dos artistas mais conservadores atraiu muito mais público, gerou, inclusive, outros “shows” dos populares em casa, que foram partilhando nas redes sociais. Tem sido uma optima oportunidade para redescobrir a nossa cultura e vibrar com os nossos artistas.

Apesar de todo o sucesso que estes artistas fazem, da dedicação a cultura angolana, a maior parte não tem recebido do Governo o devido reconhecimento e apoio, nem apoio financeiro e nem institucional, ficando completamente a margem de tudo. Os organizadores de eventos também passam ao largo destes cantores, na maior parte das vezes optam pelos artistas comerciais.

É triste ver os nossos artistas em situação tão difícil, especialmente os mais velhos que dedicaram toda uma vida a cultura angolana!

Temos que tirar lições em tempos de pandemia e penso que o sector cultural é dos que precisa estudar, entender e interpretar o momento não só pela situação dos artistas mas por vários problemas que o sector enfrenta.  

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