DESPORTO

 
23 de maio 2018 - às 09:06

ESCÂNDALO DE CORRUPÇÃO ÁRBITRA SUSPENSA (SÓ) POR UM MILHÃO!

O futebol angolano, no qual sobravam dúvidas durante muitos anos sobre a (in)existência de corrupção na arbitragem, tantas vezes denunciada, mas nunca policial e judicialmente  investigada para provas, finalmente acaba de  ver à liça um ilícito do género: foi deliberada uma sanção contra a internacional angolana Marximina Luzia Bernardo, que apenas voltará a apitar em 2021

 

A juíza está suspensa por três anos, alegadamente por ter facilitado a vitória (1-0) do Benfica de Luanda frente ao União Sport do Uige, no dia 1 de Março, de 2014, numa partida realizada no Estádio 4 de Janeiro, a contar para a segunda jornada do Girabola, em que Diakité marcou aos 22 minutos.

Na altura,  Marximina Bernardo recebeu muitas críticas, muita contestação, a ponto de adeptos do União do Uíge terem acirrado os ânimos quando viram, em  primeiro lugar, as expulsões de Diavita e Raúl, aos 87 minutos e aos cinco minutos,respectivamente. Na ocasião, foi também exibido um vermelho directo ao avançado Milambo, factos que geraram tumultos no estádio.

Os adeptos chegaram a arremessar pedras, latas e outros objectos para o interior do  relvado e o pior só não aconteceu graças à pronta intervenção dos efectivos da Polícia Nacional. 

Já se passaram quatro anos. Antes da FAF ter trazido a público a punição,    uma fonte do Benfica de Luanda revelava que a árbitra internacional Marximina Bernardo estaria suspensa por três anos, a partir desta época (2018), por, supostamente, se ter provado a fraude.

Hoje, o Conselho de Disciplina da Federação Angolana de Futebol (FAF) considerou que a juíza, com experiência de 16 anos de apito aos lábios, cedeu à tentação de refceber Kz. 1.250.000,00 (um milhão e duzentos e cinquenta mil kwanzas), para facilitar o Benfica de Luanda no referido jogo.

Segundo o Comunicado Oficial nº 016/SG/18, de 18 de Abril deste ano, a Federação Angolana de Futebol (FAF) não teve dúvida:  três dias antes, isto é, às 14 horas do dia 27 de Fevereiro de 2014, pelas 14h02:00, os vice-presidente Carlos Brecha e Mário da Rocha orientaram o depósito do referido valor na conta bancária nº 00005607377, da árbitra Marximina Bernardo, domiciliada no então Banco Espírito Santo (BESA  Angola).

António Noé Prata, funcionário que, à data do jogo, exercia as funções de financeiro do Sport Luanda e Benfica,  foi quem, segundo a FAF, teria recebido ordens de Carlos Brecha e Mário da Rocha para depositar o dinheiro.

 

Auto-defesa - A primeira reacção da árbitra, quando o assunto sobreveio aos holofotes da imprensa desportiva e não só, foi de que se trata(va) de uma calúnia. Defendeu-se que, alegadamente, nunca esteve envolvida em corrupção na época de 2014.

"É tudo calúnia o que dizem a meu respeito. Não estou associada a algum  caso de corrupção. O senhor Alvarito (antigo dirigente do Benfica de Luanda) deve estar maluco. Já constituí um advogado e, por isso, já não me pronuncio sobre o caso. Quem quiser mais informações  contacte o meu advogado", disse, quando questionada a respeito.

Porém, o paradoxo é que no seu recurso à decisão da FAF, que chegou à imprensa, a árbitra implicitamente acabou por dar a "mão à palmatória", ou seja, admitindo ter sido alvo de corrupção.

Esta convicção decorre dos os pontos 1.2 e 2 da referida peça escrita endereçada ao presidente do Conselho Jurisdicional da FAF face à deliberação do Conselho de Disciplina do órgão federativo, onde Marximina Bernardo aceita, reconheceu ter agido"involuntária e inconscientemente", e, por esta razão, clamou por atenuantes plasmados na legislação em vigor,nomeadamente os "serviços prestados à pátria e por ser infractora primária".

"A recorrente lamenta o sucedido e retrata-se perante os agentes desportivos, por ter agido involuntária e inconscientemente; roga atenciosamente os benefícios atenuantes plasmado na legislação em vigor, em atenção os serviços prestados à Pátria e por  tratar -se de infractora primária", lê-se no recurso.

Marximina Bernardo rememora ainda no seu recurso que os factos remontam ao ano de 2014 e, assim sendo, "a recorrente pede perdão e benesses nos termos da Lei 11/16 de 17 de Agosto (Lei de Amnistia)".

Marximina Bernardo informa que durante os 20 anos de carreira nunca cometeu nenhuma infracção disciplinar ou ilícito penal e esteve sempre pronta para o cumprimento da missão, com humildade, determinação, disciplina e pontualidade.

Marximina Bernardo, sempre na esteira do recurso, e uma vez confrontada com a sua suspensão, argumenta que as alegações expostas na deliberação do Conselho de Disciplina da FAF estão desajustados com a matéria produzida na fase de instrução do processo disciplinar.

Revela, em acréscimo que, para si, Augusto Pereira da Silva "Alvarito" e Carlos Brecha, Mário Rocha (dirigentes do Benfica de Luanda) e  Catarina Manuel da Costa, são estranhas. 

 

Solidariedade - Em comunicado, o presidente de direcção da Associação de Árbitros de Futebol de Angola (AAFA), Vicente Domingos Garcia, considera que não foram verificados os princípios contidos no regulamento de disciplina, como a irretroactividade, a prescrição do procedimento disciplinar e extinção da responsabilidade.

"Não somos à favor da corrupção, tão-pouco das injustiças, mas pelo futebol e pela justiça. Assim, pelo exposto, rogamos ao Conselho Jurisdicional da FAF, para o bem da verdade e do futebol, anular  a deliberação do Conselho de Disciplina, em virtude de não cumprir com os pressupostos legais. Ainda assim, não clarifica os factos, somente quantifica os montantes monetários. Esta infracção remonta há quatro anos", lê-se no comunicado da AAFA.

Por seu lado, no meio de toda polémica, a direcção do Benfica de Luanda "contesta" a decisão que revela o envolvimento do Benfica de Luanda, clube  que, contra si, sentiu  a deliberação que também suspende Carlos Brecha e Mário da Rocha e, sobre eles, uma multa em kwanzas equivalentes à USD 5.000,00 (Cinco Mil Dólares).

A direcção do clube da águia sublinha, todavia, que Carlos Brecha e Mário Rocha já não exercem qualquer função no Benfica de Luanda e, assim, o clube considera que não faz sentido suspender quem já não está em funções.

Uma fonte do clube revelou, em anonimato, que o único responsável para autorizar que fosse feito um depósito na conta bancária da árbitra Marximina Bernardo seria Augusto da Silva "Alvarito" que na altura exercia as funções de secretário -geral do clube,  cargo em que foi afastado em 2017. 

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