RECADO SOCIAL

 
2 de setembro 2016 - às 07:30

“EM 1961 FOI PIOR!!”

Depois de 1961 não fomos capazes de nos sentarmos à mesma mesa para que num dia nos tornássemos mais irmãos e amigos da soberania conquistada,numa Nação reconciliada consigo mesma.Pelo contrário, de repente esquecemo-nos do tal  ano que foi pior; mergulhamos no caos; andamos aos tiros empurrados por impérios engajados em ver pretos a matarem pretos.

 

Faz tempo que os angolanos não sentiam no seu quotidiano uma frase que foi fazendo história ao longo de mais de cinquenta anos. Ela hoje surge ora como desculpa, ora como uma certa atitude conformista ou, no mínimo, para colocar em estado de alerta vermelho o que se está a passar e o que provavelmente virá nos próximos tempos em função do actual cenário económico e social que se vive. 

“Em 1961 foi pior!”. A frase  soa com tanta regularidade  que quem a ouve e não a interpreta com o devido realismo de um tempo eventualmente mais duro do que o presente, encolhe os ombros ou, no mínimo, questiona o seu simbolismo. Pois é: já passou mais de meio século e a frase  está viva e, para os mais optimistas, até recomenda-se. Com ela, os políticos mais ou menos idosos descartam logo a existência de qualquer cenário mais desgraçado e acabam logo a discussão das makas actuais. 

“Ó jovem: em 61? Foi muito pior e você não sabe o que é a vida!”. Alguns, especialmente apegados ao passado, rebentam a escala com outra grande bordoada que também não deixa de ser histórica: “ Epa, a culpa é do colono!”. Bom, não vamos  aqui misturar as justificações absurdas com as ridículas, pois só podem ser colocadas num espaço malcheiroso, mas, para alguns, politicamente concebível nas cabecinhas ocas de quem quer safar-se das responsabilidades de uma gestão danosa, vícios enraizados a nível das instituições públicas e paralelas, enfim, tudo isto metido no mesmo saco  deu no que deu: um país pedinte, com muita força de sobreviver como sempre, é verdade mas que as suas populações continuam a não perceber o que é que se passa realmente, depois de ter nos cofres do Estado massa suficiente para que não estivesse na situação aflita em que se encontra. 

…“Em 61 foi pior!”, mas a maior parte das pessoas não quer saber. Querem pitéu, casa, emprego, sossego e usufruir das riquezas nacionais que ao longo destes quarenta anos de independência foram literalmente delapidadas durante o conflito armado entre nós, contra nós, através dos outros, nunca a nosso favor.  Existem  dados estatísticos capazes de desmentir os factos ocorridos depois de 1961; que dizem que morreu mais gente, que tivemos mais deslocados ou refugiados de guerra; que tivemos uma população prisional maior, enfim.

Depois de 1961 não fomos capazes de nos sentarmos à mesma mesa para que num dia nos tornássemos mais irmãos e amigos da soberania conquistada,numa Nação reconciliada consigo mesma.Pelo contrário, de repente esquecemo-nos do tal  ano que foi pior; mergulhamos no caos; andamos aos tiros empurrados por impérios engajados em ver pretos a matarem pretos. Afinal, 1961 não foi nada pior do que 1975, 1977 ou 1992 prenhes em massacres jamais vistos.Postos neste século, reina a fome e a miséria e um país vergastado por chicotadas hipócritas e uma crise económica e social tão violenta quanto tantas outras que o povo heroico e generoso tarda em perceber. 

Alguém mais avisado disse que, desde o século passado, em Angola ainda não se está a “sarar as feridas” de uma guerra que aprofundou a divisão entre os angolanos ricos, pobres, remediados e desgraçados, mas sim, “está-se apenas a criar falsas cicatrizes”. Passaram-se mais de cinquenta anos e cá estamos nós a trilhar ainda os caminhos de conquista de uma paz assente em bases sólidas da democracia, tolerante e distante dos medos e receios de um futuro tenebroso.Teima-se em olhar para trás, na certeza de que o sofrimento de hoje não se assemelha em nada com o que ocorreu na década de 60. E se todos forem na onda absurda dos que dizem que em 1575  foi pior ou que a luta anti-colonial de Ginga MBandi, Ngola Kiluanji,Mandume, Ekuikui e outros heróis terá sido mais justa e que merecem ficar na história de Angola, ao contrário dos seus sucessores que postos no poleiro de um país independente ou supostamente soberano continuam sem moral alguma para dizerem seja o que for em nome do passado que eles próprios atiram para o caixote de lixo da história?  

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